sábado, 12 de novembro de 2016

Um grande delírio no qual tudo é racional, menos ele mesmo, o delírio

Alguém já disse que o dinheiro é essencialmente alienador, o que significa dizer que afasta quem o tem e usa da realidade, o torna algo ou alguém pior, pois com o dinheiro, possuindo-o, não se precisa aprender a fazer nada, ou, pelo menos, não é necessário saber fazer o que se compra, salvo casos específicos. Significa que, com o dinheiro, não se faz, se compra feito. Trata-se de uma relação próxima, senão identificada, com o parasitismo. Quem disse foi Karl Marx, um crítico aberto e feroz do dinheiro, ao menos aparentemente.

Mas, não levemos isso ao extremo. Afinal, tudo funciona em torno do dinheiro. E Marx não gostava mesmo do dinheiro, só que o mundo sem dinheiro que inventou é lastimável, ou, se mostrou ser, especificamente nas experiências políticas que trouxeram seu nome como bandeira. Mesmo que se considerem pontos positivos, como a experiência cubana na assistência à saúde, não dá para comprar o pacote inteiro. Até porque no mundo do dinheiro há, em alguns países, assistência à saúde tão boa quanto a cubana e abrangendo toda a população, como a cubana. Até que um tecnopolítico neoliberal assuma o poder e a destrua, é claro. 

Mais para os menos úteis
Outros dizem que quem mais oferece benefícios a um maior número de pessoas é exatamente quem ganha menos dinheiro. E, em contrapartida, existiriam uma série infindável de profissões ou funções que são mais bem remuneradas, muito mais, e não trazem, na prática, nenhum ou quase nenhum benefício a ninguém, ou, se trazem, a muito poucos. Em alguns casos, até trazem grandes malefícios.

Quem disse isso foi um antropólogo inglês, David Graeber. Ele chega mesmo a classificar esses empregos como “de merda” (bullshit jobs) e inclui no rol toda a profusão de assistentes disso e daquilo, gerentes diversos, auxiliares de coisa nenhuma, os inúmeros burocratas e o pessoal dos seminários motivacionais, além de outras profissões ligadas à pajelança da cultura organizacional.

Qual a contribuição humana dada por um gerente de uma instituição financeira, um banco, por exemplo? Sim, claro que pode ser uma excelente pessoa e coisa e tal, com absoluta certeza, e claro que em um ou outro caso até pode ser útil para alguém, algum cliente, mas, no geral, não se pode dizer que preste algum grande benefício coletivo no que diz respeito ao seu “job”. E, quando presta, isso custa juros e correção monetária.

Tudo como deve ser
Mas, assim funciona a vida na realidade de uma sociedade moderna – ou pós-moderna, há quem jure. Como tudo é muito contraditório e chega a parecer irreal, há muitos casos em que a confusão gera angústias crônicas ou mesmo depressões, além do uso constante das mais diversas drogas, incluindo alguns rituais, álcool e substâncias não legalizadas. Males que devem ser corrigidos pelas pessoas certas nos empregos certos, para que tudo siga como deve ser.

Bem disse Gilles Deleuze, quando classificou o capitalismo como um delírio no qual tudo faz sentido e é racional, menos ele mesmo. 

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