sexta-feira, 3 de março de 2017

Um vulto acorrentado ao deserto do real

Chegou a hora. Não dá mais para fugir, ficar enrolando, deixar para depois ou disfarçar. É agora e não há como negar. Encoste na parede e deixe vir as balas. Isso, porque não há escolha. Ou você deixa que elas venham por bem, tranquilo, consciente acerca do que está acontecendo, ou fica aí gritando, como um coelhinho medroso.
O mundo nunca foi o que você pensou ou imaginou. É outra coisa, não é uma pracinha com escorrega e balanços, gangorras ou areia para fazer castelinhos de sonho. Não é uma sala de estar confortável e luxuosa na qual você se deita e assiste o tempo passar na janela da TV. Não é um quarto aconchegante para você deitar e fazer tudo o que se pode fazer deitado, incluindo dormir.

Não, não é. Isso existe, está certo, e você aproveitou bastante todas essas coisas, ou quase todas, de uma forma ou de outra. Mas, o conforto, a satisfação e o regozijo nunca foram a essência da vida. Eles querem que você acredite na realidade de tudo isso, mas nada disso é real.

Você está numa prisão. Não num playground de prédio. Não está num hotel fazenda. Não está na casa de sua avó ou prima, tio ou madrasta. Não, você está preso, vive em uma prisão, habita uma cadeia, está acorrentado. No entanto, não se apercebe disso.

É a droga, ou melhor, são as drogas que eles te dão. Elas causam confusão, geram delírios, produzem alucinações e fazem você se sentir bem com a dor. Mas, não os culpe por isso. Culpe a você, que, além de consumi-las, ainda as idolatra como a sua libertação.

Mas, dá para entender. A vida não é aquilo tudo de bom de que falamos agora mesmo. É um mergulho na merda de uma penitenciária, convivendo com ratos e feras diversas, isso sem contar com as pulgas e o cheiro acre. Paredes nada sólidas, teto escuro, piso de papelão. Não há segurança aqui.

Não te deixam receber visitas, na verdade. As que vêm, foram mandadas por alguém para saber se você sobrevive, se está bem e precisa de alguma coisa para piorar ou mesmo adoecer com lepra. Aqui é assim, não se iluda com quem te diz que é diferente.

E o mais engraçado: você e todos os outros e outras que convivem neste caldeirão de horrores acreditam que há outro mundo no qual tudo será redimido e a ira divina será apaziguada...

Pobres diabos. Não sabem o que os espera depois disto. Não entendem, ainda, que o pior imaginado é o melhor que se pode ter enquanto se vive neste inferno. O mais tenebroso ainda está por vir. Aguarde.

E dito tudo isso, ele virou as costas e se afastou, arrastando as correntes que mantinham atados os seus instintos e a sua parca razão.

As balas de que ele falou não chegaram até hoje e o mundo, se não é o que pensei ou imaginei, tem seus confortos e delícias, assim como seus terrores e sofrimentos.


Ainda estou vivo. 

Quanto a ele, me parecia já morto, ali, durante aquele diálogo rápido travado numa rua central de uma grande cidade. 

Um vulto de olhos flamejantes, uma sombra com um inaudito ódio da luz que a projeta. 

Nunca mais o vi. Ele, certamente, nunca me viu.

Espero que se sinta, agora, redimido e que a ira que o atormentava tenha sido apaziguada. 

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