segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sonho para uns, pesadelo para outros


A pergunta que tira o sono de muita gente
Lula é o sonho de muitos na presidência, ainda que sua passagem por esse posto tenha sido questionável. Afinal, emplacou uma reforma previdenciária que prejudicou muita gente e não fez qualquer modificação estrutural, logo duradoura, na lógica capitalista que comanda as ações políticas no Estado brasileiro. Muito pelo contrário, parece ter consolidado péssimas práticas políticas e econômicas que lesam exatamente aqueles que dizem beneficiar, mas tem sua presença no cargo político máximo da Nação marcado por um sucesso econômico pouco comum em nosso país.

É que, durante o seu mandato, de dois períodos, logo de oito anos, o Brasil experimentou uma certa lua de mel no abrigo da economia internacional, graças ao que se chamou “Ciclo das Comodities”, ou seja, a elevação do preço de matérias primas no mercado internacional, puxada fundamentalmente, ao que tudo indica, por um aumento das importações por parte da China, principalmente, que terminou há alguns anos, levando a economia brasileira, dependente da venda de matérias primas, a grandes dificuldades, como se percebe claramente nos dias em que vivemos.

Dívida quintuplicada - A situação pode ser bem entendida do seguinte modo: imagine que você recebeu um dinheiro extra por algum tempo, que financiou uma distribuição de renda para a família e, consequentemente, diversas compras e financiamentos, mas que chegou ao fim e lhe deixou sem recursos e endividado(a). Pois é algo assim que acontece, hoje, com o Brasil. Não é tão simples, pois há outros fatores, como a dívida pública, historicamente gerada para financiar o Estado, mas que, nos governos FHC e Lula, aumentou consideravelmente, principalmente no tempo lulista, quando foi anunciado o pagamento da dívida externa. As coisas não aconteceram do modo como se disse e ao mesmo tempo em que essa tal dívida externa reduziu, houve um aumento radical e incomensuravelmente mais acentuado da dívida interna, ou pública, que se constrói quando o Estado vende títulos com valores que deverão ser honrados com juros e correção monetária. O aumento pode ser calculado como algo em torno de cinco vezes o que se devia antes, pois os juros praticados no país eram e são bem maiores do que os cobrados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que é o gerente-administrador da dívida externa dos países pobres.

O fato é que Lula não foi tão bom assim para o Brasil, nem para os mais pobres, conforme se pensa enganosamente, nem para os remediados, os medianos, a tal classe média que o lulismo disse estar criando ao tirar milhões da miséria. Para os mais ricos foi ótimo, pode ter certeza. Provavelmente, nunca se ganhou tanto em aplicações financeiras e outros esquemas fundamentados e orientados pela lógica do Capital e isso tudo sob o governo de um Partido dos Trabalhadores, o que é mais ridículo. O Brasil radicalizou sua imagem de território pronto para ser explorado e espoliado em quase tudo o que tem, incluindo bens públicos e naturais, mas também na força de trabalho, é claro. E também se consolidou como país do “vale tudo”, da bandalheira da corrupção, como as descobertas dos esquemas que envolveram pessoas do governo petista mostram bem.


A associação entre Lula e as grades da Lei pode ser eleitoralmente
dramática , avaliam os analistas e temem os políticos experientes. 
Pesadelo - A volta de Lula é, apesar de tudo isso, sonho para muitos. Mas, para outros, não exatamente pelo exposto acima, é um pesadelo. Há os que não querem Lula porque, apesar do ex-operário não ter lhes sabotado os sonhos, muito pelo contrário, compreendem, hoje, que ele não é mais necessário e pode representar mesmo uma concorrência evitável. É o caso daquilo que chamamos “as elites” brasileiras, um time covarde e escroto que não quer perder nem um centavo e ainda ganhar sempre e sempre e sempre, sem esperas ou obstáculos. Trata-se dos mais endinheirados, mas não todos, é claro, que entendem que os seus compatriotas existem para lhes satisfazer financeiramente.

Se Lula e esse pessoal andaram de mãos dadas durante um tempo, os últimos episódios políticos/jurídicos mostraram que houve um racha e os retratos dos bons momentos foram rasgados. Assim, as tais elites querem deixar Lula de fora a qualquer custo e muitos já anunciam que não é bom ficar espicaçando Lula com conduções coercitivas ou ameaças de prisão. Ele solto já é um risco, mas, se for preso, se transformará em um problema insolúvel, dizem alguns. Poderá eleger alguém com relativa facilidade, pois tem votos e seu nome está ligado a um período de prosperidade. Falsa e instável prosperidade, mas prosperidade, de todo modo. E os que o perseguem não têm esses votos e têm seus nomes relacionados à desgraça do desemprego e da recessão.


Marcas subjetivas - Em tempos de imprensa de massa (não se iluda, a lógica da massificação é cada vez mais forte e por isso mesmo se diz que acabou ou saiu de moda), logo de memória curta, de “acontecimentos cometas”, de manipulação intensa de fatos e de subjetividade publicitária, a fixação do conceito de um produto é aparentemente profunda quando atrelada a sensações agradáveis. E Lula, para boa parte dos brasileiros, é um produto associado a um bom tempo. Por mais que se tente desmerecer a sua imagem explicando que foram tempos momentaneamente bons, mas que mal administrados passaram sem deixar consequências objetivamente positivas, a marca subjetiva deixada aponta para Lula, lhe qualificando enquanto produto político. E isso é um problema para os que o querem deixar de fora do jogo. 

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