quinta-feira, 13 de abril de 2017

Curitiba mais violenta que São Paulo e Rio?


A cidade dos ícones e monumentos urbanos, bem falada como a
"República" da ordem e da Justiça, se refela como uma das mais
violentas do país, ultrapassando até mesmo São Paulo e Rio
Números de 2010 mostram que, ao menos naquele momento, a capital paranaense tem mais homicídios do que Rio de Janeiro e São Paulo e nada indica que o quadro tenha se alterado substancialmente nos últimos sete anos 

Descubro uma matéria jornalística de jornal de Curitiba, capital do Paraná, informando que, em número de homicídios, a cidade é mais violenta do que Rio e São Paulo, principalmente se incluída na estatística a chamada região metropolitana. Na verdade, a afirmação vale para 2010, porque a matéria é daqueles tempos, assim como os dados estatísticos. De todo modo, mesmo em 2010, a constatação surpreende, pois é usual ficarmos pensando em Rio e São Paulo como as capitais da violência, com morticínios e chacinas pululando aqui e ali, como ervas daninhas. 

Sempre entendi Curitiba como violenta, mas em determinados aspectos culturais, no plano moral, ou seja, uma violência que, para ser vista e registrada, necessita ser antes descoberta, analisada e catalogada em tratados. Uma violência subjetiva, por assim dizer, quase invisível a olho nu. Isso é uma impressão minha, que moro em Curitiba, mas não nasci nem cresci na cidade, tendo chegado aqui muito depois de me tornar gente. Como sou do Rio de Janeiro, que já disse ser, ao menos no imaginário, uma cidade ícone da violência, percebo essa violência menos física em Curitiba, diferentemente do Rio que conheci (e que dizem estar, hoje, mais brabo ainda), onde o bicho pegava fisicamente, com faca, facão, bala de fuzil e metralhadora, assim, de uma hora para outra, sem avisar. Isso, é claro, dependendo da quebrada na qual você andava, o local que frequentava etc. Mas, como começou, há muito tempo, a haver tiroteio até em lugar chique, o fato é que você acabava ficando meio sem escolha. Aonde você ia, encontrava um estresse relacionado a alguma ocorrência potencialmente policial ou já policial, com vítimas e sangue escorrendo.

Mudei para Curitiba e deixei de ter essa sensação de que a qualquer momento vai rolar uma muvuca do mal diante de mim. Mas, pelos dados de 2010, ao menos naquela época vivi num lugar em que se matou gente como se toma água. O fato é que Curitiba tem uma região na qual a violência e a criminalidade parecem mais brandas e outra região, chamada genericamente de “periferia”, que parece ter características exatamente opostas nesse quesito. A estatística, inclusive, fala disse, pois a região metropolitana, que inclui as cidades periféricas, tem taxa de homicídios bem alta, segundo a matéria.

Do Centro para a periferia - De certo modo, Curitiba é uma coisa na região central, incluindo vários bairros como centrais, isto é, aqueles que se avizinham ao Centro, a periferia do Centro, por assim dizer. Ali há de tudo, ou quase. Trata-se quase de uma compilação de pequenos delitos e bárbaros crimes acontecem cotidianamente, mas a região conta com atenção policial privilegiada e, além disso, há ainda companhias de segurança fazendo o seu trabalho. Assim, apesar de tudo, pode-se dizer que há relativa segurança.

Já nos bairros mais distantes, nas cidades periféricas e outros rincões mais distantes, mas ainda incorporados ao que chamamos a Grande Curitiba, o bicho pega geral, ou seja, parece haver um incremento de atos lesivos ao patrimônio, seja este moral, físico ou mobiliário. Há menos presença policial e, não raro, quando há essa presença são os moradores que acabam criminalizados e tratados como bichos. Assim, acresça ao caldo quente mais uma dose de revolta. Não se pode generalizar, é claro, há de tudo em todo lugar, inclusive coisas abençoadas, mas, em uma olhada rápida, o que percebemos é isto que dizemos. E uma olhada rápida, embora peque por não esmiuçar o todo, percebe-o com certa singularidade.

Assim, quem vive nos bairros “protegidos” da cidade, quando vê ou sabe de um assalto, um assassinato ou qualquer outra ação pernóstica ao ambiente civilizado, coloca a mão no peito e suspira com susto. Já quem habita outros locais menos protegidos não faz isso, pois precisa estar atento para o que acontece em torno de si, correndo o risco de ser a próxima vítima e não tem tempo para manifestações afetadas. 

Cidade grande - De todo modo, a velha matéria me chamou a atenção para o fato de que a Curitiba que conheci quando aqui vim morar pela primeira vez (foram várias, até esta última, que já dura quase doze anos) não mais existe. Quando cheguei, no início dos anos 1990, a cidade me pareceu pequena, quase daqueles arraiais de festa junina. É claro que exagero, mas era uma capital com ar de província, com suas fontes luminosas e ônibus sanfonados. No entanto, cresceu, atraiu muita gente de fora, como eu, e se transformou em uma “cidade grande” com problemas de cidade grande. Um deles, provavelmente o mais grave, é exatamente isso que chamamos genericamente de violência e, segundo as estatísticas de 2010, Curitiba anda às voltas há bastante tempo com esse problema, pois não creio que o quadro tenha se alterado substancialmente de lá para cá. 

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