domingo, 18 de junho de 2017

Novas travessuras da língua

Saiba, aqui, o porquê de você nunca chegar em casa e como a multa só é craseada quando dói no bolso. 

Você é daquelas pessoas que vão à loucura com a Língua Portuguesa? Pois estou com você. Cada vez que me aprofundo, mais me surpreendo. A última é a descoberta de que ninguém chega em nenhum lugar. Sim, o que quero dizer é o seguinte: em algum lugar você não chega, de jeito nenhum. E por quê?

O fato é que a regência verbal da nossa Língua admite apenas as preposições: “de”, “para” ou “a”.

Assim, no caso do verbo “chegar”, temos as possibilidades abaixo:
- você chega de algum lugar;
- você chega a algum lugar.

Como você não chega para algum lugar, desconsideremos isso agora, mas lembre que a regra vale para qualquer verbo que indique movimento, locomoção. Assim, o verbo partir admite o “para” e também o “de” e o “a”.
- você parte para;
- você parte de;
- você parte a (ou à).


Verbos como o vir, ir, dirigir-se, voltar ou comparecer, além de outros, somente aceitam se movimentar “de”, “a” ou “para”. O “em” está fora da lista.

Assim, você não chega “em” casa, mas “a” casa.

Pior: você vê o “a” e pode gritar, pois, afinal, todos podemos nos enganar:

- Mas, aí não tem crase?

E ouve a dura resposta da Dona Norma Culta:

- Não, porque é a sua casa. Se for a casa de outro, leva a crase, sim. Melhor dizendo: se você for à casa de alguém, tem crase, se você for à sua, não precisa, mas não pode dizer que é sua. Sim, porque se eu vou à minha casa, também posso ir a minha casa, tanto faz. Foi por isso que eu disse que não precisava. Se eu especifiquei que é minha, posso até usar a crase. Não preciso, posso, se quiser, usar a crase. Depende do gosto do freguês.  

Bem, ela tem razão. Sempre tem. 

A multa é uma coisa, à multa é outra, só que especificada
Há coisas piores envolvendo crases. Você sabe, por exemplo, que, ao ultrapassar a velocidade permitida de uma estrada, quem faz isso está sujeito a multa.  Sim, a multa, não à multa. E por quê? Porque o artigo “a” só vai aparecer na frase no caso de você especificar a multa. Logo, você estará dizendo que quem ultrapassar a velocidade permitida estará sujeito à multa por excesso de velocidade ou coisa do gênero. Aparece o artigo “a”

Quando se diz “sujeito a (preposição) + a (artigo) multa por excesso de velocidade, surge o artigo “a”, como se pode perceber; logo, há crase.

Assim, a multa, genericamente falando, não é craseada. Mas, se especificada, sim. Mais um caso em que a crase mostra seus caprichos, mas, acima de tudo, a sua vocação para surgir quando há uma qualificação, uma especificação do objeto, seja ele a casa ou a multa.

Na real, a multa acaba só ganhando uma crase quando é a multa que você ou alguém tomou. Aquela que dói no bolso. 


Durma-se com todo esse barulho...

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