quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Jamais tantos foram dominados e controlados por tão poucos


O capitalismo financeiro é essencialmente improdutivo e gera necessariamente tristeza, insatisfação, desordem, doenças e mortes; mas o pior é saber que tudo isso não acontece por acidente e que pouca gente está feliz com a infelicidade da maioria

Fala-se hoje em Capitalismo Improdutivo. Ora, isso é o capitalismo financeiro, que não produz nada de útil, ou quase nada, para nós, humanos. É o capitalismo das ideias e finanças puras. Ideias puras como o liberalismo e o socialismo, proposições etéreas que jamais serão possíveis em nosso mundo real (vide textos "Belas ideias nem sempre trazem boas intenções" e "Liberalismo ♥ Socialismo: um caso secreto?"), mas que servem bem para distrair os incautos que defendem que o mundo real deve deixar de existir para dar lugar a uma fantasia de mundo ideal. 

As finanças puras são resultado das ideias puras. De tanto você viver em uma realidade irreal, mas logicamente bem elaborada, você passa a acreditar em coisas abstratas, admitir que ideias puras e ordenadas são bem-vindas em um mundo impuro e desordenado. No meio do caos, ou sob a ameaça dele, tudo o que puder ser idealizado traz um alívio ilusório, mas reconfortante e imediato. O dinheiro, graças à sua característica de quantificação perene e obsessiva, é bom, ótimo, para tranquilizar quem vive em constante desassossego. Daí que o dinheiro passa a governar, ou, mais precisamente, as finanças passam a governar. Finanças são valores puros, o dinheiro puro, sem produtividade material, sem cédulas ou moedas, etéreo e por isso onipotente e onipresente, gigantesco e assustador como se tivesse origem diretamente em Deus.

Veja, abaixo, um exemplo do que digo.

Um cassino ubíquo
Fala-se em cassino financeiro global e essa é uma boa imagem para descrever o espírito do capitalismo financeiro. As transações financeiras são algo descolado da realidade da produção e o mercado de derivativos, por exemplo, não negocia mercadorias, apenas índices (cotações de moedas, de commodities, taxas inflacionárias etc.). É um mercado de apostas, claramente, uma roleta virtual, sem dúvida. E se você pensa que se trata de um mercado secundário, com negociação de meia dúzia de dólares, abra o olho.

Tomemos o ano de 2013. As transações financeiras de derivativos alcançaram a assombrosa cifra de US$ 710 trilhões. Isso significa quase 10 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) mundial, isto é, 10 vezes o PIB de todos os países do mundo. Produção é que não existe aí. Mal comparando, a produção é um “montinho” e as transações etéreas, com base em dinheiro puro, inexistente, são um “montão”, uma montanha. Sandice é o único termo adequado encontrado agora para definir essa situação. Pior: não se trata de algo que está ocorrendo em um cassino em Las Vegas ou no Paraguai. Acontece no mundo, de forma ubíqua, pois contamina a todos, mesmo os que não têm como apostar nada além da própria vida. É um cassino cujo edifício não está em lugar nenhum e cuja roleta está em todo lugar.

Nada é tão ruim que não possa piorar
O Estado-Nação foi, durante muito tempo, tratado como um vilão: autoritário, rígido, interventor, ditatorial etc. Liberais e socialistas uniram-se para combater esse monstro de escuridão e rutilância. A diferença, claro, é que os primeiros desejavam sua demolição (ou quase isso), enquanto os segundos queriam extingui-lo, mas admitiam sua importância em um estágio transitório para o mundo do bem comum, chamado genericamente de Comunismo. Os liberais, na prática, o queriam apenas policial, para combater as ameaças à propriedade privada e à liberdade de empreender e de circular o capital. Os socialistas diziam que o usariam para a distribuição de riquezas e de poder.

O Estado-Nação era mau, sem dúvida, e continua sendo, com certeza. Mas, quando você tem um problema e o acha ruim, muitas vezes ao se livrar dele descobre que está em uma situação bem pior. Chega a ter saudade do antigo problema, em muitos casos. É que, em lugar desses quasímodos tenebrosos surgiram outras monstruosidades: as megacorporações globais, que não passam de gigantescos grupos financeiros e só. Há grupos industriais de diversos tipos sob o guarda-chuva desses monstros: de bens de consumo, de entretenimento e de serviços diversos, por exemplo. Assim, as corporações controlam o acesso da maioria esmagadora da população à alimentação, por exemplo, determinando a forma de cultivar, conservar, preparar e servir os alimentos. O mesmo se aplica à cultura, dominada pelo entretenimento, aos combustíveis e matérias primas minerais, incluindo, é claro, os objetos produzidos com base nelas.

Devastação lucrativa
Desse modo, tudo deve passar pelo corredor dos negócios, o mundo dos chamados dealers, e nesse corredor o lucro é a palavra de ordem e para conseguir o lucro não há regras éticas de cerceamento, salvo em casos muitos específicos. Desse modo, alimentos que não alimentam e mesmo que são nocivos à saúde podem ser comercializados e geram lucros, primeiramente para os dealers, depois para as empresas de serviços médicos, é claro.

Uma das regras básicas dessa patologia econômica é aquela ideia estúpida e pernóstica do crescimento indispensável e constante, tratada no texto “Quem cresce o tempotodo é o câncer”. Ideias, aliás, defendidas pelos donos do mundo identificados no texto “Quanto maior a crise econômica, mais lucram os bancos. Por que será?”. Crescimento constante e desmedido leva a desgraças diversas e desgraças diversas levam a mais lucratividade para alguns poucos. Essa é a lei em vigor e as consequências são a tenebrosa devastação ambiental, a contaminação da água, a extinção de espécies (dizem que mais de metade da fauna do planeta foi dizimada nos últimos 40 anos) e outras nojeiras patrocinadas pela ânsia louca do lucro. Doenças diversas explodem, superbactérias são identificadas e uma carga fenomenal de procedimentos médicos diversos é realizada, nem sempre atendendo às necessidades dos doentes.

Poder dos donos do mundo só cresce
Nos séculos XIX e XX, os que lutavam contra o capitalismo provavelmente o faziam em busca de algo melhor, mas não parece ter sido isso que aconteceu nos últimos tempos e não é algo melhor que temos neste terceiro milênio. Provavelmente, isso significa que o poder de poucos se desenvolveu desmesuradamente e alcançou um sucesso sem igual nos últimos anos, graças ao desenvolvimento assombroso das tecnologias de informação. Com esses recursos e os elaborados no plano do agenciamento subjetivo, a chamada classicamente “produção de bens simbólicos”, o grupo dos donos do mundo controla cada vez mais corações e mentes e, dada essa realidade, cada vez mais agrega poder. 

É possível dizer, neste momento, que, nessa guerra contra o poder central, sempre de muito poucos, estamos mal parados e não há perspectivas, ao menos com as condições atuais, de mudança no quadro. Somos capazes até de obter pequenas e localizadas vitórias em planos como o da identidade e o da cidadania, mas, no geral, mesmo esses pequenos e localizados triunfos parecem atender aos interesses do poder central. Trata-se de um momento de surpreendente centralização e controle de uma multidão de bilhões por parte de algumas dezenas ou centenas de pessoas. Algo inédito na história da humanidade. Jamais tantos foram dominados e controlados por tão poucos. 

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