quarta-feira, 26 de julho de 2017

Belas ideias nem sempre trazem boas intenções

O problema das doutrinas idealistas como o Liberalismo é que suas belas ideias não raro trazem ocultas más intenções formalizadas em péssimas práticas econômicas e políticas

Entendi que o liberal é alguém com excelentes ideias. Propõe o que avalia como o rumo adequado para a condução da estrutura econômica da sociedade, algo como o norte a ser trilhado em uma caminhada. A doutrina do Liberalismo seria a bússola, então, que deveria orientar nosso pensamento e nossas ações, apenas isso. Jamais se alcançará, neste mundo terreno e real, o liberalismo e ao estudar a doutrina nascida no século XVII, por obra e graça de uma série de boas iniciativas do pensamento humano, bem se percebe isso. Com base nessa premissa, há quem diga que todo liberal deveria se apresentar como um utópico nato e hereditário.

As ideias liberais parecem conter o feitio idealista de uma belíssima postura diante da realidade econômica e social. Ideias empolgantes, principalmente se localizadas no tempo em que foram formuladas, que era aquele da revolta contra privilégios pétreos e espúrios e o do otimismo irrefreável na força da razão. Lembremos John Locke, que parece ser o ideólogo basilar do liberalismo e dizia, para quem quisesse lhe ouvir: “Cada homem tem um direito natural à vida, liberdade e propriedade e nenhum governo deve violar esse direito”. Trata-se de um princípio admirável, decerto. Humanismo puro, ataque à lógica imbecil que considerava existir algumas pessoas que podiam se postular mais merecedoras de benesses do que outras.


Conservador é que não!
E que ninguém acuse o liberal de conservadorismo. Pelo menos no seu nascimento o liberalismo se mostrou não exatamente rebelde, mas revolucionário, bem mais do que boa parte dos socialistas que hoje torcem o nariz quando ouvem falar o seu nome. E eficientemente revolucionário, verdadeiramente uma locomotiva que conduziu a implantação de novas formas de pensar a realidade social e econômica. Você não imagina o que era a subjetividade no século XVII, com todo aquele poderio pomposo de reis e cortes, a Igreja mandando e desmandando em nome da salvação das almas, a rigidez tradicional das famílias que começavam a se organizar nos parâmetros que ainda percebemos hoje e tudo o mais. No plano filosófico, somente havia ideias prontas e dogmáticas acerca de temas que somente podem ser compreendidos com certa fluidez de pensamento. Um horror. Claramente, os liberais chegaram para abalar as estruturas.

Na esteira dessa forma de compreender as coisas da vida, o liberalismo marcou posição contra o absolutismo. Nada é absoluto, pronto e eterno, ao menos neste mundo terreno, certamente diziam os primeiros liberais. Assim, não queriam reis ou quaisquer governantes mandando neles. Para conseguir isso, elevaram-se os clamores pela construção de um edifício democrático, com a instituição do Estado de Direito (que limitava o poder do rei ou governante) e da representatividade parlamentar, que daria voz aos cidadãos, já que o grande número deles impediria a reunião em Ágora.

Os clamores foram ouvidos e o mundo mudou, foi se “liberalizando”. De certo modo, é possível dizer que todos os que estamos por aqui neste momento e que moramos em algum lugar do mundo dito ocidental somos liberais, ao menos na herança subjetiva que nos legou essa forma de ser e de pensar que temos e que se funda na conversa de termos direitos, que fala da importância de combater privilégios e de dar liberdade para que todos possam empreender seus desejos e negócios. Não é absurdo afirmar que somos filhos desse pensamento, que está adstrito em nossas ideias como matéria vital e que se afigura para nós, mesmo que já com mais de trezentos anos de idade, sempre como novidade. Isso pode ser percebido facilmente pelos que hoje têm entre 50 e 70 anos e viveram a “revolução dos costumes” como uma liberalização fantástica ao som do bom e velho rock’n’roll, a trilha sonora “revolucionária” que afetou a todos.

Apenas tentando sobreviver... 
Mas, o fato é que, conforme foi dito no início deste texto, tudo indica que nunca será possível objetivar, neste nosso mundo, as grandes ideias do liberalismo. Elas funcionam apenas como um norte, uma direção, e, na verdade, expressam excelentes intenções, muitas vezes maculadas por oportunistas que as utilizam apenas para fazer o oposto do que elas pregam. É o caso do pessoal que defende o livre mercado até o momento em que entra nele, prospera, e faz tudo para dificultar que outros façam o mesmo. Da mesma forma acontece com aquela gente que diz para os governos ficarem fora do jogo, mas que corre a exigir uma atitude do Estado quando as coisas não vão bem. O mesmo se pode dizer do empresário que discursa contra a presença estatal e se sente “pagando o pato”, mas procura e agarra com fervor aquela teta no Poder Público e diz que está apenas fazendo o que todos os outros fazem ou fariam se estivessem no seu lugar. No fim das contas, clamará dizendo que apenas tentava sobreviver na realidade que nada guarda da beleza e da pureza das ideias liberais.

De certa maneira, há que se dizer que a maioria das pessoas que, desconhecendo ou não essa essência idealista do liberalismo, professa suas ideias, fala de algo que notoriamente é improvável ou mesmo impossível. Estarão sempre insatisfeitas, achando que o Estado se mete demais em suas vidas e que é por culpa disso que não prosperam. Criticarão toda e qualquer atitude de apoio a grupos de pressão formados por gente pobre, como os sem-terra e sem-teto em nome do Estado de Direito, da livre iniciativa etc. Olharão para o outro lado quando o Estado meter porrada e bala nos menos aquinhoados e mostrarão muita indignação quando os mais aquinhoados forem pegos com a boca na botija. No entanto, se tiverem oportunidade, acabarão fazendo o que todos os outros fazem ou fariam se tivessem oportunidade e dirá que apenas tentava sobreviver na realidade que nada guarda da beleza e da pureza das ideias liberais (1).

O problema das doutrinas idealistas como o Liberalismo é que muita gente tende a ocultar suas mazelas e canalhices por detrás de suas belas e puras ideias.

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(1) No início do parágrafo, eu disse que a maioria das pessoas faria isso, não todas. Talvez você esteja entre estas. 

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