sexta-feira, 17 de março de 2017

Papagaios e pensadores disputam espaço no debate sobre a reforma da Previdência


O intelectual papagaio não sabe exatamente do que está
falando, apenas que alguém lhe diz o que deve falar 
Muita gente opina, mas poucos entendem acerca do que estão falando. E há os que funcionam como “intelectuais orgânicos” e repetem de forma acrítica os argumentos do governo: para mim, não passam de papagaios e chamá-los de "intelectuais", ainda que orgânicos, é lhes dar um valor que não parecem possuir

Leio chamada em um portal de notícias, na qual está oferecida uma aula de economia “grátis” para quem está contra a reforma da Previdência. Não vou citar o nome do autor, porque não creio que o assunto seja pessoal, mas comum a diversos outros profissionais que prometem o que não cumprem e, pior, demonstram o quanto não pensam, o quanto usam a cabeça somente para pôr boné, chapéu ou mesmo simplesmente para deixar crescer o cabelo.

O economista citado, o que se pretende a dar a “aula de economia grátis”, parece prenhe de títulos. O seu texto, porém, não reflete o que ele deve ter estudado, caso tenha efetivamente realizado todos os cursos que diz ter feito. Ele expressa as ideias genéricas e gerais que têm sido usadas pelos membros do governo para defender a reforma. No meio dessas ideias, há ameaças, como a de que ou acontece a reforma como é proposta ou teremos uma desgraça em futuro próximo, com o calote das aposentadorias por parte do governo. Há, também, truques de sensibilização, como a afirmação de que os mais pobres sofrerão. Coisas comuns nos debates retóricos, não nas aulas de economia.

Os argumentos do governo de Temer, Padilha & Cia, aliás, são cheios de retórica, meias verdades e mesmo mentiras. Denise Gentil, economista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) realizou estudo detalhado sobre o tema, tomando o período de 1990 a 2005. Ela sentencia: não houve qualquer crise nesse período, qualquer déficit, mesmo quando Lula comandou a reforma de 2003, traindo boa parte dos seus eleitores. E, segundo ela, não há crise hoje, ainda que o governo de Temer anuncie um déficit astronômico de quase R$ 150 bilhões. Déficit que não existe, muito pelo contrário.


- Economistas como nós entendem a importância 
da aprovação da reforma. Currupaco!

- Currupaco! É sem dúvida  vital para a retomada 
do crescimento sustentável da economia! 
Conta distorcida - Maria Lucia Fattorelli, que milita há anos para que a Constituição seja levada em conta e, assim, que seja realizada uma severa auditoria na dívida pública brasileira, alerta para o fato de que “O propagandeado “déficit da Previdência” é uma farsa. A conta feita para mostrar o “déficit” é uma conta distorcida”. Ela diz que há um truque básico para chegar ao suposto déficit:

O falacioso déficit apresentado pelo governo é encontrado quando se compara apenas a arrecadação da contribuição ao INSS paga por empregados e empregadores (deixando de lado todas as demais contribuições que compõem o orçamento da Seguridade Social) com a totalidade dos gastos com a Previdência, fazendo-se um desmembramento que não tem amparo na Constituição e sequer possui lógica defensável, pois são os trabalhadores os maiores contribuintes da COFINS.

Pois é, o fato é que não é honesto fazer isso, distorcer dados para obter vantagens. Não é correto nem na iniciativa privada, muito menos na administração pública. E o pior é que tem gente que cai, até porque há um princípio subjetivo, que raramente ganha atenção em nossa reflexões cotidianas, e que está relacionado à crença irracional de que uma instituição do Poder Público transmite apenas informações comprovadas e irrefutáveis, ainda mais sendo um governo, um gabinete da Presidência da República. Há uma crença um tanto infantil nas palavras da autoridade e muitos de nós sequer imaginam como mentem as autoridades, ou, em alguns casos, como afirmam coisas que não têm fundamento.

A autoridade fica pior ainda na foto se forem levados em conta os números da previdência nos últimos anos. Segundo a mesma fonte da citação anterior,

A Seguridade Social tem sido altamente superavitária nos últimos anos, em dezenas de bilhões de reais, conforme dados oficiais segregados pela ANFIP. A sobra de recursos foi de R$72,7 bilhões em 2005; R$ 53,9 bilhões em 2010; R$ 76,1 bilhões em 2011; R$ 82,8 bilhões em 2012; R$ 76,4 bilhões em 2013; R$ 55,7 bilhões em 2014, e R$11,7 bilhões em 2015.

Credibilidade - Você pode dizer que trata-se de um debate realizado entre surdos, pois há os que, como o “professor” de economia que construiu sua aula com lugares comuns, parecem casados em comunhão de bens com o governo. E há os que, como Fattorelli e Denise Gentil, não confiam nem um pouco na conversa governamental, muito pelo contrário. Em termos de credibilidade, porém, o lado B, este que duvida da sinceridade do governo, parece mais bem fundamentado. Gentil tem um trabalho detalhado sobre o tema e Fattorelli tem estudado bastante as finanças públicas e tem um time de pesquisadores a acompanhando. Enquanto isso, o outro lado tem parca credibilidade, por motivos óbvios: a classe política anda dando péssimos exemplos, parece comprometida apenas com o próprio bolsou ou a própria autoestima, dependendo do caso. Afinal, boa parte das “pessoas públicas” neste país experimenta uma elevação na qualidade de sua vida financeira após a ocupação do cargo público e, com certeza, essas mesmas pessoas inflarão o peito, levantarão o nariz, exigirão ser tratadas como “doutores” ou “doutoras” e se acreditaram estar em um nível de existência superior ao dos demais mortais.


Pense. Afinal, não é tão difícil e sua cabeça precisa ter o que fazer
O professor de economia que ofereceu aula grátis não cumpriu o que prometeu e a maior parte dos comentários ao seu texto foram de gente que lastimou o baixo nível da exposição. Não havia qualquer conta, qualquer operação matemática que demonstrasse o que o “professor” afirmou. Mais do que nunca, o “professor” mais pareceu um papagaio repetidor de ideias prontas e frases feitas. Igual impressão causou, certa vez, o articulista da Veja, creio que de nome “Constantino”, que foi citar Milton Friedman em um contexto inadequado e tomou um sabão merecido de Ciro Gomes, publicamente, em um debate na TV. Aliás, por incrível que pareça, muitos dos defensores das ideias de Friedman, Von Mises et caterva não parece saber bem sobre o que falam. Há os que sabem, é claro, e a esses é necessário preservar e incentivar, para que tenhamos acesso a ideias inteligentes entre os simpatizantes do liberalismo econômico. Isso ocorre também com muitos dos que professam o ideário socialista, é claro. 

O "professor" papagaio e as pensadoras - Claramente, há mais papagaios do que pensadores debatendo política e, principalmente, economia neste momento histórico. É lamentável, mas é assim que as coisas parecem ser. As professoras Gentil e Fattorelli, no entanto, parecem escapar dessa maldição e têm demonstrado conhecer o assunto, basta ler os seus textos. Logo, não parecem emplumadas repetidoras de ideias prontas e, assim, se enquadram no rol dos pensadores, aliás, pensadoras. Já o “professor” que prometeu uma aula e deu vexame... tsc, tsc. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário