terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Como fazer surgir um elefante na frente de todos

Passo pela sala e vejo um programa antigo, no qual um mágico encapuzado (não encapuçado, por favor), que se chamava “Mister M”, desvenda os truques dos mágicos de auditório. Reflito que os governos brasileiros, todos, inclusive os que se intitulavam socialistas ou coisa próxima disso, são prestidigitadores no que tange à questão do tal déficit previdenciário. 

Mister M mostra como fazer um elefante aparecer num estacionamento é fácil, contanto que se conte com alguma ajuda de pessoas que estão em pontos estratégicos no estacionamento. Os governos contam com essa ajuda no caso previdenciário, pois economistas, comentaristas e todo um grupo de auxiliares repetem, incessantemente, o que os governos dizem. Nenhum deles, quem sabe, se dá ao trabalho de observar as contas do próprio governo, o que desmentiria a conversa oficial. Uma conversa que parece tão hábil que esconde algo certamente bem maior do que um elefante. 


Veja que, segundo a economista Denise Gentil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há um superávit da casa dos bilhões na Previdência Social brasileira e, computadas as pastas da Saúde e da Assistência Social, cresce bastante. E o mais interessante, é que ela não inventa números, usa os divulgados pelos próprios governos no período que vai de 1990 a 2006, quando, assim como hoje, se chorou muito por um déficit que nunca existiu, a não ser graças às habilidades prestidigitatórias dos governos Collor, Itamar, FHC e Lula. Este último chegou a emplacar uma reforma previdenciária louvada pela mídia que basicamente tirou direitos dos trabalhadores e os cedeu aos banqueiros, cabendo as migalhas eventuais aos empresários do setor. O mais engraçado é que o nome do partido que o elegeu é “dos Trabalhadores”. 

A chamada mídia, a grande imprensa, é a responsável pela ajuda prestimosa que permite aos governos (inclusive os de Dilma e de Temer, que ficaram de fora da pesquisa, mas agem de igual forma) fazer surgir um elefante deficitário. Você é iludido e, talvez por reconhecimento pelas habilidades “mágicas” dos governos e seus auxiliares, paga pelo espetáculo. E paga e paga e paga, todos os dias, com suor e algum sangue. 

A vida humana é extremamente curiosa. Pagamos para ser enganados e, talvez, porque somos enganados. Damos razão a quem claramente nos mente e não nos damos ao trabalho de pensar um pouco além da ponta do nariz e ir buscar esclarecimentos e provas acerca do que os governos e os seus auxiliares dizem. E nos dizemos autônomos, esclarecidos e até mesmo especialistas em uma coisa ou outra, quando o que fazemos é repetir pensamentos e frases, que já foram ditas repetidas vezes. E nos dizemos humanos quando queremos proclamar a nossa bondade e boa vontade em relação a nossos pares. No entanto, em todos os momentos, parecemos agir como se olhássemos apenas para os nossos interesses e pensássemos apenas na satisfação de nossas necessidades mais desmedidas, em detrimento dos outros, sejam lá quem sejam. 

Parecemos um tanto tontos, tolos que nos divertimos com prestidigitações e somos, como no caso do déficit previdenciário, claramente engabelados pelos truques dos governos e dos seus auxiliares prestimosos, tanto os bem posicionados nas empresas de comunicação, quanto os que repetem o que os governos e seus auxiliares dizem, sem qualquer crítica, nas mesas de trabalho e nas mesas de bar. 

Há uma cumplicidade tão pungente entre todos, vítimas e algozes, que não se pode bem mais distinguir quem é quem nesse caso. 

Mas, algo espantoso parece certo e irrefutável: os humanos, pelo menos os brasileiros, parecem escolher inimigos para administrar o bem comum. Algo como uma comunidade de formigas que escolhe um grupo de tamanduás para governá-la, ou um grupo de gazelas elegendo o leão como líder. 

Talvez se possa falar em masoquismo, uma espécie de gosto pelo sofrimento, nato e hereditário que nos transcende e ao qual aderimos, sem alternativas. 

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