terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

As migalhas que caem da mesa do patrão

Um economista é uma pessoa que entende, supostamente, de economia. Economia, por sua vez, significa um ramo de conhecimento que estuda e analisa a atividade de circulação de valores monetários e financeiros, abordando a produção, a distribuição e o consumo de bens e serviços. Talvez essa definição não agrade a muitos(as) economistas, mas, quem sabe, está próxima da realidade. Mas, para irmos mais fundo na compreensão do que seja essa tal economia e economistas, cabe lembrar que a origem do termo é grega e conjuga “oikos”, que significava a unidade básica social, com um chefe, sua família, seus súditos e escravos, todo mundo convivendo junto, e “nomos”, que remete à gestão ou administração. Significa, assim, administração de uma casa ou feudo, pois que muitas casas daquele tempo eram, na verdade, feudos, onde havia muita gente envolvida.

Quem sempre esteve interessado na economia, na administração da casa, era o chefão, é claro. Pode ser que os demais também tivessem essa preocupação, mas é improvável. No máximo, esposa e filhos se ocupariam em administrar o que era deles, pensando na preservação dos privilégios que as posses lhes traziam, embora coubesse fundamentalmente ao pai de família essas tarefas de gestão.

Atender aos interesses dos chefões
A administração da casa atende ao administrador, como bem se pode imaginar. Súditos e escravos pouco teriam a ganhar com essa administração. É possível mesmo pensar que era graças ao suor desses súditos e escravos que a administração era possível, já que ninguém consegue administrar o que não há e se havia algo nessas casas e feudos, isso se devia em grande parte ao trabalho dos que trabalhavam fisicamente. O chefão, o administrador, não trabalhava fisicamente, pelo contrário. O trabalho braçal era uma mais-valia para ele, que não trabalhava a não ser administrando (um trabalho intelectual, diga-se) seus bens.

A economia nasceu para atender aos interesses dos chefões, me disse alguém, um dia. Chefões, para essa pessoa, são os donos do mundo ou de pelo menos um pedaço dele, os que dominam meios de produção e detêm capital suficiente para não precisar trabalhar a não ser na administração de seus bens. Para os súditos, a economia não atende a não ser agindo contra eles, insuflando o patrão a lhes explorar o máximo possível.

A quem serve o Estado
Dessa lógica de administração, nasceram as iniciativas de gestão de toda ordem, inclusive a que gerou o Estado. O Estado é uma estrutura administrativa, não há dúvida, que conjuga instituições diversas para o fim de gerir uma sociedade. Assim como já foi dito, o interesse maior de haver um Estado vem daqueles que o controlam, que nele se instalam. Mesmo quando o Estado atende momentaneamente aos súditos, como no caso do Welfare State (o Estado de Bem-Estar Social), esse atendimento agrada ao grupo que controla o Estado, fundamentalmente.

Quando há a instalação do Welfare State, isso ocorre para liberar alguma pressão ou para manter o súdito vivo, trabalhando e atendendo aos interesses do chefão feudal, que hoje recebe uma plêiade de nomes que buscam escamotear o status de chefia absoluta do feudo ou casa, ou representam denominações de administradores menores que respondem, como não poderia deixar de ser, ao chefão e buscam atender a ele e somente a ele (são os governadores, prefeitos, parlamentares e, é claro, presidentes). Se for a vontade dele o atendimento à população em parâmetros restritos, pontuais ou focais, então isso acontece. De forma ampla, isso nunca acontecerá, pois o chefão do feudo deve reservar a si próprio ou aos seus mais chegados os privilégios.

A outra face
O mundo nasceu injusto e a administração da injustiça é a verdadeira arte dos economistas e profissionais afins. Eles são algo como a “elite orgânica” que mantêm o poder dos patrões e chefões dos feudos. O trabalho deles é vasto, mas prima por uma meta, a de produzir condições, discursivas e/ou materiais, para que o poder do chefão se consolide e que isso ocorra de modo lógico e racional para os súditos. Afinal, dói menos a exploração com algum sentido, o maltrato com certa lógica. E essa é uma das tragédias humanas: convença com jeitinho o sujeito, demonstre-lhe uma lógica e ele gostará de levar até mesmo uma bofetada, contanto que faça algum sentido. Chegará a oferecer a outra face.

As migalhas

Em resumo, há coisas que nasceram de determinada forma e não vão mudar. Não com o nome e a história que têm. Servem a quem lhes concedeu a própria natureza, quem lhes criou a essência básica. Um feudo será sempre um feudo, a administração do feudo sempre atenderá aos interesses de quem o comanda e os súditos obedecerão ao senhor sempre que isso lhes pareça lógico. A lógica básica, é claro, é a que indica que o chefão tem poder de vida e de morte sobre os submetidos e, assim, melhor é aceitar a bofetada e, de preferência, oferecer a outra face. Tem muita lógica, faz muito sentido. E ainda há a perspectiva de continuar se servindo das migalhas que caem da mesa do patrão...  

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