sexta-feira, 28 de julho de 2017

Três temas de reflexão nesta manhã fria

Andando, se pensa e o que se pensa não deve sempre ficar escondido; como cantava Sergio Sampaio, “Aonde o pé vai, arrasta o salto, lugar de samba-enredo é no asfalto”

Caminhando, penso. Hoje, pensei três coisas: a arte em você, ao invés de você na arte, a virilidade como um componente fundamental na minha vida subjetiva e, é claro, nas minhas ações, e a necessidade de termos um plano de vida, assim como um avião precisa de um plano de voo.

É preciso ter um plano
Começo pela última, pois me ocorre ser fundamental a necessidade referida, básica, nos dizendo que há sempre um plano, mesmo quando não formulado por nós. A própria comparação do plano de vida com o plano de voo já denuncia algo: é provável que possamos dizer que somente existe um plano de voo porque há, desde sempre em nossa vida, um plano de vida, um planejamento que fazemos naturalmente, até pelo fato de que decolamos, ou seja, nascemos, e temos um pouso certo, a morte. Nesse meio tempo, certamente acabamos, a maioria de nós, querendo fazer algumas coisas ou, como sugerem os espíritas, melhorar e fortalecer o espírito. Algumas pessoas fazem planos pequenos e sonham com viagens ou com as compras mirabolantes das quais a propaganda fala e que dizem nos fornecer confiança, determinação e outras coisas mais, porém não fazem nada do que prometem.

Desde muito tempo tentei estabelecer um plano de vida. De certo modo, isso foi feito, mas esse plano sofreu pequenos e grandes revezes, foi modificado por diversos motivos etc. Mas houve um plano. O que me chama a atenção é que entre os meus desejos conscientes do que deveria ser esse plano e a realidade sempre houve um abismo.

A arte está dentro
O outro tópico, o relativo à arte ser algo interno ou externo, íntimo ou ideal, foi fomentado pela leitura de Rainer Maria Rilke, aquele livro que traz suas cartas a um jovem poeta, cujo nome não lembro e acerca do qual também não quero procurar no Google neste momento. Logo na primeira carta, ele diz ao jovem que não se preocupe com conselhos ou ideias que as outras pessoas poderão ter a seu respeito, em relação a sua arte. Ocupe-se, isso sim, com o que ocorre dentro de si, pense se lhe seria possível viver sem escrever, Rilke diz. Para ele, a arte é algo como uma escultura que fazemos em nós mesmos, por nós mesmos.

Aí lembro de um dito que li na escola de teatro de minha filha, se não me engano remetido a um tal Stanislavski, acho que músico, não sei. “Ame a arte que há em você. Não você na arte”, é o dito. Para mim é uma forma de dizer o que Rilke disse ao jovem poeta e uma verdade absoluta para a construção de uma boa saúde mental e/ou de um espírito leve, porém forte. E para a formação de artistas, é claro, artistas que possam honrar esse nome, mais claro ainda.

A bengala do ceguinho
Quanto à virilidade, creio que entendi momentaneamente que se trata de algo próximo de um referencial, creio que não apenas na minha vida, mas de todos, ou quase todos, os homens. Mesmo os homossexuais devem ter alguma orientação nesse sentido, alguma coisa como ser macho para caralho para se apresentar como uma florzinha primaveril.


O fato é que mesmo que eu não queira admitir, esse negócio da virilidade parece não exatamente dominar toda a vida, porque não é o caso, mas estar sempre presente como um espectro ou como em um marcador, um velocímetro ou coisa semelhante. No nível simbólico do dinheiro, que quantifica e, nesse mesmo movimento, qualifica tudo ou quase tudo na sociedade econômica contemporânea, inclusive a virilidade, no mesmo passo em que é alimentado por ela. 

De certa maneira, me fica às vezes a imagem de que estamos falando de algo como a bengala de um cego. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário