quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O consenso dos solilóquios espelhados


O medíocre se orienta pela média, sendo esta produzida pela adesão
das
solidões à grande massa - esse grande consenso de solilóquios.

Assim, todos somos convidados a participar d
esse mundo especular.
N
ele muitos mergulham e se afogam, morrendo virtualmente em vida.

Pobres dos que lidam com a realidade, necessariamente complexa,
como algo simples e definido especularmente pelo umbigo do poder.

Deles é este paraíso infernal onde a individualidade é de massa e a
única obrigação a ser levada a sério é a de ser muito feliz, sempre
Participar de uma conversa sobre qualquer assunto é, nestes dias estranhos em que vivemos, impossível. O que poderia ser uma troca de ideias logo se torna um debate, de debate evolui para a discussão e o bate-boca é inevitável, com risco de rolar ainda uns empurrões, socos e pontapés. Conforme o caso, não descarte haver tiros ou facadas... 

A coisa começa difícil pelo começo. Para uns, algo ocorrido não sei quando foi bom, muito bom. Já para outros, o mesmo fato foi mau, péssimo. Isso é natural e corriqueiro, acontece todo dia de alguém gostar de alguma coisa e outrem desgostar da mesma coisa. E a simples ideia de alguém se colocar imaginaria e simpaticamente no lugar de outrem é empolgante, porque prenuncia o pensamento, que é fertilizado pelo contraste, não pela semelhança. No entanto, essa empolgação não costuma durar muito.

sábado, 28 de outubro de 2017

O moralista é o mais baixo dos seres rastejantes

Não, claro que não somos moralistas, pois todo o mal costuma estar longe de nós e tudo o que há de bom geralmente está nos nossos bolsos, não raro em cédulas. O moralismo, apesar de sempre distante de nós, é uma doença grave que tem sido esquecida pela Organização Mundial de Saúde em suas campanhas. Tome cuidado, até porque não há vacina contra isso

O moralismo parte claramente de um desejo de impor o seu ponto de vista a outros. O moralista constrói uma imagem ideal daquilo que seja moral, embora muitas vezes não o saiba e sequer imagina o que seja exatamente a moral. O menos moral de todos é o moralista, pois obnubila a compreensão com a imposição de um padrão incorruptível e absolutamente exato, como qualquer operação matemática deve ser. Essencialmente imoral, capaz de tudo para impor aquilo que chama de moral, mas que não passa de uma fantasia composta de seus desejos e medos, o moralista é o pior dos mortais, simplesmente porque engana a si próprio. E o que se pode esperar de alguém que não pode confiar nem em si?

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Acreditar na impessoalidade da lei é um dos passos para o despotismo


Não raro, os mais cruéis agressores acreditam piamente que estão
defendendo a normalidade definida pela obediência ao Império da Lei
Leis e regras são feitas por gente e essa mesma gente costuma se aproveitar dessas leis e regras para oprimir outras pessoas. No entanto, tudo indica que isso é feito com a alma leve, pois a crença no império da lei absolve todas as atrocidades

No último texto que trata do Império da Lei, concluí com a afirmação de que aqueles que creem nesse tal império correm o risco de cair no autoritarismo. Também, no mesmo escrito, citei John Hasnas como um pensador que tem uma compreensão interessante acerca de toda essa história imperial. Uma compreensão, em minha opinião, cética e bastante lúcida em relação a isso.

O império ideológico da lei

Ideologia é uma construção artificial que busca reproduzir tendenciosamente um quadro delimitado da realidade. Uma de suas características é a inversão do sentido das relações reais, que, na ideologia, são ideais e justificam o poder de uns sobre outros. A lógica presente na formalização da crença no tal império legal parece ser um bom exemplo de uma construção ideológica. Neste texto, assim como ocorreu em outros, tomamos como válida a argumentação do professor de direito John Hasnas, que leciona nos EUA

Venho pensando ultimamente sobre a questão da lei e de seu império. Em parte, isso se deve a uma declaração de um juiz sobre a sua esperança de que vivamos no “Império da Lei”. Quando li isso, tive uma sensação estranha, como se estivesse lendo algo falado ou escrito por um lunático, mas esse não é o caso, pois a declaração, conforme dito, foi dada por um juiz com inegável competência e dedicação ao seu ofício.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Quem sabe, sabe; mas quem não sabe é que sabe tudo


"O grande acontecimento do século [XX] foi a
ascensão espantosa e fulminante do idiota",
dizia Nelson Rodrigues, sem ainda conhecer as
proporções que a idiotia ascendente iria tomar
A realidade é complexa, geralmente são muitos fatores que a compõem. Mas há quem tenha a fórmula de tudo e consegue simplificar a realidade até que seja possível encaixá-la no seu espaço mental

Um sujeito me diz que é de responsabilidade de cada um controlar o que se come em relação ao que o corpo precisa. Muito bem, eu digo, é verdade. Mas, como a pessoa, o cada um, vai fazer isso? Com que instrumentos? Cabe a quem disponibilizar esses instrumentos ao “cada um”? Sim, porque, em tese, esse “cada um” é parte de uma coletividade, ou não? E essa coletividade não tem compromissos com cada um que a compõe? Se tem, quais esses compromissos? Entre eles não estão incluídos cuidados com a saúde, com a segurança alimentar?

Bem, se aceitamos que a coletividade tem compromissos com cada um, então a indústria “alimentícia” de junk food não é parte da comunidade, já que, em alguns casos, oferece comida de péssima qualidade e tenta, não raro, ocultar que seus produtos não servem para alimentar ninguém, muito pelo contrário.

Não foi só a indústria que viciou o Brasil em 'junk food'

Este texto é importante como uma ponderação ao exposto em matéria do New York Times (reproduzida neste blog e que rendeu outra matéria, também no blog), sobre o tema Alimentação, mais especificamente, Junk Food, ou seja, não-alimentação. A autora propõe a mudança do foco de compreensão, trazendo-o para o contexto no qual a indústria de Junk Food agiu e age


"O que aconteceria se a remuneração dos CEOs fosse calculada
em termos do impacto socioambiental de suas empresas ao
invés de em termos dos retornos financeiros obtidos?" 
Gisela Solymos | 18/10/2017 

Reportagem de capa do jornal americano "The New York Times" e reproduzida por esta Folha analisou o consumo crescente de alimentos ultraprocessados no Brasil e o impacto para a saúde da população e da economia nacional.

Trata-se de um artigo duro para com a indústria de alimentos, definida pela matéria como a grande causadora da epidemia de obesidade no Brasil. Não que ela não tenha sua parcela de culpa. Mas como uma das fundadoras do Cren (Centro de Recuperação e Educação Nutricional) –organização que aparece em destaque na referida reportagem como exemplo de serviço para tratamento nutricional– entendo que a indústria de alimentos não é a única responsável por esse mal que atinge mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo.

De fato, fico muito preocupada quando problemas tão complexos são descritos segundo parâmetros simplistas dos filmes de super-heróis onde as personagens são mocinhos ou bandidos!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Uma base imaginária para que não sucumbamos ao caos


Na bela obra "Sanctuary", de Rodney Matthews, a ponte para 
o santuário estaria sustentada apenas pela força da imaginação
Precisamos acreditar que estamos sobre uma ponte firme que liga nossos conceitos à realidade e que sob ela está o caos, que evitamos ao atravessá-la

A crença que temos nas leis é surpreendente. Cremos, quase ajoelhados ante uma divindade, que há um corpo de leis e regras que é absoluta e completamente objetivo e impessoal. Acreditamos que a Lei está ou fora ou acima da política, que ocupa um lugar que é como o olimpo, acima de todas as pessoas, reinando sobre tudo e todos, neutra, sublime, essencialmente boa e, se não bela, justa. Temos a firme crença de que há um Império da Lei no qual governam os justos, alheios até mesmo aos seus interesses mais pessoais. E, n’outro dia, li que um juiz concedeu uma entrevista dizendo exatamente isso e jurando que o tempo dos barões ladrões estaria no fim. É a crença dele e quem sabe por isso acabou exercendo a função de juiz. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

As novas ágoras e os que nelas debatem sem saber o que estão dizendo


Na antiga ágora, os cidadãos se reuniam em assembleia a fim de poder
discutir e deliberar ações para o destino da cidade: isso era a democracia
No passado, havia a ágora em Atenas e nela os cidadãos opinavam sobre tudo ou quase tudo, mas sabendo o que diziam. Já, hoje, todos opinam sobre tudo e muito pouco ou nada sabem acerca do que dizem

A democracia é uma proposta ateniense, do tempo em que as cidades (as polis) tinham poucos habitantes e estes podiam dominar boa parte do conhecimento acerca do que se passa pela polis. Imagine que a democracia surgiu há pouco mais de dois mil e quinhentos anos e, naquele tempo, não havia toda a profusão de saberes formulados que há hoje. Os assuntos eram tratados na assembleia geral democrática, que tinha lugar na ágora, uma grande praça cuja função era concentrar o máximo de cidadãos da cidade para debater e deliberar as questões relativas à comunidade. Todos os cidadãos eram convidados a participar, ou, mais que isso, intimados, pois era de cada um a responsabilidade pelo que acontecia no lugar.

Pense antes de falar a verdade que só você vê

A crença na Verdade com V maiúsculo traz segurança a muita gente, mas é motivo de conflitos graves e de carnificinas, como as promovidas por grupos centrados em umbigos religiosos e étnicos, e para evitar isso, a única estratégia é pensar antes de anunciar a grande verdade diante da qual todos ajoelharão

Gente que pensa diferente e que aborda os mesmos assuntos conseguem argumentos lógicos para suas conclusões opostas. Argumentos são fáceis de conseguir, afinal. Estão “à venda” em livros, códigos e nas conversas mais diversificadas. Você quer falar sobre algo, pode procurar o que outros falam e “chupar” uma réplica da essência do raciocínio e a capturar a sua forma, ou seja, a retórica envolvida. Em um mundo de aparências, quem melhor se veste é melhor visto.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O império parcial e subjetivo da lei

Regras e leis não nascem em árvores ou descem do firmamento com feitio de ditames divinos, são inventadas por pessoas e servem a pessoas, inevitavelmente

Uma das coisas mais aflitivas e angustiantes da vida é a instabilidade. Se você pensar bem, tudo na nossa vida tem uma instabilidade irritante, ou quase tudo. Somos feitos de carne, ossos e sangue e não somos robôs programados para fazer sempre o mesmo, o certo, o preciso, o adequado. Somos gente e gente perde o rumo, faz besteira, não pede desculpas, esquece de dar bom dia e tudo o mais. Além disso, também deixamos cair coisas, riscamos a camisa com a caneta, depois de adultos, e as paredes com giz de cera, quando crianças.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Assim é, se lhe parece e lhe for conveniente

Quando for encher a boca para falar uma verdade, pense bem antes de dizer besteiras. As verdades estão fora de moda e isso não é à toa, mas porque descobrimos, já algum tempo, que elas têm local e data de validade, dependendo mais do consenso e da retórica do que da ciência. Alguns se aproveitam disso para iludir os demais, tanto utilizando as imagens detalhadas do real que constroem pictoriamente, quanto criando fantasias, fatos e ideias para melhor colorir o desenho que apresentam como reprodução fiel daquilo que chamam malandramente de “Verdade”, com V maiúsculo. Então, abra o olho e fique bem esperto(a).

Algo aconteceu e você quer provar uma tese em relação a esse acontecimento, por algum motivo. O que faz? Estuda e analisa o fato, busca a legislação, lê filosofia, retórica e tudo o mais, conforme o caso. No fim das contas, você encontra um sólido argumento para comprovar sua tese. Ou seja, de certo modo, você encontrou a fórmula que explica um acontecimento e que, se tudo der certo, poderá evitar que coisas semelhantes aconteçam, ou mesmo a incentivar, conforme a situação e o desejo.

Ótimo, mas o que você precisa saber é que está construindo um sofisma, necessariamente. Ocorre que o mundo das ideias não é como o mundo real. Neste, há muitas vezes fatores em demasia influindo nas condições que propiciam um acontecimento ou, pior ainda, há fatores ocultos que têm influência inegável e, no entanto, estão fora do alcance de sua visão. Desse modo, o que você faz quando vai provar e comprovar uma tese é recortar alguns elementos da realidade e construir, com base neles e em ideias que vêm importadas de outras situações, um edifício de ideias que é necessariamente artificial e que não tem relação direta com a realidade, bem ao contrário do que você supõe quando chega à conclusão de sua análise e à formulação de seu argumento. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica alerta para novas estratégias de vendas de alimentos no Brasil

29 SET  2017 - Terra

O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Caetano Marchesini, fez um alerta nesta terça-feira (26), sobre a necessidade de políticas públicas sólidas para frear as estratégias de vendas da indústria alimentícia e que estão trazendo consequências irreversíveis para o avanço da obesidade no Brasil.

Na última semana (16), o Jornal americano New York Times publicou reportagem especial sobre a nova política de vendas das multinacionais do gênero alimentício para o Brasil e outros países em desenvolvimento. A oferta domiciliar de produtos processados como bebidas açucaradas, macarrões instantâneos, bolachas e outros, a baixo custo, para as regiões mais carentes do Brasil, está influenciando na mudança de hábitos alimentares tradicionais da população.

domingo, 1 de outubro de 2017

Sem rumo e com a perspectiva constante do naufrágio


Enquanto uns poucos curtem a vida e se bronzeiam no convés, a maioria
vive pesadelo no qual se tem que trabalhar para conduzir o barco a algum
lugar e tapar os furos que se multiplicam no casco, graças à sanha dos
financistas, que não hesitam em destruir para garantir boa lucratividade
Com base na lógica do sistema bancário, com o Sistema de Reservas Fracionárias como pano de fundo, estamos em um barco instável e sem direção, cujo naufrágio parece ser um risco constante, gerando ansiedade perene

Há coisas que é preciso saber. Uma delas é que possível que uma grande fraude seja o fundamento de toda a movimentação financeira em todo o mundo, ou na maior parte dele. Trata-se do Sistema de Reservas Fracionárias (SRF), isto é, o sistema utilizado pelo sistema bancário no mundo dito civilizado. Com o que vamos ver aqui, é possível que compreendamos que o mundo civilizado (aquele no qual, em tese, a lei e a ordem imperam para a preservação geral dos cidadãos, seu bem-estar e dignidade, tomando em conta seus deveres perante o bem comum) esteja fundado em bases pantanosas e, na prática, está se sustentando na burla da lei e no estabelecimento de uma ordem que privilegia 1% da humanidade.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Como as grandes empresas viciaram o Brasil em fast-food

Guto Kuerten | 25/09/2017 | Agencia RBS | The New York Times | Com as multinacionais investindo mais no mundo em desenvolvimento, passaram a transformar também a agricultura local, estimulando os agricultores a abandonar as culturas de subsistência 

Os gritos das crianças ecoavam no ar abafado da manhã enquanto uma mulher empurrava um carrinho branco ao longo das ruas esburacadas e cheias de lixo, fazendo entregas em um dos bairros mais pobres de Fortaleza (CE), cidade à beira-mar, deixando pudins, biscoitos e outras guloseimas com os clientes na sua rota de vendas. Celene da Silva, 29 anos, é uma entre milhares de vendedores de porta a porta da Nestlé, ajudando o maior conglomerado de comida pronta do mundo a se expandir ainda mais entre os pontos mais distantes deste país de mais de 200 milhões de habitantes.

Enquanto retirava as embalagens de Chandelle, Kit-Kat e Mucilon, dava para notar algo em comum entre seus clientes: muitos estavam visivelmente acima do peso, inclusive as crianças pequenas. Ela apontou para uma casa um pouco mais à frente e balança a cabeça, revelando que o dono dela, um obeso mórbido, morrera na semana anterior.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Praia: um lugar fora do lugar


Aos domingos, conseguir lugar em uma praia é algo desafiador no Rio
de Janeiro. Há casos em que os corpos quase ocupam o mesmo espaço
na beira do mar, principalmente quando o calor do sol é extremo no areal 
Pouca roupa e muita animação fazem da praia um local no qual há poucas possibilidades de diferenciar claramente as classes sociais, na maior parte dos casos; assim, o lugar da praia parece ser estar sempre fora do lugar, diferenciando-se das localizações concretas e fixas que marcam e pontuam a vida em sociedade e gerando outras, ilocalizáveis pelo padrão societário 

A praia, conforme sugerido na última postagem, “Um pouco doque sei sobre as praias do Rio”, é um território vazio, ou território do vazio (1), no qual as significações societárias são obnubiladas. Veja o quanto as classes sociais estão bastante misturadas na praia, pois a potencialidade de diferenciação entre elas é suave, graças à redução de elementos significativos para essa diferenciação. Na praia, são vestidas pequenas peças de roupa, basicamente para cobrir as partes chamadas de íntimas, quais sejam as sexuais.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Um pouco do que sei sobre as praias do Rio


Mate "do latão" e biscoito de polvilho "Globo":
produtos que marcaram a cultura da praia
A praia no Rio de Janeiro criou mais que hábitos: gerou atitudes e fundamentou uma cultura relacionada ao uso da praia que se estendeu para o asfalto, subiu morros e se alastrou para fora da cidade. Conheça, aqui, algumas informações básicas sobre a história do uso da praia no Rio de Janeiro

A cidade de Rio de Janeiro tem, aproximadamente, seis milhões de habitantes, creio que um pouco mais. Seu território é de 1.224,56 km2, sendo que 155 km são costeiros, com 78 km de praias, a maioria delas com boa balneabilidade. O carioca tem uma relação especial com a praia e muitos se definem com a referência do local aonde vão para os banhos de sol e mar. Assim, não é raro ouvir dizer: “diz-me em que praia vais e te direi quem és”.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Fatos e fotos históricas da Princesinha do Mar


A capela de Nossa Senhora de Copacabana, erguida no século XVIII
no local onde hoje se localiza o Forte de Copacabana, no Posto 6
Copacabana é uma pequena cidade, tem tudo, menos cemitério ou crematório. Logo, quem ali habita pode viver o tempo todo sem sair do bairro. Seguem, aqui, alguns fatos e algumas fotos que ilustram um pouco a história do bairro que há quem diga ser o mais famoso de todo o mundo

Já que estávamos falando tanto de Copacabana, o bairro no qual nasci e cresci, vamos falar mais um pouco. Li, já não sei onde, que Copacabana é um termo boliviano que significa “mirante do azul”. Aliás, não exatamente boliviano, mas inca. Não sei se é verdade e creio que pouca gente sabe e menos gente ainda se interessa em saber essas coisas, mas, com certeza mesmo se sabe que a Copacabana original é uma cidade boliviana que fica às margens do famoso Lago Titicaca. O nome do bairro carioca vem justamente daquela cidade, na qual dizem que, no passado não cristão, havia uma divindade chamada Kopakawana. E, se você já reparou, toda divindade existe para proteger e ajudar alguém e essa não fugia à sina, sendo a protetora da fertilidade, o que significa que zelava pelos casamentos.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Tudo está no seu lugar e é como deve ser


Uma das características do consumidor compulsivo é
aproveitar as oportunidades de compra nas quais se
obtenha nítidas vantagens, seja o produto necessário e
útil ou não: o negócio é levar vantagem em tudo, sem
medo da felicidade que não virá, mas está incluída no preço
Retomando o tema não memorialista, texto reflete sobre a realidade das sociedades urbanas, nas quais a razão está cada vez mais fora de moda e a emoção é incentivada de modo a produzir impotentes políticos que mais se assemelham a escravos, mas curtem a vida adoidado no bar, diante da TV ou onde quer que haja oportunidade para não pensar seriamente na vida

As três últimas postagens foram memorialistas, isto é, se fundaram em memórias. Lembranças e reflexões sobre Copacabana, o bairro carioca. Isso para mim é ótimo, pois, como ouvi muito durante a meninice, “recordar é viver”. Mas, o tempo não para e as coisas acontecem todos os dias, sem interrupção. Assim, é importante pensar em outras coisas que não o passado, mas também é importante pensar que o que passou é o nosso parâmetro fundamental para ajudar a entender o que está se passando.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Vivendo com 2000 vizinhos no 200


O "Duzentão", prédio no qual vivi mais de dez anos de minha vida
Na infância, vivi em um prédio residencial com mais de 50 apartamentos por andar, oito elevadores, escadas estreitíssimas e 2000 vizinhos, tudo isso em Copacabana, no "edifício chamado 200" da peça e do filme, que fica na Rua Barata Ribeiro, esquina com Praça Arcoverde

Quando o ambiente externo é bagunçado, fica um pouco mais difícil a gente se organizar. Foi o meu caso, no que diz respeito à (des)ordem social fora de casa, porque dentro de casa havia ordem. Uma das primeiras coisas que aprendi foi que é preciso ser ordenado e ordeiro para poder viver, para poder achar algo de que se precisa na hora em que se precisa etc. Sim, é chato, mas é muito útil. Isso eu devo aos meus pais, assim como tantas outras coisas grandes e pequenas.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Na porta do Alencastro, uma convivência que muito me valeu


O Alencastro, em foto encontrada na
internet, com extrema dificuldade
Há quem diga que tem um carinho especial pela escolinha na qual passou anos de infância e adolescência, mas, no meu caso, não há como ter esse apreço por um lugar no qual tudo era confronto e conflito, no qual aprender era um desafio contra o qual se impunham inúmeros obstáculos vindos de toda a parte 

No início era o verbo e ele estava conjugado contra mim. Tudo o que acontecia comigo era motivo de discórdia. Entre mim mesmo, saiba. Não era um debate ou uma briga com outros ou outras, embora me parecesse que todos e todas queriam brigar, quase sempre. Conforme disse no texto anterior, eu estava em Copacabana e tudo era uma zona, uma balbúrdia!, como enfatizava uma professora se referindo à minha sala de aula no meu colégio que ficava, claro, em Copacabana. O nome? Alencastro Guimarães, que, na década de 1970, ali pela meiuca, em 1975 ou 1976, nos parecia ser, efetivamente, uma zona, uma balbúrdia, com muita algazarra, que era outro termo da mesma professora.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Memórias de muito tempo atrás em Copacabana


Uma bela vista aérea do bairro de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro
Uma pitada de recordações não faz mal a ninguém e ajuda a explicar e a entender muita coisa que aconteceu conosco, mas não pense que é fácil recordar sem algum sofrimento: assim, com um tantinho de mágoas, falo agora de um pouquinho do que lembro de minha infância e adolescência em Copacabana, nos anos 1960/70, dizendo claramente que lá aprendi que o mundo é "agressivo e irritante, barulhento e decepcionante no que diz respeito ao respeito pelo próximo"

Desde que me conheço por gente, e isso já faz muito tempo, tenho interesse (até certo fascínio) em entender como sou, como “funciono”, que impulsos me governam, que termos me definem etc.. Durante algum tempo, na meninice, centrava quase que unicamente em mim esse interesse, buscando compreender o meu “funcionamento” e me integrar pessoal e socialmente, de forma que pudesse me sentir membro de alguma comunidade juvenil, que, curiosamente, costumava ser constituída por gente que não queria saber ou compreender nada além do imediatamente imposto, que, não raro, era aceito sem muitos questionamentos como “a” Realidade e/ou “a” Lei.

Joguei fora minha adolescência tentando me enquadrar na lei e na ordem dos tolos e medíocres. Andei com gente em relação à qual hoje me envergonho de ter travado qualquer tipo de relação. Em torno de mim, a escória diversificada dos filhos de uma classe média de moral puída, que não queriam mais do que se dar bem na vida e aproveitar tudo o que essa tal vida teria para oferecer a quem a desejasse. Um desses filhos se tornaria, décadas mais tarde, político importante no estado do Rio de Janeiro e, na sequência, acabaria na cadeia. Não que todos fôssemos iguais a esse sujeito, é óbvio, mas entendo que todos vivíamos sob a mesma égide escrota do tirar vantagem de tudo quanto se podia. Ele somente mostrou como é ir bem longe nessa viagem turva. 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Moralistas de todo o mundo, vão à merda

Trata-se de um mundo estranho. Na era da liberdade de expressão, na qual tudo é troca de informações e em que todos começamos a ter certeza de que a nossa cabeça se forma inequivocamente no processo de comunicação, cada vez mais se critica de forma feroz qualquer coisa que possa ser classificada de preconceituosa e que possa ser desmerecida e atacada por conta de ser supostamente preconceituosa. E se faz isso ferozmente, sem ouvidos para o outro lado (a não ser pelas formalidades éticas de registrar, nas últimas linhas ou nas últimas palavras, por obrigação do ofício, a versão dos[as] acusados[as]), apenas para constar, para inglês ver e para que os(as) acusados(as) não possam se queixar depois alegando que não foram ouvidos. 

Em outras palavras, o(a) combatente combate o preconceito(a) e se torna tão preconceituoso(a) quanto o preconceituoso(a). Ridículo, mas acontece. Em alguns casos, chega-se a atacar fisicamente o(a) suspeito(a) de ser preconceituoso(a). Logo, é útil saber que a tal liberdade de expressão pode ser uma arapuca perigosa. Você acredita nessa liberdade e pode sofrer sérias represálias por conta dessa ingenuidade. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Jovens de ontem e de hoje: mais semelhanças que diferenças

Mudaram os padrões subjetivos da juventude e embora muitos creiam que os jovens de ontem foram mais rebeldes, cabe pensar que aquela rebeldia foi mais simbólica do que real - no mais, todos foram ou são jovens e isso significa que têm mais identidades do que disparidades

Jovens sempre se caracterizaram por pelo menos duas qualidades: são vigorosos e impetuosos. No entanto, ao lado do vigor e do ímpeto, há outro aspecto que os caracteriza e que, porém, não é uma qualidade: a inexperiência. Nelson Rodrigues sabia disso e escreveu que todo jovem tem os mesmos defeitos de um adulto, mais um: a inexperiência. O fato de ser inexperiente faz com que a pessoa jovem cometa besteiras suficientes para caracterizá-la até mesmo como tola em boa parte de seus pensamentos e atos. A mim parece que a capacidade de fazer besteiras costuma exceder os limites quando falamos de gente jovem em qualquer tempo. Isso faz parte do show, com certeza. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Ele botou o seu bloco na rua

Sergio Sampaio foi um dos mais criativos compositores da música brasileira, porém, hoje, poucos sabem de sua existência e, pior, quase ninguém conhece sua admirável obra

Todos os dias é costume lá em casa ouvir música. Hoje, disse para minhas meninas que iria refazer o repertório do pen drive no qual estão as cento e muitas músicas que tocam diariamente e recebi ovações das duas, principalmente da minha amada esposa, que sentenciou: “Muda tudo, mas deixa o Sérgio Sampaio!”. Sábio pronunciamento.

Pouca gente conhece Sérgio Moraes Sampaio, ou simplesmente Sérgio Sampaio, que nasceu em 13 de abril de 1947 na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, a mesma cidade na qual nasceu aquele que é chamado de “Rei” e que todo mundo conhece: Roberto Carlos. No caso, o fato de todos conhecerem o tal “Rei” e quase ninguém saber quem foi o “maldito” Sergio Sampaio fala de uma característica essencial da cultura popular brasileira: o entretenimento é tudo e a arte não vale nada. Veja que enquanto o “Rei” me parece um representante do romantismo monocórdio e não demonstra qualidades musicais que justifiquem sua fama, Sampaio sempre trouxe consigo a marca da genialidade, assim como outros, também desconhecidos, como, por exemplo, Walter Franco. 

Se há perdão para bancos, então não há crise

Se o governo está perdoando os bancos, então como pode falar em sacrifícios para os trabalhadores para vencer uma tal de uma crise que só existe longe dos gabinetes? Somente interpretando o andamento das coisas como de autoria de autênticos psicopatas é que se pode talvez entender como funciona o jogo político que presenciamos no Brasil

A Central Única dos Trabalhadores, a CUT, informa em sua página na internet, em manchete: “Em três meses, governo perdoa quase R$ 30 bilhões dos bancos”. Sendo isso verdade, confirma-se a tese de que não há essa porra de crise merda nenhuma para o governo. Trata-se, simplesmente, do caso da pimenta no olho do outro ser refresco. Coisa de filhos(as) da puta mesmo.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Agressões à língua estão se tornando mais comuns e partem de onde menos se espera

Em reunião com autoridades, observei um sem número de agressões indisfarçadas à língua, verdadeiras atrocidades que podem denotar desprezo total e completo pelo bem-comum contido na correta expressão linguística

A língua é o instrumento fundamental de comunicação dos que a utilizam, sempre. Comunicar, em tese, é um ato que remete ao que é comum entre um grupo de pessoas, um fator de identidade e de organização mental dessas pessoas. A subjetividade, a racionalidade e a sociabilidade se fundamentam na comunicação e há certas regras de composição interna dos elementos da língua que existem para facilitá-la, evitando mensagens dúbias ou com duplicidade que perturba a entendimento comum de uma mensagem. O mau uso da língua cria o que chamamos “ruído”, o que significa dizer que o emissor de uma mensagem produziu, voluntária ou involuntariamente, algum elemento estranho à comunicação e que a perturba.

Usamos a língua para encontrar termos que nos definam e a língua fala em nós e por nós. Isso significa dizer que a língua é um instrumento para que formemos, de forma autoral, uma subjetividade, mas que também nos forma, subjetivamente, enquanto personagens de uma trama. Logo, podemos dizer que somos ativos e passivos diante da língua, que nos expõe um mostruário de termos à nossa disposição para dizermos o que sentimos e pensamos, mas que, ao fazer isso, também nos determina uma forma de fazê-lo, delimitando as possibilidades de expressão e as direcionando para determinado sentido.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Para Temer e amigos fiéis ao Deus Mercado, crise é sempre oportunidade


De Gaulle desfila no Rio de Janeiro, na década de 1960; teria
sido dele a frase que atribui ao Brasil a falta de seriedade, mas
foi de um embaixador brasileiro esse dito, que tem definido,
historicamente, a vocação brasileira de eleger políticos que
só tratam como realmente sérios os seus próprios interesses 
Para faturar sempre, sem intervalo ou descanso, a receita é o vale-tudo e Temer, com seu grupo, sabe muito bem disso; assim, compra quem for preciso e mostra o quanto a política está distante dos anseios da população, que considera o atual presidente uma desgraça para o país

Conta-se que Charles De Gaulle, presidente francês, teria dito, aí pela metade do século XX que o Brasil não seria um país sério. Não é verdade que foi ele quem disse isso, sendo mais precisamente atribuída a real autoria da frase ao diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil na França entre 1956 e 1964 e genro do presidente Artur Bernardes. Não importa, porque o que interessa é que a frase parece adequada e estes nossos dias vêm corroborar o dito.

Veja você que na semana passada o Congresso Nacional brasileiro votou, surpreendentemente, pelo arquivamento da denúncia do procurador geral da República contra o presidente da República Michel Temer. Isso impede que o Supremo Tribunal Federal o investigue e processe, mas apenas no caso da referida denúncia, fundada em denúncia dos empresários donos da empresa JBL, que apontava para a participação de Temer no cala-boca de Cunha, o homem que sabe demais.

domingo, 6 de agosto de 2017

Crise de quem, cara pálida?

Tem coisas que a gente fala, mas não pensa no que fala. O termo “crise” diz tudo e não diz nada, mas parece que, se resignificado no contexto da conjuntura contemporânea, pode nos fazer entender o mecanismo do sistema

Crise? Que crise? Há décadas ouço essa palavra constantemente. Ouço e leio, aqui e ali, de forma notável na mídia, a grande imprensa basicamente. É incrível, aliás, como a grande mídia, a imprensa bem capitalizada e que está em todo canto, servindo objetivamente a poucos, está em nossa vida. A própria “crise” sendo usada indiscriminadamente, por todos, para explicar praticamente quase tudo, tem origem midiática. Foram os telejornais, com seus comentaristas econômicos etc. que tiraram da cartola esse conceito amplo e impreciso de “crise”.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Com boa educação e gentileza tudo fica melhor

Há coisas que são fundamentais na vida e uma delas é saber proporcionar às outras pessoas bons momentos baseados simplesmente no bom tratamento, mas... sem fingimentos!

Para que serve a boa educação? É, você há de convir, uma boa pergunta. Principalmente porque você com certeza já passou por alguma situação na qual a educação de seu interlocutor era meramente formal. Outras vezes, certamente, você foi bem tratado por alguém que realmente parecia se importar com o seu bem-estar. É algo totalmente diferente.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Jamais tantos foram dominados e controlados por tão poucos


O capitalismo financeiro é essencialmente improdutivo e gera necessariamente tristeza, insatisfação, desordem, doenças e mortes; mas o pior é saber que tudo isso não acontece por acidente e que pouca gente está feliz com a infelicidade da maioria

Fala-se hoje em Capitalismo Improdutivo. Ora, isso é o capitalismo financeiro, que não produz nada de útil, ou quase nada, para nós, humanos. É o capitalismo das ideias e finanças puras. Ideias puras como o liberalismo e o socialismo, proposições etéreas que jamais serão possíveis em nosso mundo real (vide textos "Belas ideias nem sempre trazem boas intenções" e "Liberalismo ♥ Socialismo: um caso secreto?"), mas que servem bem para distrair os incautos que defendem que o mundo real deve deixar de existir para dar lugar a uma fantasia de mundo ideal. 

As finanças puras são resultado das ideias puras. De tanto você viver em uma realidade irreal, mas logicamente bem elaborada, você passa a acreditar em coisas abstratas, admitir que ideias puras e ordenadas são bem-vindas em um mundo impuro e desordenado. No meio do caos, ou sob a ameaça dele, tudo o que puder ser idealizado traz um alívio ilusório, mas reconfortante e imediato. O dinheiro, graças à sua característica de quantificação perene e obsessiva, é bom, ótimo, para tranquilizar quem vive em constante desassossego. Daí que o dinheiro passa a governar, ou, mais precisamente, as finanças passam a governar. Finanças são valores puros, o dinheiro puro, sem produtividade material, sem cédulas ou moedas, etéreo e por isso onipotente e onipresente, gigantesco e assustador como se tivesse origem diretamente em Deus.

Veja, abaixo, um exemplo do que digo.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Quanto maior a crise econômica, mais lucram os bancos. Por que será?


A monstruosidade do sistema bancário ilustrada em cartum
A equação Recessão = Lucratividade Astronômica é a base dos negócios bancários desde sempre e a sociedade paga a conta enquanto economistas tentam esconder que quem ganha no capitalismo financeiro ganha mais nas crises econômicas

A associação entre lucro dos bancos e crise econômica é direta. Agora mesmo, o Itaú Unibanco vem superando todas as expectativas com um lucro de quase R$ 6,2 bilhões no segundo trimestre deste ano. Vive-se, no país, o que o próprio presidente chamou de “maior recessão de todos os tempos”, com certo exagero, é claro. Mas, inequivocamente, trata-se de uma séria retração econômica que mostra bem sua realidade perceptível nas ruas das cidades. Comércio fechando, pessoas dormindo sob as marquises e gente com cara de quem está devendo mais do que pode pagar. No entanto, como já é costumeiro, os bancos lucram bastante, parecendo mesmo que é nesses momentos de desgraça para muitos que obtêm maior sucesso.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Dona Juventina do cortiço e os fofoqueiros das redes sociais

Heródoto Barbeiro | 18 de julho de 2017 | O texto compara os fofoqueiros das redes sociais com uma certa dona que cuida da vida das pessoas no cortiço onde mora

Compadre falar mal da comadre é tão antigo como a Sé de Braga. Ninguém passava incólume pela janela do velho casarão da antiga Travessa do Hospício, na baixada do Parque Dom Pedro, no centro velho de São Paulo. Dona Juventina – velha e maquiada, batom carmim, miçangas douradas nos punhos e no pescoço – não saia do seu posto. Sabia tudo o que acontecia nas velhas casas da rua e também do antigo cortiço habitado sobre tudo por negros em frente à sua decadente e descorada casa. Ela sabia tudo de todos e divulgava amplamente. Era dessa forma que as malícias, brigas, pequenos furtos, e análise do caráter de um e outro eram divulgados no meio da comunidade.

As notas escolares, bilhetes de admoestação, reprovação na escola, namoricos entre estudantes eram espalhados com eficiência para velha senhora. Os escândalos maiores como traições ganhavam grande destaque e não se passava pela janela da Juventina sem que ela contasse o caso e fizesse perguntas para aperfeiçoar suas histórias. Ninguém duvidava se tudo aquilo era verdade ou não. A priori era verdade uma vez que a fonte era a velha feiticeira que viveu até a década de 1970. Parecia uma internet sem streaming.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Três temas de reflexão nesta manhã fria

Andando, se pensa e o que se pensa não deve sempre ficar escondido; como cantava Sergio Sampaio, “Aonde o pé vai, arrasta o salto, lugar de samba-enredo é no asfalto”

Caminhando, penso. Hoje, pensei três coisas: a arte em você, ao invés de você na arte, a virilidade como um componente fundamental na minha vida subjetiva e, é claro, nas minhas ações, e a necessidade de termos um plano de vida, assim como um avião precisa de um plano de voo.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Um dia a conta chega

Não se iluda com o que os materialistas dizem, pois se pode ser verdade que aqui pagamos o que aqui fizemos, há, ainda, a vida imaterial do espírito, na qual ele terá que se haver com coisas cometidas durante a vida terrena

Léon Denis foi um sujeito que estudou e seguiu a doutrina de Allan Kardec. Viveu entre 1846 e 1927 e tem como grande virtude seu interesse em refletir sobre as ações humanas sob o ponto de vista do espírito. Foi maçom e ficou conhecido como o consolidador da doutrina espírita.

Em primeiro lugar, Denis deixa claro que o corpo é algo como um caixão no qual o espírito está confinado durante a sua vida terrena. Ao nascer, o espírito é encarcerado e, no processo, perde quase que completamente a memória, pois há uma mudança radical na sua condição com esse aprisionamento. Chega a dizer que o choro do recém-nascido tem o significado de algo como um grito de desespero.

Segundo ele, o inferno não é nada como a Igreja o pinta e esta nossa vida terrena seria algo próximo do que se costuma chamar de purgatório. Durante a nossa vida terrena, temos a oportunidade de nos purificar para pagar antigas dívidas de outras vidas, geradas por atos maus, que genericamente podem ser definidos como aqueles nos quais abandonamos a lógica do espírito para adotar ferrenhamente a lógica terrena, carnal.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Liberalismo ♥ Socialismo: um caso secreto?


Parece haver uma unidade secreta
que une esses aparentes opostos
Se você, como eu, se cansa de assistir ao diálogo de surdos que envolve liberais e socialistas, saiba que estamos sendo enganados, pois tudo indica que há uma semelhança fundamental que une uns aos outros em um namoro não assumido

Costumamos tratar o socialismo como utópico e, da mesma forma, creio que devemos fazer o mesmo com o liberalismo. E quando falo do socialismo utópico proponho que consideremos também a doutrina marxista dessa forma, quando considerarmos as suas proposições (1). Sendo verdadeiro que Marx elaborou um interessante sistema de análise, parece mais verídico ainda que suas proposições foram absoluta e completamente idealistas, sem muito vínculo com a realidade, e que acabaram desmentidas por ela. Basta lembrar que a previsão era a de que o Socialismo se estabeleceria em um país capitalista avançado, no caso a Inglaterra, por conta das contradições inerentes a esse sistema que, no fim das contas, o destruiriam. Deu zebra e a coisa aconteceu em um país nada industrializado, com um capitalismo quase inexistente ou mesmo inexistente, como a Rússia.

Entendo que, de certo modo, o socialismo real está para o socialismo marxista, ideal, como o neoliberalismo está para o liberalismo, tão ou mais ideal. Em ambos os casos, falamos de autênticas corrupções do modelo original, que parece inaplicável, tanto em um caso como no outro.

Belas ideias nem sempre trazem boas intenções

O problema das doutrinas idealistas como o Liberalismo é que suas belas ideias não raro trazem ocultas más intenções formalizadas em péssimas práticas econômicas e políticas

Entendi que o liberal é alguém com excelentes ideias. Propõe o que avalia como o rumo adequado para a condução da estrutura econômica da sociedade, algo como o norte a ser trilhado em uma caminhada. A doutrina do Liberalismo seria a bússola, então, que deveria orientar nosso pensamento e nossas ações, apenas isso. Jamais se alcançará, neste mundo terreno e real, o liberalismo e ao estudar a doutrina nascida no século XVII, por obra e graça de uma série de boas iniciativas do pensamento humano, bem se percebe isso. Com base nessa premissa, há quem diga que todo liberal deveria se apresentar como um utópico nato e hereditário.

As ideias liberais parecem conter o feitio idealista de uma belíssima postura diante da realidade econômica e social. Ideias empolgantes, principalmente se localizadas no tempo em que foram formuladas, que era aquele da revolta contra privilégios pétreos e espúrios e o do otimismo irrefreável na força da razão. Lembremos John Locke, que parece ser o ideólogo basilar do liberalismo e dizia, para quem quisesse lhe ouvir: “Cada homem tem um direito natural à vida, liberdade e propriedade e nenhum governo deve violar esse direito”. Trata-se de um princípio admirável, decerto. Humanismo puro, ataque à lógica imbecil que considerava existir algumas pessoas que podiam se postular mais merecedoras de benesses do que outras.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Quem cresce o tempo todo é o câncer


A mentalidade do crescimento econômico necessário e imperativo
parece ter inspiração clara e inequívoca: as células cancerígenas 
A lógica do discurso empresarial, com seus conceitos vazios de sentido e sua incitação ao crescimento desmedido, me parece doentia e se assemelha à do câncer, que tem a característica de não ter medidas para o seu crescimento, matando o organismo que o hospeda

“É preciso crescer – não importa o contexto”, diz um artigo publicado em um jornal eletrônico. Essa é a mentalidade clássica do capitalismo: crescer, crescer e crescer, sempre, permanentemente, de forma indelével e constante. Não se pode parar. Parar é estagnar, parar é proibido e não crescer corresponde à morte em um sistema competitivo e altamente especializado, como dizem ser o capitalismo contemporâneo. É como se você precisasse estar sempre tomando fermento e aprendendo coisas novas. Precisa não apenas crescer, mas desenvolver novas habilidades, novas expertises, conforme o termo criado para designar as especialidades.

Crescimento sem limites gera problemas. Problemas ecológicos, principalmente. Mas, não apenas: problemas relacionados à saúde (ou falta de) mental. No meio ambiente, a destruição causada pela mentalidade do “É preciso crescer – não importa o contexto” é flagrante. No plano psíquico, a depressão assume o posto de mal maior na sociedade contemporânea e pode ser dito como diretamente determinado por um contexto de metas inatingíveis que somente se justificam, se é que se justificam, pela exigência de crescer, crescer e crescer em qualquer contexto, custe o que custar. Como bem disse Maria Rita Kehl, a depressão é o típico sintoma de que o barco está fazendo água, ou seja, que a pessoa não consegue sustentar o ritmo esperado para crescer sempre.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

E tem troco para o café


De um lado, o malandro, estilo Zé Pilintra...
Pequenas demonstrações de independência podem significar mensagens acerca de sentidos relacionados a um bom combate, mas há quem considere tudo isso a pura e nefasta malandragem, um ataque ao progresso e à ordem

Você entra no ônibus junto com sua filha e pergunta ao motorista quanto é. Ele responde: R$ 16. Como estava escrito na frente do ônibus que a passagem custa R$ 16, você se pergunta por que perguntou se já sabia e não deu logo toda a quantia, R$ 32.

Mas, repentinamente, tudo fica claro. Ao perguntar estupidamente se a viagem custaria R$ 32, pois parecia óbvio que custaria exatamente isso, o motorista responde que não, que só custaria R$ 16, já que minha filha não pagaria. Dou-lhe R$ 20 e espero o troco.

Ao me ver ali parado, com cara de quem espera o troco, o motorista pergunta: “Não pode deixar pro café?”. Respondo que sim, que pode ficar para o café, e entro no ônibus.

Solidariedade
Reflito sobre o poder do motorista, do homem comum, sobre as máquinas empresariais, corporativas; máquinas de guerra, claramente, nos moldes das máquinas de guerra tratadas por Deleuze. Ele, o motorista, me ajuda, eu o ajudo e assim ficamos nos sentido mais fortes contra a porra do mundo cruel que essas máquinas vão produzindo em série industrial.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Até quando seremos tratados como otários por aqueles que elegemos?

Brasil vive momento de anomia com políticos de alto escalão sendo desmascarados como corruptos, mas somente alguns são condenados

“Viver no Brasil é ser constantemente roubado por quem tem mais do que você”, define uma conhecida minha. Como negar? Veja que o presidente da República, o vice de uma presidente que foi afastada sabe-se lá o porquê, mas que mostrou inequívoca incompetência para governar o país e traiu seus eleitores logo após eleita, é acusado de tentativa de obstrução da justiça, com gravações em que incentiva um empresário a “calar a boca” de um ex-deputado preso por corrupção. Para que ele seja processado, porém, é necessária a aprovação do Congresso Nacional. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Como startar o processo sinérgico de resiliência schedular

Workaholics do mundo, uni-vos, pois, com o novo capitalismo e seus termos que falam tudo e não dizem nada, somente se salvam os que andam com a bunda virada para a parede

Uma das particularidades dos escravos contemporâneos é a de não ter hora para começar ou terminar de trabalhar. Antigamente, havia um horário e relógios dedicados exclusivamente a regular a entrada e a saída do trabalho. Mas, era um procedimento retrógrado esse de delimitar horários de dedicação ao trabalho. Logo se descobriu que isso não motivava ninguém, não oferecia oportunidades de aprendizagem, não propiciava o desenvolvimento de expertises e não promovia o crescimento pessoal e profissional, muito menos ensejava o team building.