quarta-feira, 7 de junho de 2017

Cariocas colhem o que plantaram durante um século


O cúmulo do cinismo acontece quando a instituição que deve 
combater o tráfico de drogas é quem trafica drogas – e, segundo 
fontes, essa foi a situação do Rio em um passado muito recente
A tragédia da violência no Rio é uma desgraça que foi lapidada pacientemente pelos governantes cariocas no último século, quando a polícia foi a única instituição pública a frequentar as comunidades/favelas

A fuga de moradores da zona norte carioca (ver matéria aqui) mostra a falência de todas as políticas públicas projetadas e implementadas no Rio de Janeiro. Curiosamente, essas políticas foram erguidas sobre a base da discriminação de parte da população, a mais pobre, por representantes das classes mais ricas, uma pequeníssima parcela da população, que é, na prática, a imagem icônica especular da grande massa populacional conhecida genericamente como a “classe média”, que apoia as políticas discriminatórias.

Lógicas discriminatórias têm um grande problema. Elas geram revolta, reações radicais e insegurança para todos, discriminados e discriminadores. Cria-se, desse modo, a situação em que os que não comem são o pesadelo de outros, que são os que não dormem. Assim, há uma insatisfação geral: os que não dormem não o fazem por medo dos que não comem, que são os que sofrem as ações discriminatórias comandadas e encomendadas pelos que não dormem. A imagem foi bastante usada pelo senador paranaense Roberto Requião, na década de 1990, para justamente ilustrar a situação do Rio de Janeiro, cidade que dizia admirar e amar e na qual morava um de seus irmãos.

Os mais ricos não costumam ter esse problema e, se por vezes não dormem, não é tanto pela ameaça dos que não comem. Eles costumam ser bem mais protegidos do que os que não dormem, que são mais propriamente caracterizados como gente da “classe média”, aquela que tem como inspiração positiva os ricos e negativa os pobres. É esse pessoal que está mais próximo dos mais pobres, que mora perto da moradia destes, as favelas ou comunidades, mas que, no entanto, os teme e odeia e chama a polícia sempre que os percebe próximos demais.

Polícia pacifica?
As políticas públicas do Rio foram, mesmo as mais bem intencionadas, promotoras da tensão entre essas duas faixas da população. Isso, porque foram realizadas pela polícia e por uma polícia que não propriamente se caracteriza pela retidão moral e ética, muito pelo contrário. E tudo vai mal se o poder público tem como agentes de intervenção nas comunidades/favelas membros de uma instituição que não dão bons exemplos, que são caracterizados pela violência e pela promoção do crime, com execuções sumárias e achaques, matando quem encontram pela frente nas comunidades (mortos que se transformam necessariamente em “traficantes”, para justificativa dos assassinatos, embora nem todos os que são mortos pela ação policial possam ser caracterizados claramente como tal) e obtendo, como complemento de seus salários, as propinas pagas pelos reais traficantes (1).


A guerra passou a ser um elemento presente no cotidiano carioca
Ações policiais não são políticas de integração e pacificação, salvo em situações muito específicas e, no Rio de Janeiro, é difícil imaginar algo do tipo. As tais UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) serviram para provar isso. Aliás, juntar polícia e pacificação parece claramente humor negro, aquele no qual a desgraça é que provoca o riso. Ainda mais que essas “unidades pacificadoras” foram um jogo oportunista de um governador que se encontra, hoje, preso por corrupção, juntamente com outros de sua equipe. Jamais esse governador, que se chamou Sergio Cabral, quis pacificar nada nem ninguém, muito pelo contrário. Na verdade, e os números parecem confirmar isso, ele queria “se dar bem”, não mais que isso. Durante o seu mandato, segundo fontes, ocorreu a situação grave da transformação de soldados da polícia em traficantes, na figura dos milicianos que substituíram as quadrilhas nos morros. Em resumo, sendo isso verdade, o Rio chegou a um paroxismo do cinismo: a polícia, a instituição que deve, por lei, combater o tráfico de drogas, era quem o estava praticando.

O resultado não podia ser outro
Mais de uma centena de anos sob a marca desse cinismo catastrófico levaram ao quadro que observamos, hoje, no Rio de Janeiro. A população média, os tais remediados da classe média, aqueles que vivem sonhando ter dinheiro como os mais ricos e fugir para o mais longe possível dos mais pobres, sofre com o resultado desse cinismo do poder público, que foi também da prefeitura, notadamente durante os anos “Cesar Maia”, quando a perseguição contumaz aos pobres (os “lumpem”, leia-se os degradados, segundo texto que li, de assinatura do próprio Maia, quando no início de sua primeira gestão) foi a marca. O mesmo aconteceu com Eduardo Paes, em alguns casos de forma mais capciosa, em outros menos. Mas, cabe recordar que Paes “cresceu” durante o período em que Maia esteve no comando e com este aprendeu algumas coisas, por exemplo, o uso dos “factoides”, ou seja, informações falsas que tinham sua veracidade sustentada apenas pela repetição inconsequente, principalmente na mídia – como boa parte das pessoas, notadamente os jornalistas, não têm como hábito checar as informações, o que o prefeito falava acabava sendo repercutido e se transformava em inesperada verdade.


Em resumo, o Rio de Janeiro, notadamente a zona norte, é, hoje, uma região de tensão constante e de alto risco. Isso não está acontecendo por magia ou por ações realizadas na última semana ou mesmo no último ano. Essa conjuntura foi tecida por pelo menos cem anos, quando do surgimento das primeiras favelas, locais nos quais foram morar os egressos da escravização, após a abolição. Desde então, a polícia foi a representante do Estado nesses locais e quando a polícia representa o Estado, o que temos é desrespeito, ofensas, pancadas e tiros, nada de melhoria de vida, muito pelo contrário. Não se pode plantar uma macieira e dela extrair bananas, assim como não se pode dar porrada em alguém e esperar amor. O resultado da ação estatal não poderia ser outro e o que se vive hoje no Rio é o que tinha mesmo que ser. 

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(1) Generalizações não costumam ser profícuas nem úteis e é claro que não se pode dizer que todos os policiais do Rio (da PM do Rio, principalmente) são assassinos frios ou corruptos, mas, de acordo com as fontes que tenho e com a minha própria experiência na cidade na qual nasci, infelizmente, as más atitudes citadas foram, durante muito tempo, quase que regra naquela instituição policial (de modo informal, é claro, não como regra formal). Pior: há quem diga que ainda são. 

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