segunda-feira, 6 de março de 2017

Lucrar parece bom, mas é uma merda


Todo mundo só pensa em se
dar bem e isso é uma merda
Parece ser difícil defender a tese de que a subjetividade incentivada pelo capitalismo traz bons resultados para o ente humano. É certo dizer, porém, que “Capitalismo” é um termo bastante genérico para designar, na prática, ideias abstratas sobre produção, acumulação e distribuição de riquezas e circulação de mercadorias. É o tipo da coisa que é tudo e não é nada. Mas, creio ser possível reduzir o leque de itens tratados nesse âmbito a alguns poucos, relacionados diretamente à subjetividade.

O principal diz respeito à tendência obrigatória para a realização de lucro. Sem lucro, não há capitalismo. O lucro é o centro de tudo, a orientação básica que governa o pensamento e a ação de quem vive, pensa e se move com os elementos do sistema capitalista. Lucro significa ganhar mais do que perder, faturar mais do que gastar, ou, em termos diretos e mais populares, “se dar bem”. Existe no seio da lógica que ficou conhecida no Brasil dos anos 1980 como “a Lei do Gérson”, oriunda da fala do ex-jogador em uma propaganda dos cigarros Vila Rica: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”.


Jogar para ganhar é a regra, sempre,
de qualquer jeito, custe o que custar.
Mas, o problema de jogar apenas para
ganhar é que se perde o prazer de jogar
Produção & destruição - Levar vantagem é o objetivo e mesmo a justificativa para alguém acordar cedo, se vestir e sair para labutar, diariamente. Não precisa ser, mas o é em boa parte dos casos, simplesmente porque é assim que a coisa tem que ser para funcionar. E funciona, é certo. De modo claro, porém, para azeitar a engrenagem, cabe sempre produzir e reproduzir situações de incompletude e insatisfação, quando não de indignação e revolta. A “mão invisível” serve exatamente para fazer os ajustes entre a pressão que é exercida sobre as pessoas e os resultados que essas pessoas produzem ao serem pressionadas. Num cenário no qual nem tudo está claro ou definido, o sujeito pressionado se volta para onde a pressão é menor e, nesses casos, a corrida vai no sentido do primeiro caminho encontrado. E este, no ambiente urbano da sociedade capitalista contemporânea, vai rumo ao consumo e se faz pelo consumo.

Consumir é algo pernóstico, por um ângulo, pois significa literalmente “destruir”. E algo bastante saudável, por outro vértice, pois remete à produção, tanto no que diz respeito aos produtos oferecidos para consumo, quanto em relação a todas as relações econômicas que se formalizam e sustentam no ato de destruição que define o consumo. De modo direto, se tomarmos essa realidade, falamos de uma base subjetiva em que a destruição é produtiva e a produção é destrutiva, dialeticamente, opondo sempre esses termos para, no movimento, a máquina capitalista funcione. Sempre para gerar lucro para alguém, não esqueça.


Os números governam tudo, relativizam o
essencial e determinam uma instabilidade que
requer contagem e monitoramento constantes:
desse modo, você ocupa todo o seu tempo e
não pensa na merda de vida que está levando
Ganhar & ganhar - Para gerar bons resultados, propondo o engrandecimento humano, a melhora das pessoas de forma geral, o capitalismo teria que dosar sua sede ávida por lucratividade e isso feriria o coração do sistema. Porém, cabe lembrar que, no início do século XX, essa mesma avidez parece ter levado o mundo a uma crise terrível, causando terríveis dissabores aos seres humanos. Por conta disso, o Poder caminhou num sentido diferente ao que estava sendo adotado no século anterior, buscando a inevitável regulamentação. No século XIX, a proposta hegemônica era a da liberalização, da quebra das regulamentações, da absoluta e completa liberdade econômica. É provável que a paz que vigorou naquele período tenha, inclusive, se fundamentado nessa iniciativa, que gerou um ambiente socioeconômico propício a que a competição fosse concentrada na “haute finance”. E esta não é mais do que, em diferentes níveis históricos, temporais e espaciais, o cassino empolgante cujo único sentido de jogar é ganhar, lucrar. Não se joga pelo prazer do jogo, se joga para levar vantagem em tudo, certo?

E o fascínio do jogo e do ganho levou o mundo à depressão econômica na década de 1930, motivou duas guerras e ensejou inúmeros massacres pontuais e moleculares, aqui e ali, como continua ensejando, neste século XXI.

Subjetividade patológica - Não se pode tapar o sol com uma peneira, diz o povo. O que significa que não podemos deixar de enxergar a realidade simplesmente por não querer vê-la como é e seja qual o expediente utilizado, será falho para tal. Sendo assim, é imperativo propor que se pense, seriamente, que a busca obsessiva pelo “se dar bem” financeiro, proposta de forma fundamental e objetiva pelo sistema capitalista, desde sua fundação até hoje, é patológica e inviabiliza qualquer iniciativa de proporcionar um sistema econômico saudável.

A matriz lógica capitalista parece gerar uma subjetividade doentia, com a alienação do sujeito em sua sujeição ao objeto, que é apresentado originalmente como sua posse, mas é, na verdade, o senhor da relação. Gera uma confusão terrível na qual sujeito e objeto são o oposto do que aparentam ser e têm funções diametralmente díspares daquelas que apresentam definidas nas suas essências. O sujeito se julga independente e ativo, lidando com objetos dependentes e passivos, mas, na prática, é dele a dependência e a passividade. Essa alienação é condição sine qua non para o sucesso do arranjo subjetivo que enseja o sucesso mecânico do sistema.


O sujeito vai galgando degraus
para, no fim das contas, se
lançar no abismo da alienação 
Merda - O fato é que, sem essa alienação fundamental, as pessoas não continuariam a viver objetivamente mal, vendo o seu cotidiano ser rebaixado ao sentido hierático de uma via crucis rumo à realização de fantasias falsas e tolas, criadas por outrem e transmitidas em massa, mas vendidas como autenticamente individuais, pessoais e singulares. Sem elas, as pessoas poderiam enxergar e sentir o odor da merda sem que precisassem, insistentemente, recorrer a jorros de perfume para não senti-lo. Poderiam, inclusive, sair da merda, se quisessem. 

Mas, se as pessoas não se movem, em boa parte é pelo motivo de que idolatram o ouro-de-tolo do sistema de signos, símbolos, pensamentos, emoções e sentimentos que o sistema capitalista lhes disponibiliza. E, assim, tudo funciona como deve ser, a contento de uns poucos e em detrimento de todos os demais. Que merda...

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