quarta-feira, 26 de julho de 2017

Liberalismo ♥ Socialismo: um caso secreto?


Parece haver uma unidade secreta
que une esses aparentes opostos
Se você, como eu, se cansa de assistir ao diálogo de surdos que envolve liberais e socialistas, saiba que estamos sendo enganados, pois tudo indica que há uma semelhança fundamental que une uns aos outros em um namoro não assumido

Costumamos tratar o socialismo como utópico e, da mesma forma, creio que devemos fazer o mesmo com o liberalismo. E quando falo do socialismo utópico proponho que consideremos também a doutrina marxista dessa forma, quando considerarmos as suas proposições (1). Sendo verdadeiro que Marx elaborou um interessante sistema de análise, parece mais verídico ainda que suas proposições foram absoluta e completamente idealistas, sem muito vínculo com a realidade, e que acabaram desmentidas por ela. Basta lembrar que a previsão era a de que o Socialismo se estabeleceria em um país capitalista avançado, no caso a Inglaterra, por conta das contradições inerentes a esse sistema que, no fim das contas, o destruiriam. Deu zebra e a coisa aconteceu em um país nada industrializado, com um capitalismo quase inexistente ou mesmo inexistente, como a Rússia.

Entendo que, de certo modo, o socialismo real está para o socialismo marxista, ideal, como o neoliberalismo está para o liberalismo, tão ou mais ideal. Em ambos os casos, falamos de autênticas corrupções do modelo original, que parece inaplicável, tanto em um caso como no outro.

Rumo ao paraíso terrestre, sem jamais chegar a ele
Cabe pensar como o liberal é um sujeito que vive nas nuvens, assim como o socialista. É fato que, para alguns dos seus defensores, o Liberalismo é algo que jamais será alcançado, pois a realização do liberalismo seria tão fantástica e alvissareira que representaria a instituição do paraíso terrestre, sendo que algo muito próximo se pode dizer do socialismo. A questão seria, desse modo, o rumo e não a chegada a algum lugar – até porque se sabe, previamente, que não se chegará ao que foi previsto. Muita gente fala o mesmo do socialismo, o que me leva a crer que há um parentesco inconfessável entre essas antigas doutrinas e, mais: como se fundam em uma realidade metafísica, dão margem para que muita gente entre naquele espírito pernóstico que afirma que os fins justificam os meios. O problema grave é que os fins são etéreos, mas os meios costumam ser reais e, não raro, cruéis.

O princípio da livre concorrência, da total e completa ausência do Estado em questões de regulação e regulamentação e, last, but not least, a igualdade de oportunidades são ideias completamente utópicas do liberalismo e, no fim das contas, inapropriadas para uma aplicação prática. A concorrência livre e desenfreada, sem quaisquer amarras ou peias, só pode resultar no mais puro darwinismo social, ou seja, no massacre dos mais fracos (ou pelos menos empenhados em lucrar) pelos mais fortes (ou pelos mais obcecados pelo lucro). A noção de uma organização socioeconômica baseada na propriedade coletiva dos meios de produção, como ocorre nas doutrinas socialista e comunista, é igualmente fantasiosa e de prática pernóstica, como se viu no mundo da Cortina de Ferro. 


Enquanto isso, o povo aproveita para fazer piada
Cada um na sua, com muita coisa em comum
Como parece acontecer hoje, a humanidade deixada ao sabor da livre concorrência tenderá a cometer chacinas econômicas, como tem ocorrido, condenando a maior parte de seus membros à miséria para que outros poucos possam viver como nababos. Isso, porque as tais oportunidades nunca são iguais, já que quem tem mais sai em inequívoca vantagem em tudo que diga respeito a valores financeiros, que são os que têm governado as coisas. E também porque parece bem plausível a formulação da teoria marxista que aborda o ganho do capitalista pela mais-valia, ou seja, pela apropriação de parte do que é pago ao trabalhador para que dessa apropriação se constitua a lucratividade de um negócio. Faz muito sentido e, assim sendo, define o lucro como roubo. Mas, há quem desdiga a teoria da mais-valia, embora eu jamais tenha lido uma crítica dessas que tenha me convencido.

No caso socialista, novamente temos que concordar que a lógica do “por fora bela viola, por dentro pão bolorento” (ou por dentro molambo só, como alguns preferem) (2) vigora a pleno vapor. Desde a Revolução Bolchevique, passando pela intervenção na antiga Tchecoslováquia e não esquecendo as diversas atrocidades stalinistas, o socialismo real foi um desastre completo, ou quase, conforme a boa vontade de quem o avalia.

Anjos ou lobos, tanto faz, já que são só aparências
Há quem jure que tanto o liberalismo como o socialismo são totalmente viáveis, contanto que haja uma completa e total reestruturação do ser humano, que deveria se tornar algo como um santo ou anjo de bondade. Quem sabe, dizem, se o liberalismo ou o socialismo fossem mais respeitados e mesmo se todos os seguíssemos em procissão, seríamos melhores como pessoas, pois talvez despertássemos nossas reais potencialidades e coisa e tal. Os socialistas diriam que seríamos mais solidários e os liberais que seríamos mais autênticos, talvez.

No entanto, há o outro lado, e, para os que defendem outras posições, Thomas Hobbes não parece ter errado ao avaliar os seres humanos como lobos uns dos outros, mas os liberais, em sua pureza, parecem crer que, apesar disso, as malvadezas e canalhices são, no fim das contas, aparelhadas pelas melhores intenções e são exatamente elas, definidas como vícios privados, que fazem surgir os benefícios públicos. Tudo obra de uma tal mão invisível que, por provável suprema bondade, controla tudo para o bem comum. Em tese, uma fantástica boa intenção, apenas estragada pelo fato de que esses vícios privados têm se expandido a tal ponto que vêm destruindo o ambiente e as pessoas e animais que nele vivem. No caso dos socialistas, pela lógica hobbesiana, os lobos dirigentes do partido seriam ainda mais perigosos, pois, sem concorrência, tomariam conta do bem comum. Não deve ter sido à toa que alguns dirigentes soviéticos ficaram bem ricos durante o tempo em que cuidavam desse tal bem comum.


Marx loves Smith and vice versa?
Nada dará certo enquanto a realidade não for ideal
No entanto, como Zeno de Eleia e sua crença racionalista na vitória da tartaruga sobre Aquiles numa corrida, caso fosse dada à tartaruga alguma vantagem, os liberais e os socialistas se creem possuidores de um trunfo. No plano da pura razão, tudo sempre dará certo, ou quase sempre e, nesses casos, é aquilo que chamamos de realidade que atrapalha. Assim, para os apaixonados, se as teorias liberais e/ou socialistas são claramente inviáveis na prática, não é porque sejam falhas ou inaplicáveis na realidade. É porque esta, a realidade, é que não é adequada para a aplicação de ideias puras.

Se ao menos esse pessoal pudesse considerar que é preciso mudar a realidade, tudo estaria bem. O grande problema é que, por conta da realidade não se encaixar nas ideias metafísicas, eles a acabam negando e atribuem a raiz seus problemas aos outros: no caso dos liberais, aos socialistas; no caso destes, àqueles.

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(1) Usualmente, é chamado de utópico apenas o socialismo de Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837), Louis Blanc (1811-1882) e Robert Owen (1771-1858). O marxista é chamado de “científico”, o que, no tempo em que essa alcunha foi criada, era um elogio sem par, já que expressava algo objetivo e materialmente fundamentado e comprovado. Utópicos seriam os socialistas que propunham princípios de igualdade com base em boas intenções, não em um método, como ocorre com o de Marx. Há, também, o Socialismo Real, que se considera o que foi efetivamente aplicado e instituído na União Soviética (Rússia) e em outros recantos. Esse tipo de socialismo mostrou, um tanto grosseiramente, o quanto a utopia aplicada pode redundar em desgraça e tragédia. O resultado foi que poucos líderes mantiveram os privilégios que antes pertenciam à realeza e, principalmente, que a grande herança da versão real do Socialismo foi uma máfia forte e poderosa.


(2) Há também a versão: “por fora casquete de veludo, por dentro miolos de burro”. 

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