quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Agressões à língua estão se tornando mais comuns e partem de onde menos se espera

Em reunião com autoridades, observei um sem número de agressões indisfarçadas à língua, verdadeiras atrocidades que podem denotar desprezo total e completo pelo bem-comum contido na correta expressão linguística

A língua é o instrumento fundamental de comunicação dos que a utilizam, sempre. Comunicar, em tese, é um ato que remete ao que é comum entre um grupo de pessoas, um fator de identidade e de organização mental dessas pessoas. A subjetividade, a racionalidade e a sociabilidade se fundamentam na comunicação e há certas regras de composição interna dos elementos da língua que existem para facilitá-la, evitando mensagens dúbias ou com duplicidade que perturba a entendimento comum de uma mensagem. O mau uso da língua cria o que chamamos “ruído”, o que significa dizer que o emissor de uma mensagem produziu, voluntária ou involuntariamente, algum elemento estranho à comunicação e que a perturba.

Usamos a língua para encontrar termos que nos definam e a língua fala em nós e por nós. Isso significa dizer que a língua é um instrumento para que formemos, de forma autoral, uma subjetividade, mas que também nos forma, subjetivamente, enquanto personagens de uma trama. Logo, podemos dizer que somos ativos e passivos diante da língua, que nos expõe um mostruário de termos à nossa disposição para dizermos o que sentimos e pensamos, mas que, ao fazer isso, também nos determina uma forma de fazê-lo, delimitando as possibilidades de expressão e as direcionando para determinado sentido.

Boas e más falas
Falar ou escrever adequadamente costuma denotar uma capacidade mental bem estruturada, mas não necessariamente. No entanto, a boa fala ou escrita tem o poder de ser agradável e convida à prática da boa conversa e à formulação de boas ideias. Mais que tudo, demonstra o quanto o falante e/ou o escrevente se esmera na expressividade proposta pela riqueza da língua e, assim, trabalha pelo bem comum e pelo bem-estar, seu e dos demais. Indiscutivelmente, o bom falante e/ou escrevente colabora com o aprimoramento da língua e, desse modo, contribui para a qualificação cultural da comunidade da qual participa.

Falar ou escrever mal costuma apontar para limitações de pensamento e de conhecimentos linguísticos. Porém, é possível falar ou escrever bem, ainda que tenhamos deslizes aqui e ali no que diz respeito à norma culta. Isso significa que não necessitamos nos mostrar impecáveis ortográfica ou gramaticalmente por todo o tempo, notadamente no falar, pois há dialetos que deturpam propositalmente a norma culta como forma de rebeldia e de qualificação de certas características expressivas de determinados públicos. Mas, há erros ortográficos e gramaticais que mostram que o falante ou escrevente descuidam de se esmerar na prática da comunicação. Assim, socialmente, é importante cuidar para não cometer certos erros graves na fala e na escrita. Como se costuma dizer, cometê-los pode significar ser alvo de uma desvalorização social, em parte justificada, com toda certeza.

Zelo e compromisso
A pessoa deve tentar se expressar com clareza e o esmero no trato com a língua pode, nesse caso e em outros, ser fundamental para o sucesso da comunicação. Demonstrar habilidade na expressão linguística costuma denotar que a pessoa tem zelo em relação ao que é comum, que respeita a forma de expressão que a une aos demais e, mais que isso, demonstra um inegável compromisso com a melhoria dessa forma de expressão, o que certamente trará benefícios a todos. Nem todos nós prestamos atenção a isso, mas há quem preste muita atenção à forma como lidamos com a língua. Geralmente, no mundo do trabalho, das instituições e da cultura, há muitas pessoas que estão atentas a isso.

Uma autoridade, qualquer que seja, tem a obrigação de demonstrar zelo e compromisso com o comum. Trata-se de uma forma de entender a realidade sociopolítica, uma interpretação do que seja uma autoridade, é claro, e haverá certamente quem não concordará com isso, embora dificilmente se declare isso publicamente. Porém, a nossa relação com a língua e com tudo o que diga respeito ao que é comum, no sentido de comunitário, precisa ser a de empenho para nos ajustar às normas, preceitos e regras que promovam o bem-comum. Falar bem e escrever bem são, assim, condições fundamentais para que se possa dizer que alguém preza os valores comuns e investe no bem-comum. Condições mínimas, bem se pode dizer, mas...

Erros crassos
Todo esse preâmbulo para expor algo perturbador. Em uma reunião de um Conselho de Saúde de uma capital, ouvi e li, no último dia 09 de agosto, ontem, atrocidades linguísticas que me fazem questionar o quanto as pessoas que ocupam cargos de mando e autoridade na prefeitura e no poder legislativo prezam o comum. Para começar, a secretária municipal de saúde assina texto no qual, em vez de usar a conjunção coordenativa “mas”, usa “mais”, o que representa um erro gramatical crasso (1) e aviltante. Algo do tipo: “Os grevistas têm o direito de protestar, ‘mais’ não de deixar os pacientes sem atendimento”. Não pode ser sério, mas é.

Depois de observado o erro terrível, percebeu-se, com gravidade, que outros vieram, escritos e falados, de autoria de outras autoridades presentes. Foram inúmeros, a tal ponto que não se podia saber mais com certeza se era a gramática e a ortografia que estavam sendo aviltadas ou se, nessas condições, os erros se haviam tornado acertos e estes se haviam se transformado em erros e falar ou escrever corretamente seria algo proibido naquele ambiente. Uma vereadora expôs texto no qual havia diversos erros desagradáveis, como escrever “préestabelecido" e outras barbaridades pequenas e grandes com inacreditável variedade.

Quantos "degrais" tem a escada?
Autoridades menores também contribuíram para o linchamento público da língua, com a cumplicidade de todos os que assistiam à reunião. Houve os que apresentaram textos nos quais estava escrito pérolas como “as UPA’s” (UPA é a sigla de “Unidades de Pronto Atendimento”), utilizando o apostrofe nos moldes da língua inglesa, quando quer demonstrar que a vogal “i”, de “is” (conjugação do verbo to be), foi retirada. Se formos ler “as UPA’s” dessa maneira, devemos entender: “as Unidades de Pronto Atendimento de...”. Ou seja, as UPAs são de alguém, que não se sabe por que ou como, está oculto ou omitido no texto. E quando dizemos que é preciso ter muito cuidado com a língua é porque ao faltar esse cuidado, abrem-se portas para confusões generalizadas, o que, não raro, acontece.

A conjunção adversativa “porém” foi outra vítima das autoridades presentes. Em uma apresentação projetada na tela, não havia sequer um “porém” acentuado, o que nos remete à conjugação do verbo “pôr”, na 3ª pessoa do plural do infinitivo pessoal. Um erro ortográfico que pode e deve, porém, ser evitado. Um erro menor, ainda mais que não havia sequer um “porém” acentuado, porém, que não deveria ser cometido para o bem comum.

O pior, o que mais doeu no ouvido veio mais tarde. Um senhor de um importante instituto ligado ao governo do estado foi discursar e falou das “rúbricas", como se fosse algo normal uma rubrica se transformar numa “rúbrica” impunemente, estuprando a Língua Portuguesa, sem qualquer dó nem piedade. E uma senhora do poder municipal completou as atrocidades ao se referir aos “degrais” de uma escada de um hospital ou posto de saúde, tanto faz.

Maiores agressões à língua parecem partir de quem tem formação mais elevada
Saí de lá triste e angustiado. Afinal, havia assistido a tantas agressões à Língua Portuguesa que somente o mal-estar poderia me dominar naquele momento. E, repito, essas agressões não foram cometidas por pessoas analfabetas ou com baixo estudo; muito pelo contrário.

É o caso de dizer que de onde menos se espera estão surgindo as maiores atrocidades.

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(1) Um erro crasso se diferencia do erro comum, aquele que cometemos justamente porque somos humanos e estamos sujeitos a errar. O erro crasso é aquele que é inadmissível para a posição social ocupada pelo que comete o erro. 

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