quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Sexo, drogas, rock’n’roll e o joão-bobo contemporâneo

Quando criancinhas, acreditávamos em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa, depois crescemos e passamos a crer que a juventude pode mudar o mundo

A tríade maldita (sex, drugs & rock'n'roll) não passa de um slogan de um bom produto. Se observado pelo ângulo macropolítico da contemporaneidade, isto é, sob o vértice da realidade política que observamos em nossos tempos, o movimento jovem dos anos 1960/70 não passou de uma manifestação bem comportada de protesto contra uma conjuntura que era amplamente desfavorável para a implantação de um capitalismo como o que conhecemos hoje: financeirizado, escravizador do espírito, sufocante e cruel, mas muito atraente e sedutor.

Trata-se de um caso em que o mestre manda todo mundo mostrar os dentes e todos obedecem prontamente, provocando toda a desordem que só a gente ordeira sabe causar.

Liberação invertida - Um dos elementos mais importantes no processo foi a liberação sexual, é claro. Antes a coisa funcionava muito emperrada, até que se liberava sexualmente. Depois da tal contracultura jovem, a coisa inverteu e tudo funciona liberado e depois emperra, porque não um não tem nada a dizer ao depois do sexo. Em boa parte dos casos, o que há é uma masturbação em dupla.

Em outros termos, até um ponto na história, as pessoas eram reprimidas sexualmente e, quando podiam, quando tinham a oportunidade, caiam na esbórnia. Era a manifestação crua do imperativo categórico formulado pelo filósofo alemão Immanuel Kant: se você deve, você pode.

Depois de toda a movimentação roqueira, a galera pode tudo e inverteu o imperativo para: se você pode, você deve. Aí, o que acontece é que se todo mundo pode trepar com todo mundo, então deve trepar, tem que trepar. É uma solução boa para o corpo, em tese, mas nem tanto para a alma, com certeza. E, para o corpo, também há problemas, como doenças e pequenas contusões, é claro, por isso, se passou a usar indiscriminadamente, o invólucro da camisinha, que era de Vênus, mas ganhou intimidade com todo mundo e hoje só é chamada pelo primeiro nome.

E o que motivou tudo isso? Muitas coisas, como se sabe, desde a existência de um vácuo funcional, moral e ético no qual os chamados adolescentes eram lançados pela sociedade de base europeia (nem crianças, nem adultos, improdutivos, cheios de tesão e livres para fazer o que bem entendessem), até a criação da pílula anticoncepcional. E a pílula não foi criada por conta da necessidade de liberação. A relação é diametralmente oposta: a necessidade de liberação foi criada pós-pílula. Trata-se do típico caso em que algo é inventado e se encaixa tão bem nas conversas e nos atos comuns que parece sempre ter estado ali, eternamente, desde o ato de criação.

Escravidão consentida - No caso do sexo, é claro que a cópula existe antes mesmo de todo ser humano, pois ele vem desse ato, até que se prove o contrário. Mas, a liberação sexual, ou a imperativa necessidade de se viver pensando em sexo, de incluir referências sexuais em quase toda fala, de erotizar os mínimos gestos, isso é recente, mais recente do que a pílula anticoncepcional, tendo sido o modelo da sociedade disciplinar o primeiro a levantar o sexo a primeiro plano das preocupações humanas, o que pavimentou a estrada para que o biopoder (manifesto no molde da sociedade de controle) fosse bem mais além.

Em outros termos, o “sexo livre” nasceu nos anos 1960 para ser controlado e, com o auxílio das drogas e do rock’n’roll, isso se tornou bem mais fácil. Abriu-se um canal de comunicação com a alma através da música e da sensibilização dos contatos corporais. Assim, na prática, o sexo controlado é, na verdade, instrumento de controle. Na cultura liberada, o espírito é brutalizado pela falta de imaginação pornográfica (há um padrão que não costuma se alterar), pela apropriação consumista dos corpos, pelo entorpecimento genérico provocado por diversas substâncias e por uma música extremamente barulhenta e eletrizante, sendo que, como no caso da cultura roqueira, a estupidez é romantizada, com as inacreditavelmente tolas devoções a semidivinas figuras de carne e osso que vivem para propor modelos inconformistas conformados a um padrão. 

Formam-se, assim, figuras robotizadas, alienadas acerca do que ocorre consigo mesmas e impotentes politicamente. Proliferam-se as máscaras pós-modernas e os mascarados dançam em um salão imaginário no qual a falta de imaginação é crônica. 

Assim, tudo é divino e maravilhoso em um plano; tedioso e tosco em outro. Como nenhum plano se comunica no caleidoscópio da identidade contemporânea, resta a escravidão inconsciente, mas consentida, de um joão-bobo oscilante entre dois polos inatingíveis. 

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