domingo, 9 de julho de 2017

O poeta dos príncipes pariu o moralismo

Talvez o alvorecer do moralismo tenha se dado na luta contra a irracionalidade do mito, que apresentava os próprios deuses como gente espúria semelhante à gente espúria que efetivamente existia e que curtia imaginar deuses como gente igual à gente... Exatamente quando bons exemplos eram requeridos para formar a alta cultura!

Píndaro foi um poeta grego da cidade de Tebas. O príncipe dos poetas e o poeta dos príncipes, se diz por aí. Nasceu em 521 a.C. e morreu em 441 a.C. Ele teve uma seguinte ideia: os mitos tratavam os deuses como seres humanos, com os vícios e virtudes destes e isso não era legal. Os mitos eram claramente imagens projetadas dos que viviam naquele momento e naquele lugar, frutos da intenção de Homero em dar lições muitas vezes nada morais ou, dizem os mais sensatos, de apenas divertir, enredar o público com as histórias criadas pelo próprio público, traduzidas em letras poéticas.

Tudo indica que Homero tinha apenas o interesse em compilar pequenos enredos em grandes narrativas, como indicam as grandes obras “Ilíada” e “Odisseia”. Dramas específicos pontilhados em uma grande história; duas, na verdade. Havia, ali, o bem e o mal e possivelmente o interesse de Homero não fosse realmente dar lições de moral, mas divertir e, quem sabe, instruir, com os fatos da vida, projetados em estripulias humanas e sobrehumanas.

Píndaro, porém, queria dar lição de moral. Ele não podia aceitar que algo fosse escrito ou encenado se não tivesse o objetivo de elevar moralmente as pessoas de seu convívio.

Viagem proibida
O mito era como uma “viagem”, no sentido que se utiliza hoje para designar algumas experiências com certas drogas. Era um enlevamento acessível a praticamente todos, ou a todos, com certeza. Não havia televisão, nem mesmo livros. A cultura era aquela oral, da transmissão de pai para filho, pelo gogó, não por escrita ou por mídias eletrônicas. O que se tinha era a imaginação e com certeza ela tinha que ir longe para que as pessoas suportassem os trancos da vida. Os mitos eram a alegria da imaginação, pode ter certeza. Assistir a uma encenação trágica ou cômica era, certamente, um deleite inigualável para o espírito. E se você através desses deleites transmitisse más lições, promovesse más ideias, isso poderia ter um efeito catastrófico para a Paideia, a cultura voltada para a melhoria do cidadão e da cidade e Píndaro se preocupava com isso. Quis proibir que o povo “viajasse” no mito. Ou, pior, modificar a viagem ao seu bel prazer.

Ele propunha que se filtrassem as narrativas mitológicas, de modo a se retirar delas os maus atos e apenas apresentar os bons, os nobres. O bom poeta sabia seduzir com suas palavras e rimas. Se pudesse transmitir, por meio delas, bons exemplos de vida, isso representaria algo como a forma ideal da arte: bela e boa. Uma filosofia com muito boas intenções, sem dúvida.

Aliança une a moral com a razão
O fato é que desfigurou os mitos, rompeu com uma tradição que os mantinha como eram, ou como vinham sendo construídos pela experiência dos seus narradores, que, evidentemente, sempre que os contavam, ajeitavam um ponto da história, realçavam outro... enfim, nunca se conta a mesma coisa do mesmo jeito. Não. A partir de Píndaro, as coisas deveriam mudar, não apenas porque ele as quisesse assim, mas porque começam a ganhar força os movimentos de defesa da Paideia, de enaltecimento da cultura e, acima de tudo, pela elevação do homem grego. Elas sempre existiram e se irmanaram às facções que despejavam críticas racionalistas sobre os mitos para fazer com que perdessem sua força única e original de mobilizar o senso moral e ético enquanto se propunham à distração do espírito.

Era uma nova era que iniciava, sem qualquer dúvida, na qual a subjetividade ia se partindo em duas e assumindo cada vez mais um compromisso com a moral, por um lado, mas mantendo seu compromisso original com a mundanidade dos mitos, a imaginação fabulosa dos delírios e devaneios mitológicos. A partir de então, uns continuariam a venerar as belas histórias, ou estórias, de antanho; outros as recortariam para transmitir às gerações futuras apenas os belos exemplos de nobreza dos heróis, mais que dos deuses, como fizeram os atenienses que politizaram a mitologia, criando enredos nos quais grandes e heroicos cidadãos de Atenas eram enaltecidos, nem sempre, no entanto, tendo realizado todos os grandes atos cantados em prosa e verso. E personagens de outras paragens eram representados como derrotados, ou quase, já que vítimas de maldições como Édipo, que era de Tebas e arrancou os próprios olhos depois de ter matado o pai e trepado com a própria mãe. Junito Brandão refere outros, como Admeto da Tessália, Orestes de Argos e Adrasto de Sicione.

Um passo 
Havia um clima de transformação. Novos ventos sopravam para mais longe a fantasia mitológica, que passou a ser referida como fabulosa, referida apenas à imaginação, deixando de ter o valor da experiência empírica que tinha até então, da vivência absoluta e completamente humana, sem cortejos à alta cultura ou aos elevados padrões humanos. Creio que nascia, naqueles tempos, a narrativa de fundo moral, essencialmente moral dos pastores intelectuais. Daí para o moralismo foi um passo. 

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