sexta-feira, 2 de junho de 2017

Promover o sensacionalismo barato está longe de ser a função social do jornalismo

Sabemos que os empresários compram presidentes, governadores, prefeitos, ministros, deputados e senadores e também sabemos que os bastidores da política fedem, mas nem por isso se deve divulgar acusações sem provas nem condenar sem julgamento como faz a imprensa sensacionalista

Que todo mundo sabe que rola muito dinheiro no mundo dos políticos, isso é verdade. Que a caixa 2 é prática comum e é mesmo difícil para um candidato, por melhor caráter que tenha, não cair nessa vala comum, é mais verdade ainda. Que, infelizmente, a maioria dos parlamentares é parlamentar porque tem o rabo preso com algum empresário, que recebe mesada e gordos auxílios para sua campanha e sua vida pós-campanha. Essa relação incestuosa é conhecida por praticamente todo mundo. Só não é falada pelos empresários e seus financiados quando estão em público e é preciso manter as aparências.

Enfim, todos, ou quase todos, sabe que a vida dos políticos e dos empresários que os bancam não é o que eles próprios dizem, muito menos o que a imprensa costuma dizer nos noticiários diários. As investigações da operação policial e jurídica chamada de “Lava Jato” são, nesse sentido, valiosas, pois expuseram a lama dos bastidores do poder. No entanto, determinadas delações parecem estar indo além do plausível e podem estar entrando no campo das fantasias ou, como alguém já disse, da acusação armada de acordo com interesses políticos e/ou econômicos (pois que uma coisa anda costumeiramente de mão dada com a outra).

Apedrejamento sem julgamento
A impressão que dá é que os delatores delatam quem querem e, como, usualmente, não apresentam provas, a coisa fica por isso mesmo, ou quase, pois os veículos jornalísticos adoram e publicam, logo depois da denúncia, que fulano e beltrano sabiam de tudo, que pagavam propinas a este e aquele deputado, senador ou a qualquer outro. Publicam e o povo começa a falar que fulano e beltrano sabiam de tudo, que pagavam propinas e por aí vai. Não só se começa a falar sobre essas coisas, que provavelmente são em boa parte infundadas, como se fala como se fossem verdades absolutas e cristalinas, provadas e comprovadas. Nesse quadro, pudesse o povo e procederia imediatamente ao apedrejamento dos supostos culpados, sem provas e sem julgamento. Sim, porque a imprensa condena e convida ao apedrejamento ao publicar, inúmeras vezes, ilações e citações em depoimentos como se fossem fatos comprovados. 

É o caso de pensar o quanto o jornalismo deixa de ter uma função pública nessas horas. Ao não incentivar a reflexão, o pensamento, promovendo, em vez disso, a emoção e as reações impensadas, os veículos de notícias fazem, desse modo, o oposto do que deveriam fazer. Foi o caso da “Escola Base”, o maior exemplo de mau uso da informação já registrado no país, em que, se me recordo bem, um delegado e alguns jornalistas irresponsáveis destruíram a vida dos donos da escola pela simples tentação a promover o sensacionalismo barato e sórdido. 

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