sábado, 24 de junho de 2017

A multidão e o poder

Não há conflitos, a não ser os de pequena monta e interesse; não há parâmetros para a penetração do poder em todos os níveis da multidão

De um lado, uma multidão. Uma vasta quantidade de gente com destinos comuns, mas com divergências pontuais que podem levar ao conflito aberto, ao confronto assassino. Todos juntos, solitários, bebendo coca-cola, se alimentando de comidas que não alimentam e de informações que não fazem pensar, essas flatulentas mensagens e memes diversos que circulam incessantemente pelas redes que agregam a multidão.

Do outro, grupos, ou quem sabe um grupo, que comandam os comportamentos, os pensamentos e até mesmo os sonhos daquela gente que se chama multidão. Um poder estruturado, articulado, que por isso é estruturante e articulador de pensamentos e arquiteturas lógicas. Uma sociedade secreta que tem ao seu redor o painel dos desejos e sonhos de todos os outros humanos, os que circulam como mariposas cegas em torno da irradiação luminosa que emana do poder estruturado. Todos querem se estruturar, por isso veneram quem ou o que é estruturado. Todos fogem do caos, naturalmente, e o caos só pode estar distante da luz. Pois o caos é vizinho da escuridão e da ignorância.

A multidão é de escravos, pois os escravos se unem em turbilhão, embora separados, como sempre estão, por pequenos enigmas, que não têm solução. Uns contra os outros, agem. Roupas os diferem, cortes de cabelo os distinguem, uns aos outros, da distinção. Quebras-cabeças são, esses sujeitos e essas sujeitas a qualquer coisa, já que precisam sempre de aprovação. Almas na lama, sexo na cama, ou vice-versa, tanto faz, pois que o destino já está traçado de antemão. Bonecos robotizados, mecanizados na imantação elétrica da eletrônica mais avançada.

O mais interessante nesses escravos é que se creem senhores de suas escolhas, destinos e fados. Acorrentados, fazem questão de ostentar os braceletes ornamentados que os amarram aos seus patrões e senhores. Amordaçados, fazem questão de falar o quanto podem, simplesmente sobre qualquer assunto, contanto que haja assunto, de qualquer modo, com qualquer fim.

Silencioso, o poder se assegura secreto. Quem nomeia, sabe o que está falando. Quem não pode ser nomeado, tem a liberdade dos que agem de forma invisível. Assim, é preciso manter o sigilo, ou, mais que isso, a crença na total inexistência de quem quer que seja ou esteja na posição de mando. Se você lhe quer enviar uma bomba, pode fazer isso. Mas, quem é ele? Onde está, em que paragens anda. Você não sabe, porque faz parte da multidão. Está mergulhado no caos que existe naturalmente, mas que é potencializado pela ação estruturadora do poder, que desestrutura virtualmente quem deseja e atinge concretamente a todo o planeta.

Não há combate entre a multidão e o poder. Ele a compreende; ela o deseja. 

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