quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Treze anos de engambelação


Negri: "A ideia de governar por meio da corrupção,
ou seja, retomando o hábito da direita, não parece
ter perturbado o projeto do PT desde o princípio"
“Os petistas foram ótimos”, dizem aqueles que esperam muito pouco ou mesmo nada de um governo “de esquerda”

Há alguns dias tive em mãos um texto de Toni Negri, o autor dos livros Empire e Multitude, que li, e de Commonwealth, que não li. O tema do teórico italiano era o Brasil contemporâneo, pós-PT, e o objetivo era, claramente, tentar entender a merda que deu. Não tenho muito tempo para me aprofundar no assunto, mas vale o esforço meditar rapidamente sobre alguns tópicos da pesquisa de Negri sobre a nossa tragédia.

Em primeiro lugar, a primeira pergunta do italiano foi “Por que o PT reprimiu as lutas modelo Occupy de 2013-2014 a ponto de desvirtuar o seu significado e permitir que a direita tivesse hegemonia sobre elas?” Trata-se de uma oportuna questão, embora já se tenham passado quase quatro anos das manifestações populares de 2013, que ficaram babacamente conhecidos como “Primavera de Junho”, “Jornadas de Junho” e outras efusivas exaltações românticas. Oportuna pelo motivo de que parece que ninguém, ou quase ninguém, parou para pensar no porquê de um partido como o PT ter agido dessa forma, tão condenável.


 “Por que o PT reprimiu as lutas modelo Occupy
de 2013-2014 a ponto de desvirtuar o seu
significado e permitir que a direita tivesse
hegemonia sobre elas?”, pergunta Toni Negri
Traição? - Explico: o PT foi fundado e sustentado por movimentos populares, aqueles que se dão basicamente nas ruas, que ocuparam as ruas, durante anos, envergando as bandeiras do PT. E, eis que, quando esses movimentos populares, que têm uma natureza essencialmente democrática, pois representam a manifestação popular nas ruas, saíram para mostrar a sua voz, encontraram a polícia em praticamente todos os recantos, para mandá-los de volta para casa, para assistir a novela e o noticiário viciado das grandes redes de (des)informação. E que ninguém venha dizer que foram as polícias estaduais, as tropas de dominação colonial conhecidas como Polícias Militares, que obraram a repressão sórdida. A Guarda Nacional fez a mesma coisa quando chamada e também os aliados íntimos dos governantes petistas, como o governador do Rio de Janeiro, que hoje trocou o Palácio Guanabara por um presídio em Bangu, foram destaque no quesito “truculência”, com prisões realizadas com provas forjadas, provocadores dispersos pela multidão, violência inaudita e perseguições localizadas a manifestantes, como a menina que ficou conhecida nacionalmente como “Sininho” e que, pela forma que é estigmatizada pelo poder de Segurança, parece ser uma terrorista inimaginavelmente perigosa.

A atitude dos governantes, que, como costuma acontecer, mandam suas guardas pretorianas “dialogar” com movimentos populares e populações das comunidades conhecidas como favelas, foi a de dizer para todos: “Fodam-se. Nós estamos nos palácios, temos poder e vocês têm que nos engolir, apanhar da polícia e ficar caladinhos”. Isso foi dito pelos governos estaduais, municipais e pelo governo federal, aquele que tinha o pessoal “de esquerda” mandando.


Oração do Arrivista (tradução livre)

Deus, conceda-me a serenidade necessária para
aceitar as coisas que eu não posso mudar. Dê-me
coragem para mudar as coisas que não posso aceitar

E conceda-me sabedoria para esconder os corpos daqueles que
terei que matar porque estavam no meu caminho.

Ajuda-me também a prestar atenção aos artelhos com
os quais ando hoje, porque eles podem estar conectados à
bunda que eu tenho que lamber amanhã.
Contragolpe - Foi triste e inaceitável, inclusive, ver e ouvir militantes desse partido justificando a atitude tosca, burra, dos petistas do Planalto. Atitude que gerou a força dos movimentos “de direita” que expulsaram o pessoal “de esquerda” das ruas e ajudaram a derrubar a senhora presidenta Dilma, que, dizem equivocadamente, tomou um golpe. Não, a senhora presidenta tomou um contragolpe, pois que o golpe ela própria havia dado, cinco minutos depois de se eleger em 2014 com um discurso feito para esses mesmos movimentos sociais e populares que foram trucidados em 2013. Mal acabou de contar os votos e já desmentia as suas palavras da campanha, agindo de forma diametralmente oposta e tomando o rumo da chamada “direita”, inclusive nomeando um executivo indicado pelos banqueiros para tomar conta das finanças públicas, veja só. Dilma disse uma coisa, fez outra absolutamente oposta e isso caracteriza o que costumamos chamar de “golpe”. O “contragolpe”, que chegou algum tempo depois, foi, em boa parte, consequência do golpe.

Mas, apesar de tudo isso ter sido esfregado na nossa cara, os petistas mostraram e ainda mostram ter uma vistosa cara-de-pau e negam resolutamente o exposto. Na verdade, pelo percebido por Negri, pode não se tratar exatamente de “caradura” ou “desfaçatez”. É possível pensar, com base na nossa própria experiência, pelo ouvido dos petistas e pelo que Negri ouviu deles, que toda a desgraça do PT se possa explicar por intermédio de uma lógica da burrice, ou quem sabe, por uma estável ignorância acerca de como entender os “mecanismos elementares do poder”.

Na margem - Bem se pode argumentar, principalmente depois de ler um dos assessores mais próximos do presidente Lula, que essa ignorância, essa burrice nada santa, foi produzida por uma interpretação pobre da realidade de forma ampla. Lula, segundo ele, jamais pensou em fazer reformas, em mudar as estruturas do poder, em transformar o país num recanto melhor pela via institucional. Não, de modo algum. Para Lula, segundo o assessor, o negócio era trabalhar para conseguir “um ganho na margem” para o povão e, é claro, para ele et caterva, os ricos benefícios que somente o poder pode proporcionar. 

Segundo Negri,

(...) a ideia de governar por meio da corrupção, ou seja, retomando o hábito da direita, não parece ter perturbado o projeto do PT desde o princípio. Um sistema constitucional em que o presidente é eleito com 60% dos votos – tais os números do sucesso de Lula –, numa república federal semipresidencialista em que o Congresso e o Senado não alcançam – num sistema eleitoral quase proporcional – nunca a maioria (presidencial) necessária para o funcionamento legislativo e executivo, é um monstro constitucional, condenado à instabilidade e a negociatas contínuas (...)


O padrão clássico de relacionamento entre
poder econômico-financeiro e governo foi
mantido, sem alterações significativas. Nesse
arranjo, o povo fica somente com o osso duro
de roer e é quem paga a conta do banquete
Não canso de repetir a definição atribuída a um ex-deputado petista, fundador do partido e já falecido, chamado Florestan Fernandes. Ele teria dito (ainda nos tempos em que os petistas eram oposição e mantinham uma postura de representantes puros da esquerda) que “eles não são de esquerda, são sindicalistas tentando melhorar de vida”. “Eles” são os petistas. Para mim, aí está o foco do problema que nós, brasileiros temos e tivemos de forma exacerbada durante os anos de governo do PT: trata-se de uma mal afamada e sórdida mentalidade arrivista que contamina tudo que toca, que transforma em merda todo o ouro das boas intenções dos discursos “de esquerda”.

Fiasco - Há quem diga que o governo promoveu o espírito “nouveau riche” em todos nós, que fomos convidados a nos transformar em “classe média”, ou seja, a trocar nossa riqueza de espírito, nossa riqueza cultural e subjetiva, pela miséria do consumo, da vida não para o trabalho, mas para a diversão tola e incorporada ao mundo do mercado. De cidadãos, fomos rebaixados a idiotas consumidores e um consumidor padrão é um absoluto idiota, sem retoques, pois que se acredita senhor de suas escolhas e destinos, quando suas palavras, seus gostos, desejos e sonhos foram estudados e repaginados para serem devolvidos com a forma de ideias prontas, referências identitárias e estilos de ser e se haver no mundo. Enaltecendo a alienação fundamental do sujeito, um dia definida por um teórico francês como “especular”, o consumidor olha para as imagens e as crê coisas, objetos; olha para dentro de si e se assegura de sua individualidade, se crê possuidor de uma singularidade absoluta; faz de sua vida um exercício da estultice, pois troca, como sugeriu um poeta de Curitiba, a sua eternidade por um estilo qualquer, um corte de cabelo, uma vestimenta, um vocabulário ou uma idolatria musical.

Na prática, o governo petista foi, no frigir dos ovos, um fiasco. No entanto, se descermos ao porão de nossas exigências, se formos ao fundo do poço de nossas expectativas de decência, ética e qualificação dos serviços oferecidos pelo Estado à sociedade, esse governo não foi tão mal assim (alguns o disseram, inclusive, ótimo). Provavelmente, com quase certeza, pode mesmo ser qualificado como um tantinho assim melhor do que o que o precedeu e, também é provável, um pouquinho menos ruim do que o atual. Mas, isso não é grande coisa.


Bolsas furadas - Para encerrar, não me fale das bolsas como obra petista. Elas foram elaboradas na década de 1990 como um programa mundial de raiz liberal (Milton Friedman, mais antigamente, já tinha proposto algo semelhante e muito mais engenhoso do que o modelo de bolsas). Existem em diversos países, sempre com o mesmo modelo. Não têm tanto efeito em longo prazo quanto em curto, quando servem para possibilitar aos que nada têm possuir algo da sociedade de consumo, quase nada mais que isso, que é melhor do que nada, mas fica muito aquém do que minimamente se esperou de um governo de esquerda. 

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