segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Para Temer e amigos fiéis ao Deus Mercado, crise é sempre oportunidade


De Gaulle desfila no Rio de Janeiro, na década de 1960; teria
sido dele a frase que atribui ao Brasil a falta de seriedade, mas
foi de um embaixador brasileiro esse dito, que tem definido,
historicamente, a vocação brasileira de eleger políticos que
só tratam como realmente sérios os seus próprios interesses 
Para faturar sempre, sem intervalo ou descanso, a receita é o vale-tudo e Temer, com seu grupo, sabe muito bem disso; assim, compra quem for preciso e mostra o quanto a política está distante dos anseios da população, que considera o atual presidente uma desgraça para o país

Conta-se que Charles De Gaulle, presidente francês, teria dito, aí pela metade do século XX que o Brasil não seria um país sério. Não é verdade que foi ele quem disse isso, sendo mais precisamente atribuída a real autoria da frase ao diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil na França entre 1956 e 1964 e genro do presidente Artur Bernardes. Não importa, porque o que interessa é que a frase parece adequada e estes nossos dias vêm corroborar o dito.

Veja você que na semana passada o Congresso Nacional brasileiro votou, surpreendentemente, pelo arquivamento da denúncia do procurador geral da República contra o presidente da República Michel Temer. Isso impede que o Supremo Tribunal Federal o investigue e processe, mas apenas no caso da referida denúncia, fundada em denúncia dos empresários donos da empresa JBL, que apontava para a participação de Temer no cala-boca de Cunha, o homem que sabe demais.



"¿Viste que Fácil?" A pergunta parece se relacionar à manchete que
anuncia ter o presidente Temer se salvado do pior. Afinal, ele mostrou
como é fácil comprar votos no Congresso brasileiro e, mais uma vez,
confirma a falta de seriedade do nosso país no que tange à política
Projeto em ruínas
O mundo todo não exatamente ri, mas quase chora quando fala dessas coisas brasileiras. O New York Times diz que sobre Temer cairão novas denúncias e que a calmaria é temporária. O projeto do governo, porém, está em ruínas. O Le Monde fala do mecanismo de “convencimento” dos deputados para que votassem com o governo, baseado fundamentalmente em favores, créditos e liberação de emendas. Já o El País fala da saída de Dilma, lembrando que foram os mesmos que a tiraram do poder que mantêm, agora, o seu vice, que, cá para nós, está mais enredado em suspeitas e claros indícios de corrupção do que a candidata eleita em 2014. O jornal espanhol trata a questão de modo interessante, relacionando a unidade do grupo de deputados que sustenta Temer como manifesta no combate ao Partido dos Trabalhadores.

O ataque ao PT passou a ser o ponto de união para esse pessoal. O problema parece ser o de que, vencido o PT, a desarmonia se estabelece no grupo. Como já foi dito por alguém, é fácil conseguir dez vagabundos para um assalto, mas a coisa ficará difícil quando o produto do roubo tiver que ser dividido. Em outros termos, bem se pode dizer que enquanto um grupo tem um inimigo a combater, tudo vai bem, depois é que surgem os problemas. É costume dizer até mesmo que o Império Romano começou o seu declínio quando venceu o confronto com os cartagineses, seus mais virulentos inimigos.


"Mãos ao alto! Isto é uma crise para você e uma oportunidade
para mim!", diz o especulador que sonha com as reformas
para aproveitar a boa oportunidade e nos enterrar na crise 
Reformas do Mercado brecam, mas FT comemora e mantém esperança
O jornal The Guardian fala que Temer se safou, mas o Congresso ficou mal na foto, sem credibilidade, ao se postar ao lado de um presidente impopular, provavelmente o mais impopular da história brasileira. O Washington Post também sugere que a determinação de Temer em permanecer no Planalto é grande e que, para isso, teve que conseguir o apoio dos parlamentares, fazendo o que foi preciso fazer. O jornal francês Le Figaro se surpreende com o presidente brasileiro, que não tem qualquer apoio popular, mas tem muito poder para manobrar as forças políticas e conseguir o que lhe convém, inclusive mesmo as medidas de austeridade que o Deus Mercado tem como ideais para manter suas bênçãos sobre o Brasil. Observadores nacionais discordam disso e a impressão que se tem é que as malditas reformas antipopulares não irão em frente com o governo mantendo a cabeça no trajeto da guilhotina que a Procuradoria da República montou para decapitar Temer e alguns de seus assessores.

O The Times diz que Temer sobreviveu, mas que continua sob a mira das ameaças das acusações de ter recebido milhões de dólares em subornos da empresa JBS. O Financial Times (FT) parece ser o único a comemorar, pois, como se costuma dizer, tenta incessantemente dar voz ao Deus Mercado. Este, segundo o órgão da imprensa econômica inglesa, estaria bem feliz com a permanência de Temer, pois tudo indica que este é um bom aliado e tem se mostrado servil o suficiente para prejudicar seus eleitores e favorecer a ele, o Deus Mercado. A aposta dos mais otimistas entre os megaespeculadores que compõem o comando dessa divindade terrena é a de que Temer sobreviverá e, com sorte, fará as reformas que agradam a eles e a todos os outros que vivem usando a mão invisível para surrupiar o dinheiro do trabalhador.

Para golpistas e especuladores em geral, crise é sempre oportunidade
Fosse o Brasil um pouco mais merecedor de respeito por Temer e seu time de golpistas e fiéis do Deus Mercado e estaríamos com uma imagem menos sórdida na imprensa internacional. No entanto, parece que quanto pior estamos, melhor essa gente do mal fica. Crise, para eles, é oportunidade, não há dúvida. Oportunidade de acabar conosco

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