quarta-feira, 12 de julho de 2017

Os escravos estão por toda parte


Os novos escravos são originais: se vestem de acordo com o que
julgam escolher e se creem absoluta e totalmente livres, tanto
que, nos momentos de lazer, exaltam a liberdade que não têm 
Tome a definição clássica do que é a liberdade e descubra que nem você nem ninguém que você conhece é livre, muito pelo contrário

Olhe em volta. O que vê? Escravos, predominantemente. Um escravo, ou escravizado, é alguém que está dominado, subjugado e submetido à vontade de outrem. Escravizar é tornar alguém dependente de alguma coisa ou de outro alguém. O escravo está privado de liberdade, submetido a uma vontade que não é a sua, a um poder que não é o seu, e que, assim, pertence a uma outra pessoa ou a uma instituição.

Considere que o assalariado vende a sua força de trabalho, o seu tempo e as suas habilidades, a outrem. Durante um tempo delimitado de seu dia, o assalariado pertence a alguém. Logo, ao menos naquele período, é um escravo ou escravizado, não é livre para decidir os próprios rumos e passos, sob pena de não receber o pagamento, o que inviabilizaria a sua vida, já que não seria possível comprar sequer o alimento ou pagar as contas básicas de moradia, energia, água etc.

O assalariado deve fazer determinada tarefa, de determinado modo, para que outra pessoa lucre com isso. Ele não lucra, pois dá o seu tempo por um pagamento que não paga esse tempo. Se pagasse, esse pagamento não seria dado a ele, pois é da operação de subtração “preço menos custo” que quem lhe paga retira o seu lucro. Assim, o valor recebido é, na maior parte dos casos, inferior ao valor real do trabalho realizado. Caso o capitalista pagasse esse valor real, não obteria o lucro e o sistema capitalista não se poderia viabilizar, já que se funda no lucro e na multiplicação do capital.


Houve o tempo em que o escravizado tinha a cor da pele negra, mas
nestes nossos dias, todas as cores são admitidas no rol da escravidão
A escravidão sempre foi remunerada, mas o escravo nunca foi nem será livre
É interessante notar que, durante o período em que está sob o domínio de outrem, a pessoa está claramente em situação de escravidão, ainda que remunerada. Nesse caso, não se iluda com a existência da remuneração (fator que muitos dizem ser o fundamental para diferenciar o trabalhador assalariado do escravo), pois ela entra no lugar da moradia, alimentação e vestimentas que os antigos escravos, os que não recebiam salários, recebiam. É a mesma relação, salvo pelo detalhe: o antigo escravo comia o que o senhor lhe dava, dormia onde o senhor lhe determinava e vestia o que o senhor queria.

Hoje, porém, há opções, mas, curiosamente, na medida em que somos orientados pelos gostos e olhares de outrem, acabamos comendo e vestindo o que supomos escolher, mas que, objetivamente nos é determinado previamente pelos meios de comunicação e, é claro, pelos nossos semelhantes, que também estão sujeitos aos ditamos desses meios. No mínimo, portanto, devemos admitir que nossa capacidade de escolha é bastante limitada. E isso ocorre também no caso da moradia, que, em boa parte, nos é determinada por alguns fatores, como a capacidade de pagarmos determinado imóvel, bem como sua localização e características diversas, que são determinadas em grande parte pelo mesmo sistema de identificação com o que os que nos cercam creem ser bom.

Em tempo: o antônimo do conceito de escravidão é o conceito de liberdade. O escravo, desse modo, é alguém que não tem liberdade. Ser livre, para os dicionários, é ter a capacidade e o direito de fazer o que se quer, de decidir os próprios rumos e passos.

Condição de alienação
A condição do escravizado é a de alienação. Alienar é, sob o ponto de vista jurídico, transferir para outra pessoa um bem ou direito e é o que o assalariado faz. Como não é possível entender que o corpo esteja separado do espírito, o assalariado é obrigado a ceder ambos para aquele que o contrata. Ainda que se imagine que o espaço interno da pessoa é inviolável e livre, não é provável que esse espaço possua plenamente essas características. Há, permanentemente, um cerceamento. Isso parece claro, óbvio.

A situação se agrava se pensarmos que essa cessão do espírito não se realiza apenas nas horas vendidas pelo sujeito. Mesmo fora desse período, que pode ter variadas durações, a pessoa acaba alienando o seu espírito e a sua condição de escravização e alienação pode se estender por todo o dia, toda a semana, mês, ano ou por toda a vida, em muitos casos. A intensa e maciça transmissão de informações, o bombardeio de mensagens constantes e incessantes que caracteriza a nossa vida nestes nossos dias, ocasiona um estado de confusão e passividade que pode muito bem ser caracterizado como alienação e/ou escravização. Não é à toa que se diz que os smartfones são armas de “distração em massa”. E o são, efetivamente. Enquanto você se distrai nas redes sociais e outras atrações conectadas, alguém está pensando em como fazer você um escravo mais feliz, motivado e eficiente.


Edgar Morin disse que no século XX houve a conquista do espírito.
Por isso, nosso contemporâneos acreditam que são livres e que
as suas participações nas redes sociais atestam isso... tolinhos
Indivíduos livres? Pois sim!
Confusa e passiva, a pessoa não tem como pensar em si, na sua condição, e acaba por necessitar que alguém faça isso por ela. Desse modo, delega a sua potência a outros que lhe dirão o que deve pensar, sentir e fazer. Essa delegação se dá de variadas formas, tanto nas menores coisas como nas maiores, por isso existem profissionais dedicados a agir sobre a subjetividade da pessoa escravizada, como os psicólogos. Mesmo nas questões mais pontuais, há essa delegação e não é nada incomum que o escravizado tome decisões quase que exclusivamente baseadas no que os outros pensam ou vão pensar.

Em termos claros, a pessoa típica de nosso tempo, é alterdirigida (termo de David Riesman), isto é, se orienta pelo outro ou outros. Se levarmos em conta a definição de liberdade como a possibilidade e a capacidade de decidir os próprios rumos e passos, conforme posto anteriormente, se admitirmos a força dos meios de comunicação na determinação da subjetividade e se tomarmos a realidade escravagista dos trabalhadores assalariados, podemos dizer que vivemos em um mundo de escravizados ou de escravos, como se costuma dizer resumidamente. 

E o engraçado é que o discurso corrente é o de que as pessoas são, acima de tudo, indivíduos livres... Peripécias disso que os teóricos chamam de “liberalismo” ou, na sua vertente contemporânea, “neoliberalismo”. Artimanhas daquilo que um dia outros teóricos chamaram de “ideologia”, isto é, a imagem invertida da realidade. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário