quarta-feira, 10 de maio de 2017

Lula e o juiz brincam de Street Fighter, mas é você que leva porrada


Eles manipulam o joystick e você leva as porradas
10 de maio de 2017: enquanto Lula e Moro simulam estar em um game de luta, é você que está no ringue levando todos os socos e pontapés

Quanto mais eu vivo, mais me surpreendo. Todo o tumulto em torno do depoimento de Lula para a Justiça Federal em Curitiba é de chamar a atenção. Em primeiro lugar, trata-se de uma grande produção, quase cinematográfica, épica, do tipo Bem Hur, Quo Vadis, Intolerância ou algo próximo. A imprensa deita e rola no clima sensacionalista e, no campo jurídico e político, tanto uma parte quanto a outra fazem questão de acentuar o clima de duelo de titãs. E o mais surpreendente: o juiz, o tal Moro, o heroico guerreiro que tem no curriculum o brilho do desmantelamento de uma quadrilha que movimentou bilhões, de repente age como se não fora um juiz, um magistrado, mas parte no processo, uma espécie de promotor público ou, pior, um candidato a alguma coisa ou o cabo eleitoral de quem parece combater. 

Lula, por sua vez, na verdade, não me surpreende. É o maior político criado no país, já disseram muitos, com razão. E alguém já disse, com mais razão ainda, que, dizendo isso, não o estamos elogiando, haja vista a má qualidade moral e as características de caráter, ou de falta dele, que moldam as safras de políticos nacionais há décadas. Cabe entender que ser o melhor entre gente ruim geralmente pode significar ser o pior de todos. E, cá entre nós, está difícil acreditar que haja alguém que preste no meio político nacional, embora eu saiba que há, sim, gente boa por lá. Uma das provas da qualidade deteriorada desse pessoal é a desfaçatez dos integrantes do governo e dos parlamentares que apoiam o governo e que dão, neste momento, um golpe em todos os trabalhadores do país sem apresentar sequer um cálculo, uma mera continha de somar ou multiplicar, que demonstre a existência de um tal déficit da previdência social brasileira. Parece ser gente ruim e que enche o banheiro de serragem depois de fazer a barba.


Mas, que gracinha! Ele adora ser vítima
e sabe, assim como seus "patrões",
que esse é o caminho mais rápido
para "o retorno". Se tudo continuar
como vai sendo, certamente conseguirá
A minha impressão é a de que se está vitimizando Lula para alçá-lo pela terceira, quem sabe quarta, vez à Presidência da República. E com isso não quero dizer que Lula não tenha culpa no cartório, isto é, nas mutretas que lhe têm sido atribuídas. Sou capaz de apostar que tem e até muito mais que isso. Mas, como sabemos, é difícil colocar alguém na cadeia sem possuir provas. E, tudo indica, nem os promotores públicos, nem mesmo o juiz que entra em campo e joga com um dos times (vai para a televisão e para as redes sociais falar aos seus apoiadores, coisa que juiz não pode ter, só para tomar esporro de um colunista de peso do jornal O Globo: "Assim você estraga tudo!", disse, usando outras palavras), parecem ter provas consistentes para pôr Lula fora do jogo político. Prendê-lo, ironicamente, pode significar elegê-lo com maior facilidade do que ocorreria sem todo o circo jurídico. Ou, com certeza, pode significar a eleição de quem quer que Lula venha a apoiar no ano que vem. Teremos, assim, uma situação bem semelhante a de certos presidiários cariocas e paulistas que comandam "o movimento" de dentro dos muros. Parece comédia, mas é sério. 

A sensação, findo o dia 10 de maio de 2017, data do depoimento de Lula à Justiça Federal, não a um juiz, diga-se (embora a imprensa, no seu já conhecido afã de tornar tudo mais sensacional, insista em falar de um confronto no estilo game Street Fighter), é a de que tudo está sendo feito para fortalecer Lula e torná-lo presidente mais uma vez. E não é o pessoal do MST ou qualquer outro movimento popular ou social que trama isso com maior força, você pode ter certeza. Conhece aquele ditado que diz que de onde menos se espera é que surgem as coisas mais importantes? Pois é.


Ele se criou nas trevas e está
somente fazendo o serviço sujo.
Nada tem a perder. Findo o seu
mandato, volta já para o caixão
Temer, que não teme a impopularidade (simplesmente porque nunca foi popular mesmo, com aquele ar vampiresco e sua preferência por agir nas sombras), faz, agora, o serviço sujo que Lula já tinha feito em 2003 e que faria de novo se fosse necessário. Assim, Lula pode voltar para satisfazer as demais vontades dos donos do Brasil e do mundo com as mãos limpas, como um herói, pronto para fazer quase as mesmas coisas que fez quando foi presidente por oito anos: desarticular os movimentos de esquerda, garantir lucros astronômicos a alguns poucos e pagar juros estratosféricos aos banqueiros (com uma dívida pública impagável, que deverá nos deixar dependentes por séculos e séculos), criar empregos para chapeiros e balconistas e inserir, novamente, o país no ciclo da escravidão de seus cidadãos, completando o círculo que determina que é preciso inserir as pessoas no mercado de trabalho e de consumo, agora por quarenta ou cinquenta anos e com o limite de tempo de 65 anos para ganhar suas aposentadorias, cada vez menos conscientes do que acontece consigo próprias e das forças que as controlam e dominam. 

Tudo não passa de um grande teatro, apesar de aparentar ser uma ferrenha luta e, embora, aparentemente, os lutadores estejam de um lado e nós de outro lado, na plateia, isso não ocorre assim. Nós é que somos os lutadores patéticos, ou, melhor dizendo, os sparrings. Lula e outros sujeitos como ele é que estão sentados nas poltronas, rindo e batendo palmas diante das manifestações estabanadas e estúpidas de tantos como nós. Principalmente, creio, riem dos que vestem a camisa da seleção e/ou camisas vermelhas e ficam se digladiando nas ruas, como se fossem inimigos mortais, quando, na prática, são tão iguais e previsíveis na encenação de suas supostas diferenças. 

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