segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Liberalismo é uma coisa, neoliberalismo é outra coisa

No último fim de semana, li alguns textos, como usualmente. Em dois deles, li, mais uma vez, que a doutrina liberal nada têm a ver com a neoliberal, ou, mais precisamente, pouco tem a ver, sendo esta última uma estratégia politica golpista recentemente posta em prática (da metade do século passado para cá) por um grupo. A doutrina liberal embasa a neoliberal apenas esquematicamente, como inspiração estrutural, pois a neoliberal recorre ao discurso liberal do laissez-faire para justificar o butim que promove desde que foi implantada experimentalmente no Chile e, posteriormente, na Inglaterra, em 1979, quando a Dama de Ferro Tatcher comandava, e nos EUA, um ano depois, com a posse do presidente ator de Hollywood Reagan.

Tudo indica que o neoliberalismo é uma malandragem perversa que não tem base na doutrina liberal, salvo pelo aproveitamento discursivo. Veja que os neoliberais são radicalmente contra qualquer iniciativa governamental para regular a economia, mas alguns liberais, inclusive o máster Friedman, já propuseram uma renda mínima para os que recebessem rendimentos menores do que o necessário para viver decentemente, valor que seria estipulado pelo governo. E, ainda no nascedouro do liberalismo, houve quem afirmasse, peremptoriamente, que, para garantir o solo no qual brotariam os bons resultados propostos pelo liberalismo econômico, seria necessário haver uma regulação estatal. Essas são ideias inteligentes que, como tal, jamais seriam aceitas pelos neoliberais.

Conversa mole - Mas, veja que os neoliberais não são burros, embora sejam rígidos no que pensam, o que costuma ser um claro e incisivo sinal de burrice. No caso, porém, a burrice é deliberada, ou seja, encenada, de modo a esquecer e fazer esquecer dados básicos que apontam para a dura realidade de desigualdades e desgoverno, sugerindo que vivamos em um mundo ideal e irreal no qual todos somos iguais perante a lei, as oportunidades são iguais para todos e a mão invisível governa garantindo equanimidade e distribuição de riquezas. Por incrível que pareça, essa conversa mole consegue convencer muita gente e, claramente, entre essa gente que é convencida, há muitos burros, mas também há os aproveitadores, os malandros de plantão que ficam somente esperando aprender uma boa nova conversa para enganar trouxas.

Idealismo - Um defeito da teoria liberal possibilita tudo isso, chegando mesmo a incentivar essas bandalheiras econômicas neoliberais: o idealismo. A doutrina liberal foi feita para funcionar muito bem em um mundo ideal, não em nosso mundo real. A mão invisível somente pode agir em condições perfeitas, fora das quais perde o rumo e torce os dedos. Alguns economistas entenderam isso e propuseram “emendas” à teoria, conforme citado anteriormente, dois parágrafos antes. Isso é normal e mesmo muito sadio, pode ter certeza. Afinal, uma teoria sempre tem um caráter de pureza que inequivocamente atrapalha a sua interpretação da realidade e pessoas não puras, comprometidas com a “mundanidade”, precisam tentar corrigir os defeitos, aparando arestas e suprimindo fantasias grotescas.

Improdutivos - Outros economistas perceberam isso e sequer pensaram em propor a correção dos maus rumos ditados pelo idealismo liberal, pelo contrário: resolveram que era finalmente chegado o tempo de institucionalizar um assalto ao Estado e aos que sustentam o Estado, a população produtiva em geral. Em minha percepção, esses são os chamados “neoliberais”, uma malta que se especializou na mentira, no achaque e na tentativa constante de mamar nas tetas do Estado que dizem combater e sugar o sangue da população produtiva, eles que não produzem nada além de pensamentos falsos. Não é à toa que ninguém gosta de ser chamado “neoliberal”, muito menos assume uma filiação a essa efígie. 

Anticapitalista - Para o neoliberal o Estado deve ser mínimo, não se meter em praticamente nenhum assunto, a não ser o policial, e ser um ferrenho defensor dos mais ricos e, em especial, dos banqueiros e demais especuladores, quando estes fazem estripulias e vão à falência (como aconteceu em 2008 nos EUA) e precisam, assim, do dinheiro estatal para “não quebrar o sistema”. Isso porque o neoliberal não é capitalista, diga-se, pode mesmo ser chamado de anticapitalista, ao contrário do que muitos pensam. O capitalismo exige riscos e o neoliberal não gosta de correr riscos. Por isso, quando necessário, o malandro pede ajuda ao Estado, ao mesmo Estado que o salafrário diz ser desnecessário quando não precisa dele. 

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