domingo, 6 de agosto de 2017

Crise de quem, cara pálida?

Tem coisas que a gente fala, mas não pensa no que fala. O termo “crise” diz tudo e não diz nada, mas parece que, se resignificado no contexto da conjuntura contemporânea, pode nos fazer entender o mecanismo do sistema

Crise? Que crise? Há décadas ouço essa palavra constantemente. Ouço e leio, aqui e ali, de forma notável na mídia, a grande imprensa basicamente. É incrível, aliás, como a grande mídia, a imprensa bem capitalizada e que está em todo canto, servindo objetivamente a poucos, está em nossa vida. A própria “crise” sendo usada indiscriminadamente, por todos, para explicar praticamente quase tudo, tem origem midiática. Foram os telejornais, com seus comentaristas econômicos etc. que tiraram da cartola esse conceito amplo e impreciso de “crise”.

Dá para questionar a existência de uma crise ou, mais precisamente, perceber que a crise existe para uns e não para outros. Há os que pagam a conta que a tal crise faz e há os que ganham razoavelmente bem nesses momentos e, por conta disso, mantêm não apenas seu poder no posicionamento do mercado econômico, como o amplificam.

Alguém sempre ganha
Os bancos, por exemplo, sempre ganham e, não raro, ganham bem mais nesses momentos da tal “crise”. Não perdem, nunca, de todo modo. Inúmeras crises já mostram com clareza que a crise é um excelente momento de enxugar o dinheiro do mercado, com esse direito garantido pelo Estado, que sai em socorro dos bancos e evita a bancarrota injetando dinheiro que sai, inevitavelmente, das verbas que o Estado deveria utilizar para fins de todos. Na medida em que os bancos em crise ameaçam a própria estrutura social, conforme se pensa, ganham duplamente: levam uma grana em espécie e se financiam com mais força para a retomada econômica, que passará, é claro, pelos empréstimos e financiamentos bancários. Ganhar dinheiro assim é moleza. É um jogo fechado no qual alguns sempre ganham, haja crise ou não haja crise.

Há o fator relativo ao mundo das finanças, com os juros brasileiros astronômicos. Banco não produz nada, vive da intermediação financeira pura, negocia com títulos de toda ordem e não produz sequer um alfinete. São os movimentadores do dinheiro e, por isso, têm o jogo fechado em suas mãos. Uma empresa que atravessa a tal crise preferirá deixar o dinheiro sob a guarda do banco, para obter a remuneração baseada nos juros astronômicos. A empresa que produz é penalizada e o cidadão, tanto na sua posição de trabalhador como de consumidor, é penalizado. Vale mais a pena deixar o dinheiro em uma aplicação improdutiva do que gerar trabalho, renda e riqueza produzindo qualquer coisa. É um mundo de merda esse.

Crise é outra coisa
Quando ouvir falar de crise, sugiro que pense ser esse assunto relativo a mais um golpe ou resultado de algum golpe já conhecido. Golpe no sentido de arapuca, butim, curra ou qualquer coisa do tipo. Ouça falar ou leia sobre crise e pense nos piratas e em quantas crises provocaram em navios não piratas e em cidades costeiras. Pense numa quadrilha, num bonde do mal, em um arrastão. Crise é isso, mas sem violência física. 

Durante a crise os bancos e outros agentes financeiros se valem de sua força e prestígio diante das autoridades e limpam as fichas, seja em forma de movimentações financeiras, seja como injeções de dinheiro público para safar as instituições de suas supostas dificuldades. E esse dinheiro é o nosso, os que estamos no barco não pirata ou na praia no meio do arrastão.

Vícios e benefícios
A crise é um butim, um momento em que há o direcionamento de recursos e riqueza para a mão de poucos. É uma desgraça para muitos, principalmente para os mais honestos, de caráter mais firme e que têm alguma nobreza de propósitos. Mas é um deleite para outros, com características diversas.

É, em essência, talvez o espelho mais fiel da lógica de funcionamento do capitalismo e uma fraude conceitual muito popular entre grandes empresários, jornalistas e políticos. Afinal não é o capitalismo um sistema que se desenvolveu essencialmente na onda de péssimos hábitos como a apreensão civilizada de valores de outrem com base em fraudes financeiras, ideológicas, políticas e conceituais? É o sistema dos “vícios privados, benefícios públicos”, dizem por aí. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário