quarta-feira, 1 de março de 2017

Não vamos falar sobre coisas desagradáveis

O Sistema Tributário brasileiro é um quasímodo e descobrir isso não é bom: faz sofrer e sugere que nós, brasileiros ou residentes aqui, somos os que alimentam monstruosidades como essa 

Não vou mais ler nada, não quero mais saber de nada. O exercício da leitura e, algumas vezes, o da conversa é uma tortura e um ato de agressão a nós mesmos. Ao ler, ao ouvir, os sons nos chegam trazendo informações bastante desagradáveis. Palavras ferem, com certeza. Pior: palavras que nos fazem entender a dura realidade na qual vivemos causam ferimentos graves e, não raro, nos fazem querer até mesmo dar um fim à vida. Tantas são as injustiças da nossa sociedade, com frequência perpetradas exatamente pelos que deveriam ter como princípio detectá-las e combatê-las com vigor, que chegamos mesmo a desanimar. Eu, pelo menos, confesso que desanimo. 

Veja o que ocorre com o Sistema Tributário brasileiro. Trata-se, esse tal Sistema, de um conjunto de regras e instituições que regem a situação fiscal, tanto coletiva, quanto individualmente. Toda atividade econômica tem direitos e obrigações, você sabe. Direitos e obrigações que dizem respeito à sociedade de modo geral, que isso fique claro, e que têm relação com uma lógica, que é política e econômica, de distribuição de justiça e renda. Não há sentido, no mundo civilizado, em se falar de um Sistema Tributário que não funcione para garantir justiça para todos e para distribuir a riqueza. No entanto, o Sistema Tributário brasileiro não é justo e não distribui a riqueza, muito pelo contrário. Logo, é um quasímodo, uma monstruosidade. 


Rico não paga - O caso é tão tenebroso que investigando os números divulgados pelo próprio Estado você descobre que quem está acima, no topo da pirâmide, praticamente não paga impostos. O que esse pessoal recebe é, predominantemente, isento ou dedutível exclusivamente na fonte, com uma alíquota branda e simpática. Inacreditável. Já o que a camada do meio da pirâmide recebe é taxado pesadamente na fonte. Isso quer dizer que quem paga a conta de tudo ou quase, dos privilégios dos andares lá de cima às migalhas atiradas ao rés do chão, é você, se você se situa aí no meio da pirâmide, é um remendado trabalhador que se mata para ganhar o seu salário, que pode variar de míseros cinco salários mínimos até uns vinte, por aí. A conta é sua, você sentou na cabeceira da mesa e tem que pagar tudo. Se não tiver em espécie, pode sacar o cartãozinho de crédito. 


Alimentando a fera - Não é brincadeira. Um Sistema Tributário que concentra renda ao invés de distribuir é algo inaceitável. E, no entanto, nós, brasileiros, o aceitamos. Alguns de nós, até mesmo trabalham para esse sistema e até dizem que a questão não está nos valores movimentados, mas na correção da taxação, na imperativa necessidade de se pagar os impostos corretamente, no prazo devido. Ou seja, não se deve enxergar a lógica tributária ou a justiça que proporciona, muito menos o caráter necessariamente distributivo que esse sistema deveria possuir. O importante é que se pague corretamente os impostos, ou seja, é fundamental que alimentemos o monstro sem questionar acerca de sua monstruosidade. 

Vamos mudar de assunto - Toda esta reflexão mórbida é fruto de leitura. Assim, para não cair em depressão evite esse péssimo hábito. E se for conversar com alguém, que seja sobre religião, futebol ou mesmo política, aquela política partidária que parece mais discussão de torcedores. Não fale sobre coisas da realidade, principalmente sobre esses temas desagradáveis, como a tributação, bem como sobre a injustiça social e a concentração econômica que a tributação do Estado brasileiro promove. 

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