sexta-feira, 21 de julho de 2017

E tem troco para o café


De um lado, o malandro, estilo Zé Pilintra...
Pequenas demonstrações de independência podem significar mensagens acerca de sentidos relacionados a um bom combate, mas há quem considere tudo isso a pura e nefasta malandragem, um ataque ao progresso e à ordem

Você entra no ônibus junto com sua filha e pergunta ao motorista quanto é. Ele responde: R$ 16. Como estava escrito na frente do ônibus que a passagem custa R$ 16, você se pergunta por que perguntou se já sabia e não deu logo toda a quantia, R$ 32.

Mas, repentinamente, tudo fica claro. Ao perguntar estupidamente se a viagem custaria R$ 32, pois parecia óbvio que custaria exatamente isso, o motorista responde que não, que só custaria R$ 16, já que minha filha não pagaria. Dou-lhe R$ 20 e espero o troco.

Ao me ver ali parado, com cara de quem espera o troco, o motorista pergunta: “Não pode deixar pro café?”. Respondo que sim, que pode ficar para o café, e entro no ônibus.

Solidariedade
Reflito sobre o poder do motorista, do homem comum, sobre as máquinas empresariais, corporativas; máquinas de guerra, claramente, nos moldes das máquinas de guerra tratadas por Deleuze. Ele, o motorista, me ajuda, eu o ajudo e assim ficamos nos sentido mais fortes contra a porra do mundo cruel que essas máquinas vão produzindo em série industrial.

Para muitos, isso é um absurdo. Jamais chegaremos à democracia, à ordem democrática, à maturidade republicana, afirmam. Querem que estejamos 24 horas alertas contra qualquer tipo de subterfúgio que escape à razão da construção social, da cidadania, da boa ordem política etc. etc. “É por isso que o Brasil não vai para frente”, chegam a rosnar.


... do outro, os que entregaram a alma e sugerem que você faça o mesmo
Quem sabe, um bom combate
Esse pessoal me parece um tanto tolo, com essa lógica doida de “fazer o certo” cem por cento, 24 horas, 365 dias. Às vezes, tenho a impressão de que gostariam que nos transformássemos em máquinas mesmo, como as empresas, em pequena escala. Máquinas de guerra em miniatura, guerreando por cada centímetro cúbico de ar ou de fama. Você S.A., algo assim. S.A. (Sociedade Anônima) porque você não seria dono de si mesmo, devendo lançar seus dotes no marcado para que outros possam lhe dizer o que querem que você seja para que alcance o sucesso e a independência financeira. 

Fico com a política de boa vizinhança do motorista. É, de modo claro, uma forma de combate. Um bom combate, eu creio. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário