sexta-feira, 12 de maio de 2017

Essa gente detestável que vai para o inferno de cabeça para baixo


Se você põe no pano verde a tua alma tentando negociar a salvação
do teu espírito, pode esperar que no inferno você rapidamente irá chegar
As aparências enganam e todo mundo sabe disso. Não se sabe, no entanto, que enganam até um ponto, até uma hora, não mais que isso. Depois, a farsa acaba e tudo fica transparente. Somos de vidro para Deus, teria dito Machado de Assis, segundo um sujeito que encontrei hoje pela manhã. Não sei se Machado realmente escreveu ou falou coisa assim, mas, de certo modo, é o que Swedenborg diz no seu “O Céu e o Inferno”. E faz muito sentido, além do mais.

Se você faz o que é bom e certo para conseguir a salvação, então provavelmente não a merecerá. Se age assim, está fazendo de suas boas intenções meros atos comerciais e, não se iluda com as conversas do marketing e da teoria da administração pós-moderna que transformam tudo numa negociação. Tem coisas inegociáveis e o caráter é algo assim, diriam os antigos. Mais inegociável, no entanto, é o espírito, que seria o sopro divino que trazemos em nós, segundo me consta. E o espírito é provavelmente o que fala pela linguagem consciente e, principalmente, pela linguagem inconsciente, aquela a qual Lacan se referia nos meados do século passado.



Segundo alguns, os negociantes da salvação se assemelham a serpentes
e, como no outro mundo todos assumimos nossa real aparência, é assim
que aparecem aos justos esses vermes, os negociantes do inegociável
Na verdade, o espírito também pode ser captado na intuição de que nos falava Bion naquele mesmo tempo, seguindo a mestra Melanie Klein, a tripeira genial. Ou melhor, não exatamente é a intuição, mas aquilo que a usa para transmitir e receber mensagens o tempo todo, a imaterialidade fundamental plugada no mundo. Lembre-se de que a matéria não existe, no fim de tudo, a não ser como a ilusão concreta e fidedignamente materializada nas coisas deste mundo imundo e doido. Está na língua que os psicóticos falam e que os fala, tornando-os criaturas simultaneamente singulares e inúteis, apreciáveis e ineficazes.

O espírito denuncia aquilo que é casca na civilidade do exterior da pessoa. Ele está sempre em tudo, presente e loquaz, embora silencioso. Falante, porém pouco claro no que diz respeito aos sentidos que emite, pode-se dizer. Toante e destoante, algo assim. O espírito é tudo e não é nada em nós, simplesmente porque é ubíquo, mas silente, ou silente, mas ubíquo, tanto faz.

Todos esses pensamentos foram despertados recentemente, quando observei que uma senhora declarou “fazer o que é certo” para conseguir a salvação. Fiquei pensando que, desse modo, essa senhora provavelmente será atirada, logo após seu falecimento, de cabeça para baixo no fundo do inferno e, pior, sem entender o porquê. 

Simplesmente, é o pior tipo de gente que se pode encontrar por aqui. Gente falsa, que é capaz de “fazer o certo” apenas porque teme dar visibilidade à própria maldade, aquela que jaz oculta em seu coração, mas está pornograficamente exposta para Deus, na sua alma doente que o espírito divino tão bem conhece e deplora. 

Em nome do “certo”, gente como essa é capaz de dizimar, ou tentar dizimar, povos inteiros, velhos e crianças inclusive. Está pronta a matar e estripar em nome do que é “certo”, com certeza. Não lhe interessa a saúde do próximo a não ser que o próximo seja de sua família. Dentro dela, todo o carinho, fora dela, a crueza da realidade. É gente detestável, creio que demasiadamente humana. 

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