sábado, 8 de abril de 2017

Aristóteles nos livrou da ingenuidade platônica sem ofender o mestre


No quadro de Rafael, Platão aponta para o alto, enquanto
Aristóteles projeta seu gesto em sentido oposto, em uma bela
representação pictográfica do debate que envolve a subjetividade
proposta e projetada pelos dois e que nos envolve há séculos
Platão via o mundo cindido em formas ideais e coisas reais. As primeiras eram puras, boas, verdadeiras e belas e as segundas eram impuras, falsas, más e feias. Aristóteles manteve a estrutura básica do pensamento platônico e foi muito além, demonstrando que o mundo real é o nosso acesso ao mundo ideal sonhado pelo discípulo dileto de Sócrates

Platão era o homem das formas puras e das ideias perfeitas. Para ele, o empírico, o que percebemos com os sentidos, não tinha importância, nem sequer existência própria. Tudo seria determinado pela perfeição das ideias que vagavam sabe-se lá onde e iam não se sabe aonde. Um cavalo era um cavalo simplesmente porque havia a forma pura do cavalo em algum lugar e que estava manifesta no cavalo que vemos. Um cavalo, assim, jamais seria plenamente um cavalo, mas sim a manifestação da ideia de cavalo, sempre de forma imperfeita. O que quero dizer é que um cavalo era simplesmente algo como uma representação do cavalo etéreo, perfeito, belo, puro, verdadeiro e bom. Sim, porque tudo o que estaria no mundo da perfeição seria perfeito, o que não aconteceria com nada do que conhecemos neste mundo da imperfeição. Por isso, o chamado amor platônico foi batizado assim: por ser aquele que busca uma perfeição jamais encontrada em um ser humano real. 


Tudo aparência - O mundo de Platão era, assim, um tanto sem graça. Para obter felicidade e para experimentar o verdadeiro e bom prazer, se haveria que sair dele, negar a sua existência como algo a ser considerado de forma séria. Um prazer que estivesse relacionado a este mundo, como, por exemplo, o prazer sexual, seria desprezível em si, mas apenas válido se nos remetesse ao éter, isto é, de alguma forma nos colocasse em contato com as formas puras e ideais, boas, belas e verdadeiras. De alguma maneira, isso deveria ser assim e, como parece claro, deveríamos, mesmo em questões mundanas, desligar o interruptor da animalidade e buscar uma espécie de elevação e é por isso que o corpo deve ser perfumado, ter os excrementos afastados de si pela destinação a locais adequados e se oferecem flores para seduzir para o primeiro encontro, que, espera-se, redundará em mais encontros e na plena manifestação da animalidade, mas de forma organizada e correta, com todas as aparências e nobres justificativas do mundo. 

Saindo da caverna - Fala-se, aqui, em uma forma primitiva de sentir e pensar que abraçou durante séculos as formas civilizatórias e nos chega, hodiernamente, ainda como uma estrutura subjetiva irresistivelmente coerente. É possível mesmo pensar que fundamenta e dá o colorido de fundo a toda a ordem subjetiva humana. A alegoria da caverna, por exemplo, mostra como a sabedoria é rara e individual, provavelmente porque o mundo das aparências, projetado no fundo da caverna por seres que podemos identificar aproximadamente, hoje, como alguns marketólogos, parece muito mais real do que o mundo das formas puras, belas, boas e verdadeiras. Estas, no entanto, são as únicas reais e é provável que, sob esse ponto de vista, todo aquele que proclamar a inexistência da matéria esteja com absoluta e total razão, mas ouvirá gargalhadas e correrá o risco de ser considerado um estúpido ou um louco, embora aqueles que gargalham possam ser mais propriamente classificados dessa forma. 


A conhecida representação platônica da ascensão ao mundo real,
possível apenas àquele que trilhar o caminho de busca da verdade e
não tomar como reais as imagens projetadas no fundo da caverna
Para Platão, talvez o corpo seja algo também completamente ilusório e as suas necessidades algo a ser ignorado dentro do possível. Ou, mais precisamente, o corpo deve ter seu espaço próprio para manifestações, bem como tratamento especial e adequado para que não invada, com sua importância duvidosa, as preocupações do filósofo, que, afinal, é o cara que consegue, individualmente, sair da caverna e do aprisionamento ao mundo das imagens projetadas no fundo da caverna. Se o filósofo der atenção demasiada ao pobre e sujo corpo, bem como a qualquer coisa irreal que pareça real somente por pertencer ao mundo que conhecemos, não terá tempo para escalar o caminho que leva até o mundo fora da caverna, aquele cuja luminosidade cega a princípio, mas que, na sequência é absolutamente deslumbrante, bela, perfeita, verdadeira e boa, além de unicamente real, como o brilho de Deus ou a Coca-Cola (the real thing, segundo propaganda clássica do refrigerante). 

É ou não é - Essa noção da coisa real em oposição à coisa irreal, do que existe ao que não existe, do que é do que não é, mantém-se presente em nós e alguns raciocínios lógicos permanecem fortes e exuberantes, apesar de não terem fundamento pela observação empírica. Tomemos o caso da lógica de Zenon de Eleia e de Parmênides, da mesma cidade. Eles diziam que o que é simplesmente é e o que não é não é, logo não existe, opondo-se à lógica de Heráclito, que falava da luta constante dos opostos e da permanente fluidez do mundo, por conta desse conflito incessante. Agarravam-se ao sentido estrito e perfeito do conceito de ser e não aceitavam relativizações. Afinal, o que é existe e o que não é não existe, essencialmente. Não há essa história de vir a ser, isso seria tolice para eles e, da mesma forma, para Platão. 

Tudo tem seu fim - Poderia ser pior. É preciso pensar que poderia não ter aparecido ninguém para pôr juízo na cabeça desses idealistas puros, que certamente se acreditavam também belos e corretos, verdadeiros como só eles poderiam ser. Aristóteles desmentiu essa baboseira idealista, que não é de todo absurda, mas, se generalizada, como fizeram os pensadores de Eleia e Platão, se torna delirante ao extremo e, pior, nos condenaria a uma existência um tanto tosca e voltada para o nosso próprio umbigo idealista. Para Aristóteles, a questão era exatamente o vir a ser, pois orientava seu pensamento para a importância dos fins, thelos, fundando a coerente abordagem teleológica. Haveria, essencialmente, potencialidades e a substância era determinante neste nosso mundo, tanto que seria nele o local onde as formas puras, lógica platônica não abandonada por Aristóteles, se manifestariam e somente poderiam se manifestar pela via do nosso mundo, das coisas presentes nele e que continham, em si, exatamente um fim e uma potencialidade para realizar o seu fim. Conhecer essas coisas não era perda de tempo, conforme ficava sugerido em Platão e Cia. Pelo contrário, era a única forma de conhecer o que se vai por este nosso mundo e, também, de alcançar a divindade, já que o pensamento seria o acesso a ela e o único acesso, diga-se de passagem. 

Assim, sob esse vértice, Aristóteles foi importante para nos livrar da ingenuidade platônica da divisão radical entre ideias puras e mundo físico. Uma coisa depende da outra, dizia Aristóteles e o mundo físico era o nosso acesso a Deus, que não exatamente o criou, mas que o comanda à sua imagem e semelhança. Sem desmoralizar o mestre, mas também sem lhe dar razão plena, Aristóteles avançou na construção de um pensamento que nos fundamentou e ainda fundamenta no que tange ao desenvolvimento subjetivo que nos constitui e nos define como humanos desde então. 

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