terça-feira, 7 de março de 2017

Lucro e vantagem são casados e se traem o tempo todo

O lucro, ah, o lucro, esse voluptuoso boy de programa que fascina a todos, sem exceção. E a vantagem? Essa vamp sensualíssima que habita o sonho de todos os homens e até de algumas mulheres e é adorável ao extremo. Sim, esses vultos mágicos da contemporaneidade capitalista são o que há de mais atraente e desejável, em todos os planos, espaços, tempos e aonde mais a imaginação voar. Não são má gente, assim como quase ninguém o é até que se faça conhecer na intimidade.

O lucro surge de uma condição real, que pode ser conhecida pela lógica econômica, de forma efetiva e clara. Se dá pela retirada de um valor de uma pessoa, grupo ou instituição e pela transferência desse valor para outra pessoa, grupo ou instituição. Embora isso seja assim, há quem acredite em fadas, duendes e na propriedade mágica do dinheiro de gerar mais dinheiro, ou seja, gerar sua própria remuneração sem nada fazer, como uma parreira produz uvas ou como da terra nascem batatas, natural e espontaneamente.

Há, também, idealistas que constroem uma máquina de lucrar, que, depois de pronta, funciona automaticamente e suga uma corrente financeira para dentro de si, passando, a partir de então, a gerar dinheiro limpo, puro e imaculadamente livre de qualquer conspurcação humana. Usualmente, essas pessoas lidam com tráficos diversos, como o de armas, drogas e até mesmo de pessoas, e são as que mais lucram. Não raro, estão envolvidas com atividades “legais”, como as realizadas pelos bancos e outras empresas do mesmo porte.

De todo modo, o lucro é decidido, potente, viril e mais o caralho. É o fodão do mundo, o rei que a tudo governa e a todos satisfaz, quando possível e desejável. Deus. O lucro é Deus e quem o idolatra se sente também dessa forma, onipotente, onisciente e tudo o mais.

Vantagens - Há, do outro lado, os que sonham com vantagens diversas, como o vulgo imagina ser o funcionário público, aquele que já foi chamado por inúmeros nomes feios, como barnabé e marajá (tocando os opostos da difamação). O tipo que quer vantagem é mais preguiçoso, quase lânguido, e quer mais é ganhar na margem, arrumar uma teta, contratar um serviço perpétuo e indelével de mordomias. Na prática, o amante, ou a amante, da vantagem é mais perigoso para os outros que o “lucrador”. Enquanto este é animoso e frontalmente agressivo, aquele é como o verme, come quieto, sobrevive na sombra, sem que aquele ou aquela que por ele ou ela é parasitado perceba. Em boa parte, é do segredo e do inesperado que retira a sua força, assim como a força de morte que circula no organismo e se manifesta, por exemplo, no câncer.

Levar uma vantagem para casa é o que todo mundo quer, dizem. Mas, há diferenças. O “lucrador” quer arrancar as vísceras daquilo que toca, pois sua voracidade é insaciável e violenta: quer muito e de uma vez, se possível. Já o “vantajoso” é manso, deseja preservar indefinidamente sua condição de parasita, por isso não se sente bem atacando o organismo de onde retira sua força.


Infidelidade - O importante é saber que o lucro e a vantagem formam um casal perfeito sob determinados aspectos. Ajoelham diante do altar do mercado, pois é assim que deve fazer quem quer se dar bem. O mercado, eles sabem, não é o conjunto de consumidores do mundo, como dizem os tolos: é o nome de fantasia de um grupo diminuto e fechado, como uma seita secreta. A alcova do casal é a alma humana e nela vivem os dois, traindo-se mutuamente o tempo todo, pois que para realmente lucrar ou auferir reais vantagens o tempo todo, é imprescindível agir dessa maneira. 

O mercado, afinal, exige a fidelidade de seus súditos, mas apenas no que diz respeito a ele, deus voltado para o próprio umbigo sagrado, e aos seus ditames. Entre os súditos, porém, é mister que a infidelidade forneça o tom das relações. Afinal, harmonia não dá lucro. Nem tampouco o amor, ou qualquer virtude, permite conseguir vantagens. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário