terça-feira, 4 de abril de 2017

O que é isso, ex-presidente?

Para combater a doença da corrupção é preciso um tratamento duro, mas há quem sugira deixar o doente vivo, aparentemente para garantir a sobrevivência do agente patológico causador do mal

FHC, ex-presidente e um dos mais ativos articuladores do golpe (ou contragolpe, mais precisamente) que derrubou o PT do poder, diz que não pode tirar o Temer, que vai ser um atraso para o país, para a economia etc. Ele defende que se deixe o presidente atual, vice da chapa de Dilma Rousseff, que foi derrubada do púlpito de chefe da Nação e está sendo julgada pelo Superior Tribunal Eleitoral (TSE), incólume, enquanto a ex-presidente deve ter sua defenestração ratificada pelo tribunal.

A lógica de FHC é, aproximadamente, aquela que diz o seguinte: está ruim com Temer, pode ficar pior sem ele, os investidores não vão gostar etc. Ok, senhor presidente, mas se Temer foi o vice da chapa, não é possível que seja separado dela, como o seu partido parece desejar, já que alcançou o poder por vias indiretas com a queda de Dilma. O que o senhor ex-presidente sugere é algo como um novo golpe, uma armação, tudo em nome do bom nome do país e buscando a simpatia dos tais “investidores”. 

Assim, FHC quer que se casse apenas a petista ou se deixe tudo como está, com Temer, que emprega amigos seus, no poder - e fica a triste sensação de que tenta salvar Temer apenas por isso.

Que feio.

A civilização depende de atitudes que, muitas vezes, trazem problemas momentâneos graves para a população ou para determinados estratos da população. Certas doenças necessitam de tratamentos dolorosos, que chegam mesmo a quase matar o paciente ao invés de curá-lo, mas, quando obtêm sucesso, salvam uma ou mais de uma vida e representam uma vitória contra a doença e a morte.

Nem sempre se pode dizer que não se deve combater uma doença ou um sintoma de uma doença por conta do risco de piorar o paciente ou mesmo de matá-lo. Se há uma doença, é preciso combatê-la, sob o risco de alastrá-la para outros e, assim, perder o controle da situação. O risco de matar o paciente com o tratamento existe, mas é preciso escolher entre combater o mal ou deixá-lo intocado, em nome de salvar uma vida que já pode estar absolutamente comprometida pela patologia.

Falamos de uma imagem para facilitar a compreensão da situação que atravessamos. Não estamos doentes, o país ou Temer não correm risco objetivo de morte. Ou melhor, se estamos doentes trata-se de uma doença civilizatória, de um mal que tem nos assolado há séculos, qual seja a falta de uma ordem jurídica e política definida, que dê tranquilidade e segurança para os cidadãos e, por consequência, também para os tais investidores. A cassação da chapa parece ser, hoje, uma medida terapêutica adequada e inadiável, mas sem deixar de fora o atual presidente, simplesmente porque é presidente e agrada a meia dúzia de políticos e investidores. Se há uma doença, infelizmente é necessário que seja combatida e a corrupção que claramente fundamentou a campanha de Dilma e Temer é uma doença grave, que tem aleijado a democracia brasileira e matado, direta ou indiretamente, a muita gente.


O que quero dizer é que FHC pretende salvar o país, mas mantendo-o corrupto e doente. E quero perguntar a você se vale a pena fazer isso. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário