quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Para especular vale tudo, porque tudo é especular

Gosto de locais onde há comércio. Geralmente são movimentados, efusivos, até mesmo alegres, sempre um tanto tensos. Transmitem vida, agitação, um pulsar marcante de coisas se movimentando, trocando de mãos. Há desejos, devaneios, sonhos e cobiça, tudo ali circulando, entre olhos e ouvidos atentos.

O rebuliço do comércio é o mundo dos objetos, que mudam de mãos e funcionam como mediadores fundamentais na relação entre o mundo privado e o público, assim como servem de mediação entre o indivíduo e seu círculo social e, no indivíduo, entre o seu mundo interno, constituído por seu imaginário, e o mundo simbólico que o funda ao lhe dar forma.

Os objetos, ao contrário do muitos pensam, formulam os sujeitos, que caem presas da fantasia de que estão num nível superior e conhecem os objetos, projetando-os e consumindo-os. No mundo do consumo, o nosso mundo, a primazia dos objetos é tão flagrante que pessoas, com suas amplitudes de horizontes, se reduzem a meros repassadores de informações e viventes em uma ficção descontrolada na sua ânsia de controle total e absoluto. Tornam-se aquilo que imaginam ser os objetos, na mesma medida em que impõem uma imaginária posse aos objetos que julgam possuir.

Problema e solução - Julio Cortázar, em célebre conto, desvenda a farsa ao contar que quando alguém lhe presenteia com um objeto, torna você, imediatamente, escravo do objeto. Como no caso do relógio, que lhe impõe o hábito, muitas vezes a necessidade, de olhar as horas e permanecer conectado no tempo pela mediação do relógio, de checar a hora certa e, principalmente, de dar corda no relógio, pois que naquele tempo se fazia isso e se não se fizesse o relógio parava e não era mais um relógio.

É “um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar”, diz o contista. E todo objeto acaba sendo isso, ou próximo disso, quanto maior for sua importância para você. O problema, assim, não pode ser o objeto, mas você que precisa dele para reafirmar sua identidade nos mínimos detalhes, sua potência nas habilidades manuais e seu orgulho por ser sujeito e possuir, quem sabe projetar, objetos. O objeto é a solução, é ele que lhe diz como fazer algo, como no caso do gadget clássico, ou diz quem é você, principalmente se falamos do kitsch.

Tudo no espelho - Ele é tudo, “o” objeto, representado por cada objeto que nos circunda. Ao contrário do que Platão compreendia, não são as ideias que produzem as coisas, pois é destas que provêm as ideias. E as coisas passaram a ser objetos, com o passar do tempo, e se tornaram praticamente apenas objetos, na sociedade burguesa, a do comércio incessante. Curiosamente, é nessa sociedade que os sujeitos mais se acham poderosos e únicos, se movimentando estaticamente numa ilusão frenética que se caracteriza por ser programada e repetitiva quando se anuncia exatamente como o seu oposto.

Nesse carrossel, real é só mesmo o que está no espelho. E se tudo é especular, nada parece sê-lo, daí o título.

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