quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Na porta do Alencastro, uma convivência que muito me valeu


O Alencastro, em foto encontrada na
internet, com extrema dificuldade
Há quem diga que tem um carinho especial pela escolinha na qual passou anos de infância e adolescência, mas, no meu caso, não há como ter esse apreço por um lugar no qual tudo era confronto e conflito, no qual aprender era um desafio contra o qual se impunham inúmeros obstáculos vindos de toda a parte 

No início era o verbo e ele estava conjugado contra mim. Tudo o que acontecia comigo era motivo de discórdia. Entre mim mesmo, saiba. Não era um debate ou uma briga com outros ou outras, embora me parecesse que todos e todas queriam brigar, quase sempre. Conforme disse no texto anterior, eu estava em Copacabana e tudo era uma zona, uma balbúrdia!, como enfatizava uma professora se referindo à minha sala de aula no meu colégio que ficava, claro, em Copacabana. O nome? Alencastro Guimarães, que, na década de 1970, ali pela meiuca, em 1975 ou 1976, nos parecia ser, efetivamente, uma zona, uma balbúrdia, com muita algazarra, que era outro termo da mesma professora.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Memórias de muito tempo atrás em Copacabana


Uma bela vista aérea do bairro de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro
Uma pitada de recordações não faz mal a ninguém e ajuda a explicar e a entender muita coisa que aconteceu conosco, mas não pense que é fácil recordar sem algum sofrimento: assim, com um tantinho de mágoas, falo agora de um pouquinho do que lembro de minha infância e adolescência em Copacabana, nos anos 1960/70, dizendo claramente que lá aprendi que o mundo é "agressivo e irritante, barulhento e decepcionante no que diz respeito ao respeito pelo próximo"

Desde que me conheço por gente, e isso já faz muito tempo, tenho interesse (até certo fascínio) em entender como sou, como “funciono”, que impulsos me governam, que termos me definem etc.. Durante algum tempo, na meninice, centrava quase que unicamente em mim esse interesse, buscando compreender o meu “funcionamento” e me integrar pessoal e socialmente, de forma que pudesse me sentir membro de alguma comunidade juvenil, que, curiosamente, costumava ser constituída por gente que não queria saber ou compreender nada além do imediatamente imposto, que, não raro, era aceito sem muitos questionamentos como “a” Realidade e/ou “a” Lei.

Joguei fora minha adolescência tentando me enquadrar na lei e na ordem dos tolos e medíocres. Andei com gente em relação à qual hoje me envergonho de ter travado qualquer tipo de relação. Em torno de mim, a escória diversificada dos filhos de uma classe média de moral puída, que não queriam mais do que se dar bem na vida e aproveitar tudo o que essa tal vida teria para oferecer a quem a desejasse. Um desses filhos se tornaria, décadas mais tarde, político importante no estado do Rio de Janeiro e, na sequência, acabaria na cadeia. Não que todos fôssemos iguais a esse sujeito, é óbvio, mas entendo que todos vivíamos sob a mesma égide escrota do tirar vantagem de tudo quanto se podia. Ele somente mostrou como é ir bem longe nessa viagem turva. 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Moralistas de todo o mundo, vão à merda

Trata-se de um mundo estranho. Na era da liberdade de expressão, na qual tudo é troca de informações e em que todos começamos a ter certeza de que a nossa cabeça se forma inequivocamente no processo de comunicação, cada vez mais se critica de forma feroz qualquer coisa que possa ser classificada de preconceituosa e que possa ser desmerecida e atacada por conta de ser supostamente preconceituosa. E se faz isso ferozmente, sem ouvidos para o outro lado (a não ser pelas formalidades éticas de registrar, nas últimas linhas ou nas últimas palavras, por obrigação do ofício, a versão dos[as] acusados[as]), apenas para constar, para inglês ver e para que os(as) acusados(as) não possam se queixar depois alegando que não foram ouvidos. 

Em outras palavras, o(a) combatente combate o preconceito(a) e se torna tão preconceituoso(a) quanto o preconceituoso(a). Ridículo, mas acontece. Em alguns casos, chega-se a atacar fisicamente o(a) suspeito(a) de ser preconceituoso(a). Logo, é útil saber que a tal liberdade de expressão pode ser uma arapuca perigosa. Você acredita nessa liberdade e pode sofrer sérias represálias por conta dessa ingenuidade. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Jovens de ontem e de hoje: mais semelhanças que diferenças

Mudaram os padrões subjetivos da juventude e embora muitos creiam que os jovens de ontem foram mais rebeldes, cabe pensar que aquela rebeldia foi mais simbólica do que real - no mais, todos foram ou são jovens e isso significa que têm mais identidades do que disparidades

Jovens sempre se caracterizaram por pelo menos duas qualidades: são vigorosos e impetuosos. No entanto, ao lado do vigor e do ímpeto, há outro aspecto que os caracteriza e que, porém, não é uma qualidade: a inexperiência. Nelson Rodrigues sabia disso e escreveu que todo jovem tem os mesmos defeitos de um adulto, mais um: a inexperiência. O fato de ser inexperiente faz com que a pessoa jovem cometa besteiras suficientes para caracterizá-la até mesmo como tola em boa parte de seus pensamentos e atos. A mim parece que a capacidade de fazer besteiras costuma exceder os limites quando falamos de gente jovem em qualquer tempo. Isso faz parte do show, com certeza. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Ele botou o seu bloco na rua

Sergio Sampaio foi um dos mais criativos compositores da música brasileira, porém, hoje, poucos sabem de sua existência e, pior, quase ninguém conhece sua admirável obra

Todos os dias é costume lá em casa ouvir música. Hoje, disse para minhas meninas que iria refazer o repertório do pen drive no qual estão as cento e muitas músicas que tocam diariamente e recebi ovações das duas, principalmente da minha amada esposa, que sentenciou: “Muda tudo, mas deixa o Sérgio Sampaio!”. Sábio pronunciamento.

Pouca gente conhece Sérgio Moraes Sampaio, ou simplesmente Sérgio Sampaio, que nasceu em 13 de abril de 1947 na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, a mesma cidade na qual nasceu aquele que é chamado de “Rei” e que todo mundo conhece: Roberto Carlos. No caso, o fato de todos conhecerem o tal “Rei” e quase ninguém saber quem foi o “maldito” Sergio Sampaio fala de uma característica essencial da cultura popular brasileira: o entretenimento é tudo e a arte não vale nada. Veja que enquanto o “Rei” me parece um representante do romantismo monocórdio e não demonstra qualidades musicais que justifiquem sua fama, Sampaio sempre trouxe consigo a marca da genialidade, assim como outros, também desconhecidos, como, por exemplo, Walter Franco. 

Se há perdão para bancos, então não há crise

Se o governo está perdoando os bancos, então como pode falar em sacrifícios para os trabalhadores para vencer uma tal de uma crise que só existe longe dos gabinetes? Somente interpretando o andamento das coisas como de autoria de autênticos psicopatas é que se pode talvez entender como funciona o jogo político que presenciamos no Brasil

A Central Única dos Trabalhadores, a CUT, informa em sua página na internet, em manchete: “Em três meses, governo perdoa quase R$ 30 bilhões dos bancos”. Sendo isso verdade, confirma-se a tese de que não há essa porra de crise merda nenhuma para o governo. Trata-se, simplesmente, do caso da pimenta no olho do outro ser refresco. Coisa de filhos(as) da puta mesmo.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Agressões à língua estão se tornando mais comuns e partem de onde menos se espera

Em reunião com autoridades, observei um sem número de agressões indisfarçadas à língua, verdadeiras atrocidades que podem denotar desprezo total e completo pelo bem-comum contido na correta expressão linguística

A língua é o instrumento fundamental de comunicação dos que a utilizam, sempre. Comunicar, em tese, é um ato que remete ao que é comum entre um grupo de pessoas, um fator de identidade e de organização mental dessas pessoas. A subjetividade, a racionalidade e a sociabilidade se fundamentam na comunicação e há certas regras de composição interna dos elementos da língua que existem para facilitá-la, evitando mensagens dúbias ou com duplicidade que perturba a entendimento comum de uma mensagem. O mau uso da língua cria o que chamamos “ruído”, o que significa dizer que o emissor de uma mensagem produziu, voluntária ou involuntariamente, algum elemento estranho à comunicação e que a perturba.

Usamos a língua para encontrar termos que nos definam e a língua fala em nós e por nós. Isso significa dizer que a língua é um instrumento para que formemos, de forma autoral, uma subjetividade, mas que também nos forma, subjetivamente, enquanto personagens de uma trama. Logo, podemos dizer que somos ativos e passivos diante da língua, que nos expõe um mostruário de termos à nossa disposição para dizermos o que sentimos e pensamos, mas que, ao fazer isso, também nos determina uma forma de fazê-lo, delimitando as possibilidades de expressão e as direcionando para determinado sentido.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Para Temer e amigos fiéis ao Deus Mercado, crise é sempre oportunidade


De Gaulle desfila no Rio de Janeiro, na década de 1960; teria
sido dele a frase que atribui ao Brasil a falta de seriedade, mas
foi de um embaixador brasileiro esse dito, que tem definido,
historicamente, a vocação brasileira de eleger políticos que
só tratam como realmente sérios os seus próprios interesses 
Para faturar sempre, sem intervalo ou descanso, a receita é o vale-tudo e Temer, com seu grupo, sabe muito bem disso; assim, compra quem for preciso e mostra o quanto a política está distante dos anseios da população, que considera o atual presidente uma desgraça para o país

Conta-se que Charles De Gaulle, presidente francês, teria dito, aí pela metade do século XX que o Brasil não seria um país sério. Não é verdade que foi ele quem disse isso, sendo mais precisamente atribuída a real autoria da frase ao diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil na França entre 1956 e 1964 e genro do presidente Artur Bernardes. Não importa, porque o que interessa é que a frase parece adequada e estes nossos dias vêm corroborar o dito.

Veja você que na semana passada o Congresso Nacional brasileiro votou, surpreendentemente, pelo arquivamento da denúncia do procurador geral da República contra o presidente da República Michel Temer. Isso impede que o Supremo Tribunal Federal o investigue e processe, mas apenas no caso da referida denúncia, fundada em denúncia dos empresários donos da empresa JBL, que apontava para a participação de Temer no cala-boca de Cunha, o homem que sabe demais.

domingo, 6 de agosto de 2017

Crise de quem, cara pálida?

Tem coisas que a gente fala, mas não pensa no que fala. O termo “crise” diz tudo e não diz nada, mas parece que, se resignificado no contexto da conjuntura contemporânea, pode nos fazer entender o mecanismo do sistema

Crise? Que crise? Há décadas ouço essa palavra constantemente. Ouço e leio, aqui e ali, de forma notável na mídia, a grande imprensa basicamente. É incrível, aliás, como a grande mídia, a imprensa bem capitalizada e que está em todo canto, servindo objetivamente a poucos, está em nossa vida. A própria “crise” sendo usada indiscriminadamente, por todos, para explicar praticamente quase tudo, tem origem midiática. Foram os telejornais, com seus comentaristas econômicos etc. que tiraram da cartola esse conceito amplo e impreciso de “crise”.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Com boa educação e gentileza tudo fica melhor

Há coisas que são fundamentais na vida e uma delas é saber proporcionar às outras pessoas bons momentos baseados simplesmente no bom tratamento, mas... sem fingimentos!

Para que serve a boa educação? É, você há de convir, uma boa pergunta. Principalmente porque você com certeza já passou por alguma situação na qual a educação de seu interlocutor era meramente formal. Outras vezes, certamente, você foi bem tratado por alguém que realmente parecia se importar com o seu bem-estar. É algo totalmente diferente.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Jamais tantos foram dominados e controlados por tão poucos


O capitalismo financeiro é essencialmente improdutivo e gera necessariamente tristeza, insatisfação, desordem, doenças e mortes; mas o pior é saber que tudo isso não acontece por acidente e que pouca gente está feliz com a infelicidade da maioria

Fala-se hoje em Capitalismo Improdutivo. Ora, isso é o capitalismo financeiro, que não produz nada de útil, ou quase nada, para nós, humanos. É o capitalismo das ideias e finanças puras. Ideias puras como o liberalismo e o socialismo, proposições etéreas que jamais serão possíveis em nosso mundo real (vide textos "Belas ideias nem sempre trazem boas intenções" e "Liberalismo ♥ Socialismo: um caso secreto?"), mas que servem bem para distrair os incautos que defendem que o mundo real deve deixar de existir para dar lugar a uma fantasia de mundo ideal. 

As finanças puras são resultado das ideias puras. De tanto você viver em uma realidade irreal, mas logicamente bem elaborada, você passa a acreditar em coisas abstratas, admitir que ideias puras e ordenadas são bem-vindas em um mundo impuro e desordenado. No meio do caos, ou sob a ameaça dele, tudo o que puder ser idealizado traz um alívio ilusório, mas reconfortante e imediato. O dinheiro, graças à sua característica de quantificação perene e obsessiva, é bom, ótimo, para tranquilizar quem vive em constante desassossego. Daí que o dinheiro passa a governar, ou, mais precisamente, as finanças passam a governar. Finanças são valores puros, o dinheiro puro, sem produtividade material, sem cédulas ou moedas, etéreo e por isso onipotente e onipresente, gigantesco e assustador como se tivesse origem diretamente em Deus.

Veja, abaixo, um exemplo do que digo.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Quanto maior a crise econômica, mais lucram os bancos. Por que será?


A monstruosidade do sistema bancário ilustrada em cartum
A equação Recessão = Lucratividade Astronômica é a base dos negócios bancários desde sempre e a sociedade paga a conta enquanto economistas tentam esconder que quem ganha no capitalismo financeiro ganha mais nas crises econômicas

A associação entre lucro dos bancos e crise econômica é direta. Agora mesmo, o Itaú Unibanco vem superando todas as expectativas com um lucro de quase R$ 6,2 bilhões no segundo trimestre deste ano. Vive-se, no país, o que o próprio presidente chamou de “maior recessão de todos os tempos”, com certo exagero, é claro. Mas, inequivocamente, trata-se de uma séria retração econômica que mostra bem sua realidade perceptível nas ruas das cidades. Comércio fechando, pessoas dormindo sob as marquises e gente com cara de quem está devendo mais do que pode pagar. No entanto, como já é costumeiro, os bancos lucram bastante, parecendo mesmo que é nesses momentos de desgraça para muitos que obtêm maior sucesso.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Dona Juventina do cortiço e os fofoqueiros das redes sociais

Heródoto Barbeiro | 18 de julho de 2017 | O texto compara os fofoqueiros das redes sociais com uma certa dona que cuida da vida das pessoas no cortiço onde mora

Compadre falar mal da comadre é tão antigo como a Sé de Braga. Ninguém passava incólume pela janela do velho casarão da antiga Travessa do Hospício, na baixada do Parque Dom Pedro, no centro velho de São Paulo. Dona Juventina – velha e maquiada, batom carmim, miçangas douradas nos punhos e no pescoço – não saia do seu posto. Sabia tudo o que acontecia nas velhas casas da rua e também do antigo cortiço habitado sobre tudo por negros em frente à sua decadente e descorada casa. Ela sabia tudo de todos e divulgava amplamente. Era dessa forma que as malícias, brigas, pequenos furtos, e análise do caráter de um e outro eram divulgados no meio da comunidade.

As notas escolares, bilhetes de admoestação, reprovação na escola, namoricos entre estudantes eram espalhados com eficiência para velha senhora. Os escândalos maiores como traições ganhavam grande destaque e não se passava pela janela da Juventina sem que ela contasse o caso e fizesse perguntas para aperfeiçoar suas histórias. Ninguém duvidava se tudo aquilo era verdade ou não. A priori era verdade uma vez que a fonte era a velha feiticeira que viveu até a década de 1970. Parecia uma internet sem streaming.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Três temas de reflexão nesta manhã fria

Andando, se pensa e o que se pensa não deve sempre ficar escondido; como cantava Sergio Sampaio, “Aonde o pé vai, arrasta o salto, lugar de samba-enredo é no asfalto”

Caminhando, penso. Hoje, pensei três coisas: a arte em você, ao invés de você na arte, a virilidade como um componente fundamental na minha vida subjetiva e, é claro, nas minhas ações, e a necessidade de termos um plano de vida, assim como um avião precisa de um plano de voo.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Um dia a conta chega

Não se iluda com o que os materialistas dizem, pois se pode ser verdade que aqui pagamos o que aqui fizemos, há, ainda, a vida imaterial do espírito, na qual ele terá que se haver com coisas cometidas durante a vida terrena

Léon Denis foi um sujeito que estudou e seguiu a doutrina de Allan Kardec. Viveu entre 1846 e 1927 e tem como grande virtude seu interesse em refletir sobre as ações humanas sob o ponto de vista do espírito. Foi maçom e ficou conhecido como o consolidador da doutrina espírita.

Em primeiro lugar, Denis deixa claro que o corpo é algo como um caixão no qual o espírito está confinado durante a sua vida terrena. Ao nascer, o espírito é encarcerado e, no processo, perde quase que completamente a memória, pois há uma mudança radical na sua condição com esse aprisionamento. Chega a dizer que o choro do recém-nascido tem o significado de algo como um grito de desespero.

Segundo ele, o inferno não é nada como a Igreja o pinta e esta nossa vida terrena seria algo próximo do que se costuma chamar de purgatório. Durante a nossa vida terrena, temos a oportunidade de nos purificar para pagar antigas dívidas de outras vidas, geradas por atos maus, que genericamente podem ser definidos como aqueles nos quais abandonamos a lógica do espírito para adotar ferrenhamente a lógica terrena, carnal.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Liberalismo ♥ Socialismo: um caso secreto?


Parece haver uma unidade secreta
que une esses aparentes opostos
Se você, como eu, se cansa de assistir ao diálogo de surdos que envolve liberais e socialistas, saiba que estamos sendo enganados, pois tudo indica que há uma semelhança fundamental que une uns aos outros em um namoro não assumido

Costumamos tratar o socialismo como utópico e, da mesma forma, creio que devemos fazer o mesmo com o liberalismo. E quando falo do socialismo utópico proponho que consideremos também a doutrina marxista dessa forma, quando considerarmos as suas proposições (1). Sendo verdadeiro que Marx elaborou um interessante sistema de análise, parece mais verídico ainda que suas proposições foram absoluta e completamente idealistas, sem muito vínculo com a realidade, e que acabaram desmentidas por ela. Basta lembrar que a previsão era a de que o Socialismo se estabeleceria em um país capitalista avançado, no caso a Inglaterra, por conta das contradições inerentes a esse sistema que, no fim das contas, o destruiriam. Deu zebra e a coisa aconteceu em um país nada industrializado, com um capitalismo quase inexistente ou mesmo inexistente, como a Rússia.

Entendo que, de certo modo, o socialismo real está para o socialismo marxista, ideal, como o neoliberalismo está para o liberalismo, tão ou mais ideal. Em ambos os casos, falamos de autênticas corrupções do modelo original, que parece inaplicável, tanto em um caso como no outro.

Belas ideias nem sempre trazem boas intenções

O problema das doutrinas idealistas como o Liberalismo é que suas belas ideias não raro trazem ocultas más intenções formalizadas em péssimas práticas econômicas e políticas

Entendi que o liberal é alguém com excelentes ideias. Propõe o que avalia como o rumo adequado para a condução da estrutura econômica da sociedade, algo como o norte a ser trilhado em uma caminhada. A doutrina do Liberalismo seria a bússola, então, que deveria orientar nosso pensamento e nossas ações, apenas isso. Jamais se alcançará, neste mundo terreno e real, o liberalismo e ao estudar a doutrina nascida no século XVII, por obra e graça de uma série de boas iniciativas do pensamento humano, bem se percebe isso. Com base nessa premissa, há quem diga que todo liberal deveria se apresentar como um utópico nato e hereditário.

As ideias liberais parecem conter o feitio idealista de uma belíssima postura diante da realidade econômica e social. Ideias empolgantes, principalmente se localizadas no tempo em que foram formuladas, que era aquele da revolta contra privilégios pétreos e espúrios e o do otimismo irrefreável na força da razão. Lembremos John Locke, que parece ser o ideólogo basilar do liberalismo e dizia, para quem quisesse lhe ouvir: “Cada homem tem um direito natural à vida, liberdade e propriedade e nenhum governo deve violar esse direito”. Trata-se de um princípio admirável, decerto. Humanismo puro, ataque à lógica imbecil que considerava existir algumas pessoas que podiam se postular mais merecedoras de benesses do que outras.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Quem cresce o tempo todo é o câncer


A mentalidade do crescimento econômico necessário e imperativo
parece ter inspiração clara e inequívoca: as células cancerígenas 
A lógica do discurso empresarial, com seus conceitos vazios de sentido e sua incitação ao crescimento desmedido, me parece doentia e se assemelha à do câncer, que tem a característica de não ter medidas para o seu crescimento, matando o organismo que o hospeda

“É preciso crescer – não importa o contexto”, diz um artigo publicado em um jornal eletrônico. Essa é a mentalidade clássica do capitalismo: crescer, crescer e crescer, sempre, permanentemente, de forma indelével e constante. Não se pode parar. Parar é estagnar, parar é proibido e não crescer corresponde à morte em um sistema competitivo e altamente especializado, como dizem ser o capitalismo contemporâneo. É como se você precisasse estar sempre tomando fermento e aprendendo coisas novas. Precisa não apenas crescer, mas desenvolver novas habilidades, novas expertises, conforme o termo criado para designar as especialidades.

Crescimento sem limites gera problemas. Problemas ecológicos, principalmente. Mas, não apenas: problemas relacionados à saúde (ou falta de) mental. No meio ambiente, a destruição causada pela mentalidade do “É preciso crescer – não importa o contexto” é flagrante. No plano psíquico, a depressão assume o posto de mal maior na sociedade contemporânea e pode ser dito como diretamente determinado por um contexto de metas inatingíveis que somente se justificam, se é que se justificam, pela exigência de crescer, crescer e crescer em qualquer contexto, custe o que custar. Como bem disse Maria Rita Kehl, a depressão é o típico sintoma de que o barco está fazendo água, ou seja, que a pessoa não consegue sustentar o ritmo esperado para crescer sempre.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

E tem troco para o café


De um lado, o malandro, estilo Zé Pilintra...
Pequenas demonstrações de independência podem significar mensagens acerca de sentidos relacionados a um bom combate, mas há quem considere tudo isso a pura e nefasta malandragem, um ataque ao progresso e à ordem

Você entra no ônibus junto com sua filha e pergunta ao motorista quanto é. Ele responde: R$ 16. Como estava escrito na frente do ônibus que a passagem custa R$ 16, você se pergunta por que perguntou se já sabia e não deu logo toda a quantia, R$ 32.

Mas, repentinamente, tudo fica claro. Ao perguntar estupidamente se a viagem custaria R$ 32, pois parecia óbvio que custaria exatamente isso, o motorista responde que não, que só custaria R$ 16, já que minha filha não pagaria. Dou-lhe R$ 20 e espero o troco.

Ao me ver ali parado, com cara de quem espera o troco, o motorista pergunta: “Não pode deixar pro café?”. Respondo que sim, que pode ficar para o café, e entro no ônibus.

Solidariedade
Reflito sobre o poder do motorista, do homem comum, sobre as máquinas empresariais, corporativas; máquinas de guerra, claramente, nos moldes das máquinas de guerra tratadas por Deleuze. Ele, o motorista, me ajuda, eu o ajudo e assim ficamos nos sentido mais fortes contra a porra do mundo cruel que essas máquinas vão produzindo em série industrial.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Até quando seremos tratados como otários por aqueles que elegemos?

Brasil vive momento de anomia com políticos de alto escalão sendo desmascarados como corruptos, mas somente alguns são condenados

“Viver no Brasil é ser constantemente roubado por quem tem mais do que você”, define uma conhecida minha. Como negar? Veja que o presidente da República, o vice de uma presidente que foi afastada sabe-se lá o porquê, mas que mostrou inequívoca incompetência para governar o país e traiu seus eleitores logo após eleita, é acusado de tentativa de obstrução da justiça, com gravações em que incentiva um empresário a “calar a boca” de um ex-deputado preso por corrupção. Para que ele seja processado, porém, é necessária a aprovação do Congresso Nacional. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Como startar o processo sinérgico de resiliência schedular

Workaholics do mundo, uni-vos, pois, com o novo capitalismo e seus termos que falam tudo e não dizem nada, somente se salvam os que andam com a bunda virada para a parede

Uma das particularidades dos escravos contemporâneos é a de não ter hora para começar ou terminar de trabalhar. Antigamente, havia um horário e relógios dedicados exclusivamente a regular a entrada e a saída do trabalho. Mas, era um procedimento retrógrado esse de delimitar horários de dedicação ao trabalho. Logo se descobriu que isso não motivava ninguém, não oferecia oportunidades de aprendizagem, não propiciava o desenvolvimento de expertises e não promovia o crescimento pessoal e profissional, muito menos ensejava o team building. 

Meirelles, o presidente invisível

Por Samuel Pinheiro Guimarães | 12/07/2017 

Enquanto país se distrai com o futuro de Temer e a “agenda da corrupção”, um homem comanda, em nome da aristocracia financeira e da mídia, as contrarreformas que realmente importam ao Mercado

1. Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, ex-presidente do Bank of Boston e durante vários anos presidente do Conselho da J e F (de Joesley), de onde saiu para ocupar o ministério da Fazenda, procura, à frente de uma equipe de economistas de linha ultra neoliberal, implantar no Brasil, na Constituição e na legislação uma série de “reformas” para criar um ambiente favorável aos investidores, favorável ao que chamam de “Mercado”.

2. Henrique Meirelles já declarou, de público, que se o presidente Temer “sair” ele continua e todos os jornais repetem isto, com o apoio de economistas variados e empresários, como Roberto Setúbal, presidente o Itaú.

3. Estas “reformas” são, na realidade, um verdadeiro retrocesso econômico e político. Estão trazendo, e trarão, enorme sofrimento ao povo brasileiro e grande alegria ao “Mercado”.
O tema verdadeiramente importante é a tentativa das classes hegemônicas brasileiras, aqueles que declararam ao Imposto de Renda ganharem mais de 160 salários mínimos por mês (cerca de 160 mil reais) e que são cerca de 70 mil pessoas e que constituem, em seu conjunto, aquela entidade mística que os jornais e analistas chamam de “Mercado”

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Os escravos estão por toda parte


Os novos escravos são originais: se vestem de acordo com o que
julgam escolher e se creem absoluta e totalmente livres, tanto
que, nos momentos de lazer, exaltam a liberdade que não têm 
Tome a definição clássica do que é a liberdade e descubra que nem você nem ninguém que você conhece é livre, muito pelo contrário

Olhe em volta. O que vê? Escravos, predominantemente. Um escravo, ou escravizado, é alguém que está dominado, subjugado e submetido à vontade de outrem. Escravizar é tornar alguém dependente de alguma coisa ou de outro alguém. O escravo está privado de liberdade, submetido a uma vontade que não é a sua, a um poder que não é o seu, e que, assim, pertence a uma outra pessoa ou a uma instituição.

Considere que o assalariado vende a sua força de trabalho, o seu tempo e as suas habilidades, a outrem. Durante um tempo delimitado de seu dia, o assalariado pertence a alguém. Logo, ao menos naquele período, é um escravo ou escravizado, não é livre para decidir os próprios rumos e passos, sob pena de não receber o pagamento, o que inviabilizaria a sua vida, já que não seria possível comprar sequer o alimento ou pagar as contas básicas de moradia, energia, água etc.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A genialidade de Otto de Alencar segundo Lima Barreto


Otto de Alencar (1874 - 1912)
Citado en passant na obra do escritor, matemático perspicaz, Otto merece esta singela citação que se pretende uma homenagem

Há pessoas que passarão quase anônimas pela vida, é certo. Há aquelas que são festejadas enquanto vivas, mas rapidamente esquecidas depois que partem. E é de uma dessas pessoas que quero falar, ou melhor, que quero convocar Lima Barreto para dele falar.

Lima Barreto nos contou, rapidamente, algo sobre a existência de um tal Otto de Alencar, que descubro ter sido um matemático exuberante, daqueles que ama o conhecimento e mais ainda transmiti-lo. O próprio Lima nos fala sobre essa característica dele e de outros professores que conheceu, como um de nome Francisco Varela. Mas, de Otto, Barreto fala com especial ênfase. Segundo ele, Otto tinha 
(...) a certeza de que nunca conseguiremos sobrepor ao universo as leis que supomos eternas e infalíveis. A nossa ciência não é nem mesmo uma aproximação; é uma representação do Universo peculiar a nós e que, talvez, não sirva para as formigas ou gafanhotos. Ela não é uma deusa que possa gerar inquisidores de escalpelo e microscópio, pois devemos sempre julgá-la com a cartesiana dúvida permanente. Não podemos oprimir em seu nome.
Foi o homem mais inteligente que conheci e o mais honesto de inteligência.

Lima Barreto
(1881-1922)
Pelo exposto, Otto foi um grande sujeito, que entendeu exatamente o que interessa na questão do conhecimento e da construção de uma ciência. Lima Barreto o qualificava como um gênio universal, alguém que deixava sua marca indelével em tudo o que tocava. 

Eu, pessoalmente, só soube desse gênio por Lima Barreto e, aqui, agradeço a boa intenção do genial cronista que ergueu, com suas letras, um breve monumento a outro gênio. Não fosse por Lima, não teria imaginado que, um dia, viveu um homem com tamanha perspicácia e que viveu apenas 38 anos. Lima também não foi muito mais longe: esteve entre nós apenas 41 anos. 

Tudo está no seu lugar


“É que tudo está no seu lugar, graças a Deus, graças a Deus...
Não podemos esquecer de dizer: graças a Deus, graças a Deus”
PF decide fazer reestruturação burocrática e encerrará Lava Jato, enquanto políticos e empresários cantam antigo sucesso de Benito de Paula e muita gente rilha os dentes de raiva e diz que governo arrocha verbas da polícia para se livrar da dura

Sexta, no New York Times, deu que a Polícia Federal (PF) brasileira vai encerrar a força-tarefa que apoia a operação Lava Jato, aquela que ameaça agora o próprio presidente e seus ministros. Segundo o jornal, isso ocorre por conta de corte de verbas ou, mais precisamente, para frear o ímpeto investigativo que tem descoberto que a estrutura institucional política brasileira é podre e cheira muito mal.

domingo, 9 de julho de 2017

O poeta dos príncipes pariu o moralismo

Talvez o alvorecer do moralismo tenha se dado na luta contra a irracionalidade do mito, que apresentava os próprios deuses como gente espúria semelhante à gente espúria que efetivamente existia e que curtia imaginar deuses como gente igual à gente... Exatamente quando bons exemplos eram requeridos para formar a alta cultura!

Píndaro foi um poeta grego da cidade de Tebas. O príncipe dos poetas e o poeta dos príncipes, se diz por aí. Nasceu em 521 a.C. e morreu em 441 a.C. Ele teve uma seguinte ideia: os mitos tratavam os deuses como seres humanos, com os vícios e virtudes destes e isso não era legal. Os mitos eram claramente imagens projetadas dos que viviam naquele momento e naquele lugar, frutos da intenção de Homero em dar lições muitas vezes nada morais ou, dizem os mais sensatos, de apenas divertir, enredar o público com as histórias criadas pelo próprio público, traduzidas em letras poéticas.

Tudo indica que Homero tinha apenas o interesse em compilar pequenos enredos em grandes narrativas, como indicam as grandes obras “Ilíada” e “Odisseia”. Dramas específicos pontilhados em uma grande história; duas, na verdade. Havia, ali, o bem e o mal e possivelmente o interesse de Homero não fosse realmente dar lições de moral, mas divertir e, quem sabe, instruir, com os fatos da vida, projetados em estripulias humanas e sobrehumanas.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Se você é um lobo, não pode querer emancipar as ovelhas

Muito pelo contrário, se você é um lobo neste momento histórico, precisa é aproveitar e matar a fome, ainda que não a tenha... la-men-ta-vel-men-te

Conte nos dedos o número de crises econômicas no pós-guerra até 1973. Quantas você encontrou? Sérias, como as que foram se sucedendo depois de 1973, creio que nenhuma. Qual o país que ficou em polvorosa depois do fim da segunda grande guerra até aquele fatídico ano de 1973? Creio que nenhum.

Em 1973 começaram os problemas... e as crises. Não apenas tivemos, naquele mesmo ano, a tragédia chilena, com milhares de assassinados por um governo militar que nada mais fazia do que aplicar, ali, um receituário político e econômico que fortalece os mais ricos e destrói os mais pobres. Alguns o chamam de neoliberalismo. Pode ser, mas, no fundo, é apenas o velho sistema capitalista com seus disfarces toscos, agora na mão de um pequeno grupo, cada vez menor, que conseguiu poder inaudito graças às tecnologias de comunicação e informação. Nunca tão poucos tiveram acesso a tantos.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Aristóteles nos mostrou que o óbvio é aquilo que ninguém entende

O que mais vale na obra do genial pensador não é apenas a noção de ética ou mesmo de política, melhor é perceber o quanto tudo o que disse acerca de ética e política é tão óbvio e nunca foi entendido

Aristóteles transmitia ideias óbvias, irritantemente óbvias.

Ele dizia que as essências estão aqui, entre nós, não no mundo das ideias, coisa que ninguém sabe onde fica.

Dizia que somos racionais, que buscamos a felicidade. Mas que somente com a virtude a encontramos, praticando a moderação, tendo como estrela guia a perfeição e preservando a nossa independência, característica, aliás, do ser racional.

A virtude deveria se tornar um hábito, uma segunda natureza, algo visceral no ente humano, tão espontânea como respirar.

E seria essa virtude que deveria, acima de tudo, animar as relações políticas.

Aristóteles transmitia ideias óbvias, irritantemente óbvias. Tudo isso há dois mil e quinhentos anos, mais ou menos. 

O nosso problema parece estar na incapacidade de compreender o que é óbvio que tem marcado a história humana, pelo menos nos últimos dois mil e quinhentos anos. 

Aja com a invisibilidade de um ninja


Não é desse velhinho sorridente que estamos
falando... o ninja está lá trás, você não vê?
Não é verdade que o preto seja mau e o branco bom. Mas, também não é verdade o oposto. O Mestre Zen comunica que não pode admitir que se pense que há apenas uma quadrilha no governo dos acontecimentos. Segundo ele, há várias e são muitas e cada vez mais especializadas. Assim sendo, ele aconselha que você pense bem quando escolhe suas amizades. Elas serão importantes na sua vida de crimes, quando você for convidado a participar de alguma ação de uma dessas quadrilhas. Isso se você quiser ingressar no governo dos acontecimentos, é lógico. Se quiser ficar quieto, como faz o Mestre Zen, não há problemas.

“Em boca fechada não entra nem mosca e nem bala”, ele garante.


Da série “Palavras do Mestre Zen”, disponível no seu coração. 

Pense no pré-corrupto, embora de nada adiante

O mestre se postou sobre a montanha, admirando o pôr do sol. Deu, para si mesmo, o seguinte conselho:
Quando você for gritar contra a corrupção, pense primeiro no que faria se estivesse no lugar de quem se corrompeu. Não, não na situação pós-descoberta do ato corrupto. Pense no antes, em quando ele não tinha nada, ou nada do que queria. Coloque-se no lugar dele, ou dela, quando era uma pessoa como você é agora, incorruptível. Sinta-se na posição de quem se vê diante de sonhos inconfessos postos em forma de uma grana que vai pintar. Pense em quanto seria bom aqueles tantos mil que recheariam a conta e possibilitariam compras, quem sabe um carro novo ou, com relativa sorte, um apartamento. Pense no corrupto como gente que um dia não foi corrupta. Não o absolva, isso é outra coisa. Mas pense no outro como um igual a você, inclusive na tentação de se corromper. Afinal, todo corrupto, quando descoberto, deve dizer: “Mas, eu pensava que ninguém iria saber...”.
E calou-se, pois mais nada havia a ser dito, pois sabia que seus pensamentos um dia seriam escritos e editados por alguém e que isso muito o surpreenderia, já que não os comunicou a ninguém.


Da série “Palavras do Mestre Zen”, em breve disponível nas melhores casas. 

O que é a felicidade?

A mulher trabalhou, trabalhou, trabalhou. O marido, também. Ele perde o emprego, ela tem um carrão maneiro. Um dia, a gatunagem violenta e armada, não numa intenção de divisão da riqueza, mas de mudá-la de mãos, invade a casa e rouba tudo, até o carro. 

O tolo clama contra a insegurança, fala em violência e no combate urgente ao crime, sem esquecer um brado contra a impunidade emendado com uma exigência de mais duras penas. Ele acredita nas coisas do mundo, assim como ela e o marido, que foram roubados. Eles são tolos. 

O Mestre Zen não tem carrão importado nem ostenta aquilo que tem, muito menos atiça os sabores daquilo que não tem. Ele não é tolo e também não quer ser notado. Já o tolo, diz ele, “Adora um carrão e também de mostrar que vive bem. Por isso é tolo e por isso é vítima do destino e também da bandidagem”. 

Da série, “Palavras do Mestre Zen”, esgotada nas bancas. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

A atual anomia política levará ao desespero e a coisas piores

Uma mistura explosiva: um governo que muitos já caracterizam como uma quadrilha, o odiado e quase imbatível Lula e o voto da revolta que cairá no colo do moralista Bolsonaro são os elementos que nos fazem prever tempos difíceis para adiante

O que fazer quando os que detêm o poder político são desonestos? Essa é a questão recorrente que vem assolando os brasileiros. No texto “Ele prometeu, mas vai cumprir a promessa?”, publicado neste blog, eu cobrava a demissão de oito ministros envolvidos em tramoias. O presidente Michel Temer havia prometido demitir todo e qualquer ministro que fosse citado em processo judicial por corrupção. Os oito foram listados na publicação, pode conferir.

sábado, 24 de junho de 2017

A multidão e o poder

Não há conflitos, a não ser os de pequena monta e interesse; não há parâmetros para a penetração do poder em todos os níveis da multidão

De um lado, uma multidão. Uma vasta quantidade de gente com destinos comuns, mas com divergências pontuais que podem levar ao conflito aberto, ao confronto assassino. Todos juntos, solitários, bebendo coca-cola, se alimentando de comidas que não alimentam e de informações que não fazem pensar, essas flatulentas mensagens e memes diversos que circulam incessantemente pelas redes que agregam a multidão.

Os ditos “mal ditos”


Será um dos leões a imagem "cuspida e escarrada" do outro? 
Você já ouviu falar que alguém é a cara de outrem “cuspida e escarrada”? Na certa, se ouviu sentiu certo desconforto, até mesmo nojo...

E que aquele menino tem “bicho carpinteiro”? Você ficou imaginando como é esse bicho que ninguém nunca viu. Eu, pessoalmente, cheguei a pensar em cupins, mas a imagem de alguém sendo comido por cupins não é nada real.

O fato é que esses e outros ditos populares não são o que parecem. Tinham originalmente uma formulação que, ao contrário das citadas, tinha algum sentido.

Vamos desvendar, então, a forma original desses ditos tão “mal ditos”.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Tiros, violência desmedida e atos de vandalismo: será a polícia em ação?


Diferentemente do que ocorre em outros países, no Brasil a polícia parece,
sempre, desmedidamente violenta e mesmo desonesta. "Se eles (a polícia)
me pegam, avisem meu pai, se saio desta vivo não morro nunca mais",
trecho do rap de Thaíde, "Homens da Lei", composto já na década de 1980
e que está no primeiríssimo disco de rap do país, "Cultura de Rua", de 1988.
Há muita gente boa na polícia, mas os recentes acontecimentos ocorridos no Centro de São Paulo mostram que ou os maus predominam ou a existência da própria instituição policial militar é, em uma sociedade democrática, totalmente inaceitável

Existem muitas pessoas com excelente índole na Polícia Militar, com certeza. Existe gente boa em todo lugar, em toda instituição, é claro. E o mesmo se aplica a gente má, também é certo. O problema maior, nesse caso, é a própria instituição. Uma polícia militarizada só é justificável em situação de calamidade absoluta ou em casos de dominação colonial. A Polícia Militar, assim, ou é uma tropa de domínio colonial com prazo de validade vencido há tempo ou temos que admitir que estamos vivendo em estado de calamidade pública, com bandidos, assaltantes etc. vagando por aí à procura de vítimas inocentes. Em algumas áreas, a segunda alternativa é válida, mas, curiosamente, são as áreas nas quais nem a polícia vai, o que torna as coisas meio confusas para quem quiser entender a dinâmica do processo.

domingo, 18 de junho de 2017

Novas travessuras da língua

Saiba, aqui, o porquê de você nunca chegar em casa e como a multa só é craseada quando dói no bolso. 

Você é daquelas pessoas que vão à loucura com a Língua Portuguesa? Pois estou com você. Cada vez que me aprofundo, mais me surpreendo. A última é a descoberta de que ninguém chega em nenhum lugar. Sim, o que quero dizer é o seguinte: em algum lugar você não chega, de jeito nenhum. E por quê?

O fato é que a regência verbal da nossa Língua admite apenas as preposições: “de”, “para” ou “a”.

Assim, no caso do verbo “chegar”, temos as possibilidades abaixo:
- você chega de algum lugar;
- você chega a algum lugar.

Como você não chega para algum lugar, desconsideremos isso agora, mas lembre que a regra vale para qualquer verbo que indique movimento, locomoção. Assim, o verbo partir admite o “para” e também o “de” e o “a”.
- você parte para;
- você parte de;
- você parte a (ou à).

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Sobre a política da safadeza, a depressão e os possíveis desejos inconfessos dos eleitores

Há quem diga que política virou sinônimo de safadeza no país e que os eleitores seriam os responsáveis por isso pois fariam o mesmo que os eleitos, caso houvesse oportunidade

O político, hoje, é entendido pela população como aquele sujeito que pensa em seus próprios interesses e, por conta disso, utiliza recursos públicos para satisfazer a si próprio(a) e aos “amigos” e correligionários. Um dos maiores indícios disso é o procedimento do atual Presidente da República, Michel Temer, bem como o da presidente Dilma Rousseff, de quem Temer era vice. Ambos liberaram mais de um bilhão de reais, cada um, para tentar salvar seus mandatos, sendo que Dilma foi cassada no ano passado e Temer está na iminência de sê-lo a qualquer momento.

No entanto, se você os acusar, eles poderão argumentar que toda essa grana já estava com destinação prevista, pois estamos falando de emendas parlamentares. O curioso é que esse montante deveria ser liberado paulatinamente, como é praxe. No entanto, na hora do aperto, as autoridades supremas resolvem liberar tudo para sensibilizar os parlamentares em relação às suas boas intenções em relação a eles, não ao país.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Cariocas colhem o que plantaram durante um século


O cúmulo do cinismo acontece quando a instituição que deve 
combater o tráfico de drogas é quem trafica drogas – e, segundo 
fontes, essa foi a situação do Rio em um passado muito recente
A tragédia da violência no Rio é uma desgraça que foi lapidada pacientemente pelos governantes cariocas no último século, quando a polícia foi a única instituição pública a frequentar as comunidades/favelas

A fuga de moradores da zona norte carioca (ver matéria aqui) mostra a falência de todas as políticas públicas projetadas e implementadas no Rio de Janeiro. Curiosamente, essas políticas foram erguidas sobre a base da discriminação de parte da população, a mais pobre, por representantes das classes mais ricas, uma pequeníssima parcela da população, que é, na prática, a imagem icônica especular da grande massa populacional conhecida genericamente como a “classe média”, que apoia as políticas discriminatórias.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Promover o sensacionalismo barato está longe de ser a função social do jornalismo

Sabemos que os empresários compram presidentes, governadores, prefeitos, ministros, deputados e senadores e também sabemos que os bastidores da política fedem, mas nem por isso se deve divulgar acusações sem provas nem condenar sem julgamento como faz a imprensa sensacionalista

Que todo mundo sabe que rola muito dinheiro no mundo dos políticos, isso é verdade. Que a caixa 2 é prática comum e é mesmo difícil para um candidato, por melhor caráter que tenha, não cair nessa vala comum, é mais verdade ainda. Que, infelizmente, a maioria dos parlamentares é parlamentar porque tem o rabo preso com algum empresário, que recebe mesada e gordos auxílios para sua campanha e sua vida pós-campanha. Essa relação incestuosa é conhecida por praticamente todo mundo. Só não é falada pelos empresários e seus financiados quando estão em público e é preciso manter as aparências.

Enfim, todos, ou quase todos, sabe que a vida dos políticos e dos empresários que os bancam não é o que eles próprios dizem, muito menos o que a imprensa costuma dizer nos noticiários diários. As investigações da operação policial e jurídica chamada de “Lava Jato” são, nesse sentido, valiosas, pois expuseram a lama dos bastidores do poder. No entanto, determinadas delações parecem estar indo além do plausível e podem estar entrando no campo das fantasias ou, como alguém já disse, da acusação armada de acordo com interesses políticos e/ou econômicos (pois que uma coisa anda costumeiramente de mão dada com a outra).