quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Os terríveis Homens-Polvo!


Ele é um workaholic no trabalho e nas horas vagas
Segunda-feira, sete horas da manhã. Eles já estão pelas ruas, vagando. Alguns já chegaram ao seu destino e aquecem os tentáculos. Começa mais um dia, mais uma semana, do cotidiano dos terríveis... 
                                                                   Homens-Polvo!

Criaturas irrequietas, os homens-polvo também são mulheres, ou melhor, não há apenas homens-polvo, mas mulheres-polvo à profusão, tanto quanto homens, ou até mais.

Todo mundo, ou quase, é polvo nos dias de hoje. Todo mundo que trabalha, que tem que ganhar o próprio sustento e ainda sustentar outros e outras, ou ajudar a fazer isso, é polvo. Possui tentáculos, vários, muitas vezes bem mais do os polvos que vivem no mar. Precisa desses tentáculos, que são evidentemente simbólicos, para conseguir realizar a miríade de tarefas que lhe são delegadas no seu local de trabalho e fora dele, pois que com internet no celular e aplicativos que deixam a pessoa ligada vinte e quatro horas, o horário de expediente dura o dia todo e mais um pouquinho.

Mutações - Homens-polvo e mulheres-polvo são mutações terríveis. Resultam de experiências científicas que tentaram transformar pessoas em máquinas, mas erraram o alvo e fizeram dessas pessoas algo bem pior. Máquinas e aparelhos podem ser desligados, mas o organismo que acomoda os instintos não pode, nunca. Logo, fazer das pessoas mecanismos de encaixe e produtividade é bom, mas transformá-las em polvos é melhor sob vários aspectos.


Ela é a superheroína que cumpre tarefas profissionais e ainda
é boa mãe, esposa, amante, doméstica, cozinheira etc. etc.
Deve também cuidar da aparência, não engordar e ser linda
O polvo é um animal, segue seus instintos e não tem escolha. Como dito, não pode ser desligado, a não ser que se considere o sono como uma espécie de stand by, o que não está tão distante assim da realidade. Mais um pouco e deveríamos ter uma luzinha vermelha como os aparelhos, aquela que fica acesa quando o troço está desligado e verde quando está ligado. Na verdade, esqueça, pois não sei se os polvos dormem. Não sei se alguém no fundo do mar dorme, pois parece que os peixes estão sempre bem despertos.

Instintos - Muitas coisas nos polvos parecem programadas ou conseguidas pela via de alguma programação ou treinamento. Os polvos são orientados pelo instinto, é claro, mas os homens-polvo, como um arremedo de polvo, são orientados por algo semelhante, mas não exatamente igual. No animal há o instinto básico, profundo e permanente, na pessoa-polvo há o discurso, ou uma estrutura discursiva, um molde. No animal, quem se encarregou de lhe orientar as regras instintivas foi a natureza ou Deus, conforme se queira explicar. Na pessoa, há a base natural ou divina, é certo, mas a orientação instintiva vem de outra indústria.

Na metade do século, uns teóricos disseram que essa indústria é cultural. Creio que estão certos. A cultura é o campo instintual humano, é coletivo e compartilhado. Se você quer dominar as pessoas, lhes contamine a cultura com ideias e sentidos que lhes tirarão a autonomia e a transformarão naquilo que você quiser e puder transmitir clara e prazerosamente para essas pessoas. Na prática, é fácil, bastando, para isso, que você tenha acesso a meios de produção simbólica e que faça parte da rede de produtores simbólicos que unifica cada vez mais, as suas falas, objetivos e táticas. 

Curioso observar que os homens-polvo são ferozes, mas apenas
entre si próprios. Contra os opressores, são usualmente dóceis

Terror & êxtase - Escrevi tudo isso para lembrar que há gente que está por aí se assemelhando aos polvos, trabalhando por sete, oito ou nove e ainda sorrindo, buscando diversão e entretenimentos diversos, tomando porres quando pode e aceitando a vida como ela é, oscilando entre o terror e o êxtase: terror contínuo presente na pressão em um cotidiano maçante e desinteressante e êxtase no desbunde das diversões fáceis e toscas, usualmente encapadas com o espírito do rebanho. 

Também na diversão as pessoas-polvo usam seus tentáculos. Precisam de muito, de tanto quanto for possível, amam a rebeldia e a transgressão e se empenham bastante para ter mais que o bastante, para transgredir e conseguir provar para si próprias que são livres. Elas, afinal, são infelizes, mas têm o direito de dizer para si próprias que isso não é verdade. No frigir dos ovos, os polvos também amam e isso, ao rés do chão, é o que acaba importando mais do que todo o resto, diz o instinto publicitário que rege os instintos das pessoas-polvo. 

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