segunda-feira, 10 de julho de 2017

Tudo está no seu lugar


“É que tudo está no seu lugar, graças a Deus, graças a Deus...
Não podemos esquecer de dizer: graças a Deus, graças a Deus”
PF decide fazer reestruturação burocrática e encerrará Lava Jato, enquanto políticos e empresários cantam antigo sucesso de Benito de Paula e muita gente rilha os dentes de raiva e diz que governo arrocha verbas da polícia para se livrar da dura

Sexta, no New York Times, deu que a Polícia Federal (PF) brasileira vai encerrar a força-tarefa que apoia a operação Lava Jato, aquela que ameaça agora o próprio presidente e seus ministros. Segundo o jornal, isso ocorre por conta de corte de verbas ou, mais precisamente, para frear o ímpeto investigativo que tem descoberto que a estrutura institucional política brasileira é podre e cheira muito mal.

Descontentes rosnam horrores
Alguns de nós estão fulos e com razão. De certo modo, Moro e seus parceiros desmantelaram uma quadrilha fechada e blindada, absolutamente e completamente sustentada por homens políticos e asseclas destes. É algo não apenas inédito na história brasileira, como encontra poucos precedentes na história mundial. Nunca antes se havia visto gente graúda como diretores e mesmo donos de grandes empresas jogados à exposição pública, algemados, julgados e condenados por corrupção ativa. O juiz e seu time fizeram um grande trabalho, não há dúvidas. Tanto é assim que, ao invés de incentivar e dar moral, o governo há muito se mostra incomodadíssimo com os paladinos.


"Não tenho nada com isso", diz o presidente, que saiu das confortáveis
sombras dos bastidores para os cruéis holofotes da execração pública
Já os contentes abrem champanhes
Outros, porém, são mais realistas e não gostam mais do que está acontecendo nesse campo político. Para eles, a Lava Jato incomoda a todos, gera angústias, sobe os preços e tudo o mais. Melhor deixar como está, dizem. A corrupção já seria algo incorporado ao sistema de tal forma que, garantem, mesmo agora, enquanto a justiça, com seus promotores e agentes policiais, está voltada para desmantelar as tramas criminosas, proliferam as negociatas nos meios políticos e empresariais. “O que está havendo é uma seleção natural, mais uma”, diz um esperto nesses assuntos. E continua: “Isso acontece periodicamente, embora desta vez a via tenha sido judicial e numa proporção maior do que a costuma acontecer. Nessa operação muita gente dançou e houve uma mexida nas relações, com a queda de vários grupos, mas com a inevitável ascensão de outros, que isso sempre é assim e não vai mudar agora”. Uma bela e visceral interpretação darwiniana não apenas do momento brasileiro, mas de todo o processo colonizador humano, sem dúvida.


Enquanto isso, nos presídios superlotados e cheios de criminosos pobres,
muitos acreditam que se rico pode roubar, todos deveriam poder também
De volta à normalidade
Os segundos estão mais felizes nestes dias, pois com a “reestruturação burocrática” que a PF está fazendo deverá esfriar os ânimos dos políticos e tudo poderá voltar ao normal: molhação de mãos mais desinibidas e operações escusas sem tanta angústia. Quem sabe até o presidente se salve dos apuros em que se meteu. Quem sabe até o Cunha seja absolvido e volte à vida pública. Benito de Paula poderá cantar novamente seu sucesso: “Tudo está no seu lugar, graças a Deus, graças a Deus... Não podemos esquecer de dizer, graças a Deus, graças a Deus”.

Então, vamos liberar a galera 
Só falta, dizem as ruas, libertar outros, como o Beira-Mar e tantos bandidinhos que penam nas penitenciárias e faturaram bem menos nas suas ações, além de terem feito menos mal à sociedade do que fazem os políticos corruptos. Afinal, se é para livrar alguns, porque não liberar geral? 

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