segunda-feira, 3 de julho de 2017

Se você é um lobo, não pode querer emancipar as ovelhas

Muito pelo contrário, se você é um lobo neste momento histórico, precisa é aproveitar e matar a fome, ainda que não a tenha... la-men-ta-vel-men-te

Conte nos dedos o número de crises econômicas no pós-guerra até 1973. Quantas você encontrou? Sérias, como as que foram se sucedendo depois de 1973, creio que nenhuma. Qual o país que ficou em polvorosa depois do fim da segunda grande guerra até aquele fatídico ano de 1973? Creio que nenhum.

Em 1973 começaram os problemas... e as crises. Não apenas tivemos, naquele mesmo ano, a tragédia chilena, com milhares de assassinados por um governo militar que nada mais fazia do que aplicar, ali, um receituário político e econômico que fortalece os mais ricos e destrói os mais pobres. Alguns o chamam de neoliberalismo. Pode ser, mas, no fundo, é apenas o velho sistema capitalista com seus disfarces toscos, agora na mão de um pequeno grupo, cada vez menor, que conseguiu poder inaudito graças às tecnologias de comunicação e informação. Nunca tão poucos tiveram acesso a tantos.
Temos, agora, homens e mulheres que, apesar de constituídos de carne, ossos e pele, como todos os humanos na história, ganharam esse nome “massa” por terem sido capturados não fisicamente, mas subjetivamente, o que representa um avanço nas técnicas de controle, via aquilo que Felix Guattari sugeria se tratar de um agenciamento. São, sob o ponto de vista do espírito, moldáveis, e por isso são “massa”, orientados pelo olhar do outro e sem identidade, mas com muitas identificações. A essa degradação humana muitos passaram a chamar de pós-modernidade e a atribuir a ela rebeldias infindas, mas nenhum potencial de revolucionar nada. Algo como ovelhas vistosas, vestidas com estilo e cheias de ideias sobre si próprias e sobre tudo no mundo.

O curioso é que, para melhor adentrar na alma dos pobres seres massa “pós-modernos”, as ovelhas, os que controlam o poder de verdade (não aquelezinho localizado nos palácios de governo) os convenceram de que são únicos, individuais, estilosos e muito atraentes, quando não são mais do que ovelhas submissas. É um fenômeno digno de ser observado e estudado com atenção e dedicação por alguém, não por um papagaio ou papagaia intelectual desses que lecionam e falam por meio de chavões. Mas, um dia surgirá alguém para finalmente estudar isso, se é que alguém já não tentou, mas desistiu na metade, pois que as ovelhas pós-modernas são literalmente enfadonhas.

A haute finance passou a ser o duto de canalização de dinheiro e, com essa estratégia, de canalização de poder para administrar a seu modo praticamente todo o mundo e, com isso, criar uma multidão de imbecilizados, ou quase, que repetem o que lhes vem à cabeça, sem muito refletir. Mais ou menos por conta disso, pelo fato de que os financistas julgam prestar um grande serviço à humanidade na medida em que transformam todos ou quase em robôs incapazes de guerrear, é que, em nosso íntimo, aceitamos o trabalho que fazem.

Nós, ovelhas, costumamos nos envergonhar até mesmo por termos braços e pernas, cabelos, dentes e olhos, sem contar com a timidez com a qual lidamos com isso que chamamos de nossa alma ou espírito, não sei bem (dizem que a alma é a personalidade individual e o espírito é a parte que está ligada a Deus e talvez estejamos falando da alma, até porque é bom deixar Deus fora disso neste momento). Somos até guerreiras e guerreiros, mas contra a torcida adversária, contra o pessoal da outra rua ou contra homossexuais, pequenos ladrões e mulheres. Somos tão babacas a ponto de querer mostrar força, como pequenos cães que, impotentes para enfrentar o dono cruel, se identificam com ele e se tornam cruéis, mas com os mais fracos. O dono é o dono e não se fala mais nisso.

Você sai nas ruas e vê feras andando e ciscando para lá e para cá. Outros recorrem a veículos mecânicos, todos costumam estar hipnotizados por pequenos aparelhos luminosos, nos quais passam os dedos das mãos frequentemente, olhando fixamente para o aparelho. É um mundo estranho no qual todos vivem um delírio, que por ser comum já é coletivo e se organiza de forma a fornecer condições para que poucos lucrem sobre o trabalho e o sofrimento de muitos.

A mensagem geral é: seja dócil e sorria, pois assim você evita problemas. Não pense, não diga nada e só ouça o essencial. Beba muito, tome um porre e aí, sim, fale muito e ouça o que não deve, sempre, porém, acreditando que o pensamento voa ágil sobre você e todos te cercam. Assim tudo acabará bem ou quem sabe com alguém que você não esperava encontrar depois de tudo e que será um problema no dia seguinte. Afinal, somos descartáveis se não somos especiais.

Valorize a sua personalidade, ou, mais precisamente, esse molde que você acredita ter feito com seu esforço e experiência de vida, e recorra a pelo menos um estilo por trimestre, preservando seu estilo fulcral, que é o de não ter estilo. Desse modo, você estará integrado à massa e descobrirá que quando não há opção não é fácil ficar longe, não é fácil se manter sobre a árvore, em segurança. Se você escolhe ficar longe, acredita que não aprenderá nada e quando se aproxima fica em dúvida se vale aprender aquilo. Mas, se descer da árvore, não haverá volta, pois o caminho que escolhemos passa a nos levar para onde quer. E o redemoinho começa, até acabar um dia, pois que tudo acaba.

Mas, nós falávamos de crises econômicas, lembra? Quantas localizou na história desde 1945 até 1973. Ora, não houve isso. Depois, uma atrás da outra, sequencialmente, ordinariamente, inapelavelmente, uma seguindo a outra, sem parar. Sem levar em conta a ordem de entrada nesse palco desventurado, citemos, Chile, Argentina, México, Brasil, Tailândia, Rússia e outros, isso sem falar da crise estadunidense de 2008, que mergulhou milhares de cidadãos na merda, com a perda do local de moradia e outras coisas mais, principalmente a dignidade. Mas, dignidade em um mundo consumista pode ser conseguida na loja de fantasias mais próxima. Dependendo da aspiração, sai quase de graça. Como a alma já está na lama mesmo, tudo que vier passa a ser lucro. Mesmo um mendigo ou uma prostituta de rua têm, afinal, a sua identidade profissional e se inserem no velho padrão da meritocracia para a sobrevivência básica. Dignidade não é mais o que era, com certeza. Até agentes financeiros a juram ter em profusão.

Por que, se antes não havia essas crises, essa financeirização do mundo, passamos a ser regidos praticamente apenas por episódios como as especulações financeiras, a manipulação das bolsas de valores nas quais, na verdade, não há quaisquer valores humanos, virtudes ou qualquer coisa semelhante, e nos alienamos acreditando que as coisas têm que ser como são de qualquer modo?

Por que assistimos ao mundo girar para o lado oposto do que poderia quando se imaginava que viver seria bem melhor com a tecnologia e com todos os avanços científicos? Por que tudo piorou? Ler o livro de Lyotard sobre o que ele batizou de pós-moderno pode ajudar, se você observar que ele fala do fim das grandes narrativas clássicas e da introdução repentina de uma mega narrativa, que é a fala econômica.

A partir de um determinado momento, as forças dos que mandam pela via financeira, mas que controlam os parcos conglomerados que governam a todos nós e nos pescam pela boca, com alimentos que não alimentam e ainda são costumeiramente envenenados, e pela alma, com atrações que não a alimentam, muito pelo contrário, a fragilizam para torná-la mais maleável e conduzir o corpo na busca da motivação e do crescimento profissional e pessoal, ainda que para nada sirva isso a não ser alimentar um falso estilo de vida, o ego de algumas pessoas que se julgam privilegiadas e, no fim da corrente, os magnatas que controlam e agenciam a subjetividade e provavelmente fazem parte de alguma seita secreta que se propõe a controlar tudo e todos, sem exceção.

Se há coisa assim? Provavelmente não, provavelmente tudo não passa de um delírio conspiratório, uma fantasia esquizoparanoide, psicótica, de quem vai rumo à catatonia. Mas, não esqueça, no fundo de todo delírio há uma verdade inapelável, eterna e pétrea como a rocha incandescente que ilumina as entranhas do mundo e repercute em nosso espírito que, lembremos, pode ser aquele lado nosso que está sentado ao lado de Deus Pai e nem sabe disso direito. Por isso, o louco é aquele que governa aquilo que ninguém governa e que nos faz curvar sob o peso da razão para dobrá-lo em várias partes e endereçá-lo a lugar nenhum que valha a pena neste mundo.


Mas, afinal, para o que servem mesmo as ovelhas?
Por conta de tudo isso é que digo a você que tenha cuidado com o que diz e com o que escreve. Se tiver que se expressar de algum modo, prefira a dança ou o canto, pois que as melodias já estão prontas e basta você se amoldar a elas com espírito e simpatia. Por isso as ovelhas gostam de lugares com música bem alta e de se balançarem ao som ensurdecedor. Só assim podem se dizer criaturas poderosas e más, apesar de mansinhas e bem comportadas. Não que isso seja bom ou valha algo, mas é assim que as ovelhas sabem viver neste momento e não há nada a fazer com relação a isso ou com relação à maior parte das coisas que acontecem em nossa volta ou em volta delas. 

Afinal, em um mundo de ovelhas, os lobos governam e não se pode mudar isso. Nem mesmo sendo um lobo. Ou, talvez, principalmente por ser um lobo. Aí é que não se deve mexer em nada. 

E a monotonia é recorrente. 

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