sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Ele botou o seu bloco na rua

Sergio Sampaio foi um dos mais criativos compositores da música brasileira, porém, hoje, poucos sabem de sua existência e, pior, quase ninguém conhece sua admirável obra

Todos os dias é costume lá em casa ouvir música. Hoje, disse para minhas meninas que iria refazer o repertório do pen drive no qual estão as cento e muitas músicas que tocam diariamente e recebi ovações das duas, principalmente da minha amada esposa, que sentenciou: “Muda tudo, mas deixa o Sérgio Sampaio!”. Sábio pronunciamento.

Pouca gente conhece Sérgio Moraes Sampaio, ou simplesmente Sérgio Sampaio, que nasceu em 13 de abril de 1947 na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, a mesma cidade na qual nasceu aquele que é chamado de “Rei” e que todo mundo conhece: Roberto Carlos. No caso, o fato de todos conhecerem o tal “Rei” e quase ninguém saber quem foi o “maldito” Sergio Sampaio fala de uma característica essencial da cultura popular brasileira: o entretenimento é tudo e a arte não vale nada. Veja que enquanto o “Rei” me parece um representante do romantismo monocórdio e não demonstra qualidades musicais que justifiquem sua fama, Sampaio sempre trouxe consigo a marca da genialidade, assim como outros, também desconhecidos, como, por exemplo, Walter Franco. 


Sérgio Sampaio e Raul Seixas nos 60s
Show inesquecível
Sampaio morreu no Rio, onde viveu durante boa parte da sua vida, em 15 de maio de 1994. Tive a oportunidade de apertar sua mão, de ser apresentado a ele logo após a um show seu ao qual compareci levado por uma amiga comum nossa, a Isabel Teresa (eu a conhecia como Isabel, ele como Teresa e ela está citada em uma letra de uma música sua, “Coco Verde”), que ele chamada de “ariana”, referindo-se ao signo de Áries.

Foi o único show que assisti dele, mas ouvi demais suas músicas durante a minha adolescência. Sabia muitas de cor e admirava o espírito de suas letras e a diversidade criativa de suas melodias. É que eu não era muito de ir a shows, na verdade. Adquiri esse hábito já com dezoito anos, principalmente quando namorei com uma menina que ia a todos os shows que podia (seu nome era Cecília, se não me engano, e pude ver, nessa relação, o quanto as meninas parecem mesmo amadurecer mais cedo que os meninos – eu não era completamente tolo e infantil, mas era ainda um pouco, enquanto ela tinha uma profundidade que me fascinava).

Nesse show, Sergio Sampaio leu uma poesia de Augusto dos Anjos, o meu poeta maximamente preferido. Eu lia o livro “Eu”, único lançado por Augusto, todos os dias, várias vezes, e sabia (e ainda sei) recitar de cor (1) uma meia-dúzia de poemas do livro. Assim, foi um início fantástico de um show inesquecível.

Um compositor popular
Seu pai compôs a música “Cala a boca, Zebedeu”, que Sampaio transformou em um sucesso que muito tocou no rádio, pelo menos no Rio de Janeiro, onde eu e ele vivíamos. Um de seus primos, Raul Sampaio Cocco, compôs a música “Meu pequeno Cachoeiro”, que Roberto Carlos cantou e que virou um hino da cidade. Sergio Sampaio também queria ter uma música gravada pelo conterrâneo famoso e compôs “Meu pobre blues” para falar sobre isso, uma música que fala o quanto o “maldito” gostaria que o “Rei” gravasse pelo menos uma música sua. Até onde sei, Roberto Carlos não satisfez ao desejo de Sergio Sampaio.

Ouvindo, hoje, esse “maldito”, que muito andou e bebeu com Raul Seixas e Luís Melodia nos becos cariocas, percebo como era rica a sua concepção musical. De certo modo, Sampaio botou seu bloco na rua e, se poucos o conhecem, que ele tenha a certeza, esteja onde estiver, que os que se recordam dele e o ouvem até hoje o consideram um fenômeno, um dos maiores e mais criativos compositores que o Brasil já viu nascer. E era um compositor popular, como ele mesmo se classificava, isto é, não compunha para eruditos, queria ser ouvido pelas pessoas nas ruas, bares, ônibus ou trens, onde quer que fosse.

Segue, abaixo a relação de seus discos, com as músicas neles contidas.

Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (LP, Philips, 1973) (reeditado como CD em 2001)
Leros e Leros e Boleros
Filme de Terror
Cala a Boca, Zebedeu (Raul Sampaio)
Pobre Meu Pai
Labirintos Negros
Eu Sou Aquele que Disse
Viajei de Trem (com participação de Raul Seixas)
Não Tenha Medo, não
Dona Maria de Lourdes
Odete
Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua
Raulzito Seixas

Tem que Acontecer (LP, Continental, 1976, reeditado em CD pela Warner Music em 2002)
Até Outro Dia
Que Loucura
Cada Lugar na Sua Coisa
Cabras Pastando
Velho Bode (Sérgio Sampaio/Sérgio Natureza)
O que Pintá, Pintô
A Luz e a Semente
Quanto Mais
Tem que Acontecer
O Filho do Ovo
Velho Bandido
O Teto da Minha Casa
Ninguém Vive por Mim
Quatro Paredes

Sinceramente (LP, 1982)
Homem de Trinta
Na Captura
Tolo Fui Eu
Só para o Seu Coração
Essa Tal de Mentira
Meu Filho, Minha Filha
Cabra cega (S. Sampaio/S. Natureza)
Sinceramente
Nem assim
Doce Melodia
Faixa Seis

Cruel (CD, 2006)
Em Nome de Deus
Roda Morta (Reflexões de um Executivo) (S. Sampaio/S. Natureza)
Polícia Bandido Cachorro Dentista
Brasília
Magia Pura
Rosa Púrpura de Cubatão
Muito além do Jardim
Real Beleza
Pavio do Destino
Quero Encontrar um Amor
Quem É do Amor
Cruel
Uma Quase Mulher
Maiúsculo

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(1) Interessante notar que essa expressão “de cor” (fala-se “de cór”) vem de saber de memória e, como em um passado distante se acreditava que a memória residia no coração, ficou assim, algo como “saber de coração”. Ah, e se a memória ficava no coração, os sentimentos habitavam o fígado. 

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