sábado, 24 de junho de 2017

Os ditos “mal ditos”


Será um dos leões a imagem "cuspida e escarrada" do outro? 
Você já ouviu falar que alguém é a cara de outrem “cuspida e escarrada”? Na certa, se ouviu sentiu certo desconforto, até mesmo nojo...

E que aquele menino tem “bicho carpinteiro”? Você ficou imaginando como é esse bicho que ninguém nunca viu. Eu, pessoalmente, cheguei a pensar em cupins, mas a imagem de alguém sendo comido por cupins não é nada real.

O fato é que esses e outros ditos populares não são o que parecem. Tinham originalmente uma formulação que, ao contrário das citadas, tinha algum sentido.

Vamos desvendar, então, a forma original desses ditos tão “mal ditos”.

Deu bicho carpinteiro no mármore de Carrara...
Não dá para aceitar que alguém que possua semelhança com outra pessoa tenha a cara cuspida e escarrada. É absurdo e nem vale a pena pensar como se pode imaginar algo assim. O correto é dizer que fulano é a cara de beltrano “esculpida em Carrara”, o que significa dizer que fulano é tão parecido com beltrano que bem se pode dizer que sua face foi esculpida em Carrara, inspirada em beltrano. Carrara é um tipo de mármore que é oriundo da cidade de Carrara, que fica na Itália. Usualmente é chamado pelo nome completo: mármore de Carrara.

O dito popular diz respeito à reprodução de um rosto humano feita nesse tipo de mármore, que era muito comum nos tempos do império romano. Mas, o povo foi ouvindo esse dito e, como a cada vez que se conta um conto se aumenta um ponto, foi modificando-o ao seu gosto. Há outros exemplos tão esdrúxulos quanto esse, tal como o do “bicho carpinteiro” que infesta o corpo de tantas crianças pelo mundo afora. Pois, não existe esse tal bicho, é claro. A frase original é “bichos pelo corpo inteiro”, indicando que a criança é irrequieta.

Com relação ao ouvido que deturpa, lembro que, quando trabalhava em uma maternidade e alguma paciente seguia para o centro cirúrgico para o procedimento de curetagem, as demais pacientes diziam que ela ia fazer uma “coletagem”.

Domingo, o cachimbo se esparrama
Há outras, como a popular “Domingo pede cachimbo”, que muita gente ouve e diz “Domingo, pé-de-cachimbo”, que é completamente absurda. Claramente se faz, aí, uma elegia ao hábito de fumar um cachimbo na tranquilidade de um domingo.

A batatinha quando nasce espalha a “rama” pelo chão, não “se esparrama”, como noventa e nove por cento por cento dos seres humanos pensam. Sim, porque apesar de ilógico, o verso é recitado, cantado e decantado por muita gente que, certamente, jura que, de alguma forma, uma raiz vai se esparramar pelo chão. 

Burro não tem cor quando caça com gato
Burro quando foge ou não tem cor, porque não está ali, ou tem a mesma cor que tinha quando ainda não tinha fugido. Na real, esse “mau dito” só tem sentido quando se diz “Corro de burro quando foge”, até porque esse animal, quando dá de sapecar coices em volta, pode até matar.

“Quem não tem cão caça como gato”, isto é, sozinho. Gato não chama turma para caçar, faz tudo sozinho. Se você não tem um cão para lhe ajudar, vai ter que caçar sozinho, como gato. Você e o gato não vão caçar juntos, como no dito “mal dito” “Quem não tem cão caça com gato”. Isso não existe.

O fígado do pé-de-moleque
Há o “Inimigo Fidagal”? Também não há e sim o “Inimigo figadal”, isto é, do fígado, ou seja, por quem você nutre um profundo ódio e, se pudesse, lhe cuspiria um monte de bílis.

Interessante é a explicação do quitute “pé-de-moleque”. Há quem diga que vem do dito “Não precisa roubar, pede moleque!”. Pode ser.

Vaias para Roma ou felatios em Roma?
E há o caso do “Quem tem boca, vai a Roma”. Decerto, a forma que se diz ser a correta, “Quem tem boca, vaia Roma” recende a uma rebeldia, pois vaiar não é nada mais do que demonstrar clara e agressivamente, o seu desprezo por quem é vaiado. Com certeza, soldados e imperadores romanos devem ter sido muito vaiados e trata-se de uma inestimável palavra de ordem, afinal de contas. Mas não creio poder afirmar com tanta certeza ser esse o dito exato, pois há versões de textos antigos, do século XVIII, que explicam o dito “Quem tem boca, vai a Roma” como uma alusão também não muito simpática à cidade e ao império, pois que dizem na internet ter vivido um abade chamado Severiano Barreto que, segundo várias citações não confiáveis, mas também não desconfiáveis, teria dito o seguinte:

"... tal expressão tem por origem o hediondo hábito que houvera na antiga Roma em que muitas mulheres tomadas de devassidão rumavam à capital do nefando império. E encontrando-se elas em tão tenebroso lugar, aí se dedicavam às mais depravadas e debochadas práticas fazendo uso da boca para o exercício da sua obra de pecado. Diz-se pois de quem tem boca que vai a Roma por ser aquela cidade lugar de deboche e porcaria tal que aí rumavam todas as prostitutas e rameiras do mundo de então a fazer abominação". http://bit.ly/gadgets_cheap

Parece que essas coisas relacionadas a Roma são mais complicadas do que parecem à primeira vista. Melhor ficar por aqui. 

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