sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Produção em risco de extinção

Há, no mundo da economia, pelo menos dois tipos de gente:

   - Os financistas, defensores do capital financeiro, isto é, a mais injusta forma de acumulação já criada pela humanidade, a que retira recursos da produção, que mal ou bem remunera trabalhadores, para garantir ganhos a especuladores que não fazem nada da vida e não pagam praticamente nada do que ganham. São altamente concentradores, é claro.

   - Os socialistas, que defendem a distribuição de riquezas, o que os torna simpáticos a todo aquele que sonhe com justiça social, porém são também eles que, depois de eleitos em alguns países latino-americanos, mostraram ser tão pernósticos quanto os financistas e não distribuíram riquezas a não ser na falácia das bolsas, um programa tão socialista quanto a bolsa de valores de New York, presente em inúmeros outros países e que representa apenas uma forma de incluir quem não já estava incluído na escravidão econômico-financeira. Algo como pular do fogo para a frigideira.

Os tipos citados são clássicos e constituem os parâmetros que balizam as conversas econômicas em bares e botequins. Ou você está do lado das finanças ou do trabalhador, se costuma dizer. Só que, aparentemente, nenhum dos dois tipos está do lado do trabalhador, a não ser para tungá-lo com mais facilidade. Quem sabe, a diferença entre um tipo e outro seja que os financistas são bem mais sinceros em relação ao mal que pretendem fazer do que os socialistas.


Há outro tipo de gente nesse campo que merece menção. É o pessoal que aposta na produção, que não acredita no conto de fadas contado pelos socialistas e despreza o ganho fácil dos financistas (que também são chamados neoliberais, mas não têm tanto assim de liberais, sendo mais facilmente classificáveis como os “novos espertos”). Pense que produzir é seguir em frente, crescer, ganhar independência, celebrar a vida no suor do rosto de quem produz. 

Se encontrar um raro e sofrido espécimen de um produtor, saiba que ele está em sério risco de extinção, pois em um mundo de parasitas, financistas ou socialistas, todo aquele que produz corre sérios riscos de extermínio. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Encruzilhada ética e moral

Autoridade no Brasil é coronelismo, dizem alguns. Respeito à autoridade!, bradam outros, principalmente autoridades e apaniguados. O fato é que, entre nós, ter autoridade é um problema, mais que uma solução, e sofrer abusos de alguma autoridade não é nada incomum. Os mais pobres e de pele escura que o digam.

A polêmica que envolve o projeto contra o abuso de autoridade, que tramita na Câmara Federal, denuncia que há um nó cego, daqueles que não se pode desatar, na sociedade brasileira. Que há abusos policiais e de autoridades diversas, isso há. Mas que também tem muita gente que deve estar de olho na aprovação do projeto para se livrar da dura, isso também tem. E essa gente não é pobre. Pelo contrário.

O Congresso tem, assim, uma missão espinhosa, sob o ponto de vista ético e moral. Em seu seio, há provavelmente muitos dos que querem escapar das garras da lei, como os investigados na chamada “Operação Lava-Jato”. São homens públicos que governam e legislam não pelo bem público, mas visando vantagens pessoais. Fora dele, há, porém, pessoas que podem se beneficiar com uma legislação que restrinja abusos policiais e jurídicos.


É nesses momentos que se tem a noção do quanto é penoso lidar com as tramas da sociedade humana... principalmente a brasileira, que tem contradições suficientes para enlouquecer qualquer um que tente levá-la a sério. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Para especular vale tudo, porque tudo é especular

Gosto de locais onde há comércio. Geralmente são movimentados, efusivos, até mesmo alegres, sempre um tanto tensos. Transmitem vida, agitação, um pulsar marcante de coisas se movimentando, trocando de mãos. Há desejos, devaneios, sonhos e cobiça, tudo ali circulando, entre olhos e ouvidos atentos.

O rebuliço do comércio é o mundo dos objetos, que mudam de mãos e funcionam como mediadores fundamentais na relação entre o mundo privado e o público, assim como servem de mediação entre o indivíduo e seu círculo social e, no indivíduo, entre o seu mundo interno, constituído por seu imaginário, e o mundo simbólico que o funda ao lhe dar forma.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Conhecer X Saber: “o dinâmico” versus “o estático”


Aquele que quer conhecer está em um
labirinto onde cada experiência é inusitada
e os caminhos nunca são os mesmos
Se você já sabe algo, tente desaprender para conhecer; se conhece, saiba que os trilhos do conhecimento têm inúmeras estações e nenhum fim

Se você quer ter razão, jamais a terá. Se quer ter certeza, estará em posição incerta na maior parte das vezes. Isso é claro.

O fato é que só aprendemos quando admitimos não saber. Se sabemos, é sinal que o que sabemos já está ocupando o lugar destinado ao conhecimento e não há vagas.

A realidade não é o que queremos ou desejamos, nem, na prática, resultado daquilo que fazemos isoladamente. A realidade é plural e nunca é o que imaginamos. Nunca.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Sexo, drogas, rock’n’roll e o joão-bobo contemporâneo

Quando criancinhas, acreditávamos em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa, depois crescemos e passamos a crer que a juventude pode mudar o mundo

A tríade maldita (sex, drugs & rock'n'roll) não passa de um slogan de um bom produto. Se observado pelo ângulo macropolítico da contemporaneidade, isto é, sob o vértice da realidade política que observamos em nossos tempos, o movimento jovem dos anos 1960/70 não passou de uma manifestação bem comportada de protesto contra uma conjuntura que era amplamente desfavorável para a implantação de um capitalismo como o que conhecemos hoje: financeirizado, escravizador do espírito, sufocante e cruel, mas muito atraente e sedutor.

Trata-se de um caso em que o mestre manda todo mundo mostrar os dentes e todos obedecem prontamente, provocando toda a desordem que só a gente ordeira sabe causar.

Liberação invertida - Um dos elementos mais importantes no processo foi a liberação sexual, é claro. Antes a coisa funcionava muito emperrada, até que se liberava sexualmente. Depois da tal contracultura jovem, a coisa inverteu e tudo funciona liberado e depois emperra, porque não um não tem nada a dizer ao depois do sexo. Em boa parte dos casos, o que há é uma masturbação em dupla.

Em outros termos, até um ponto na história, as pessoas eram reprimidas sexualmente e, quando podiam, quando tinham a oportunidade, caiam na esbórnia. Era a manifestação crua do imperativo categórico formulado pelo filósofo alemão Immanuel Kant: se você deve, você pode.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Três parágrafos sobre o tema da limpeza


Há sujeiras que nenhum removedor tira. 
Nem sendo mágico, como o da foto
A limpeza é boa, sem dúvida e somente a obsessão por ela se torna problemática. Não sou um obcecado em tudo estar limpo, mas entendo que é bom estar limpo, em diversos sentidos. Limpeza moral, por exemplo, é boa. Chato você ser apontado na rua como alguém amoral ou imoral. Alguém lembrar de você e dizer que você é mau caráter é algo terrível, moralmente destrutivo. Sua companhia ser recomendada por escroques e malfeitores é terrível e quando ela é irrecomendável por pais de família e trabalhadores padrão, é pior ainda. Não se deve, porém, usar ou reforçar ideias moralistas, pois o moralismo é a falsa moral.

Mas a sociedade é muito limpa na aparência, assim como tantos de nós. Nos arranjos sociais há uma tendência a valorizar a primeira impressão, por isso se recomendam roupas bem talhadas e, se possível, caras. E há, também, do mesmo modo, uma ordem à qual costumamos chamar etiqueta (pequena ética), que prescreve normas para nossos procedimentos em ambientes sociais. Alguém me disse que essas coisas servem bem para ocultar outras, e estas outras estão relacionadas à animalidade. Talvez.

Há uma limpeza, porém, que todos devemos prezar, a da alma. E essa limpeza se consegue com o afastamento de coisas e pessoas que conspurcam, ainda que muitas vezes inadvertidamente, a vida daqueles com os quais se relacionam. Não raro, isso acontece de forma quase imperceptível e quando se vê, pronto, o caldo já entornou e você está enredado em alguma trama dantesca que só pode terminar mal. Às vezes há mesmo má intenção e nesses casos pode ser mais fácil para você perceber e evitar o dissabor. O problema é que, se vale tudo para o mal, o mesmo não vale para a defesa contra o mal e cometer algum ato perverso para evitar outro pode muitas vezes ser justificável, mas é algo que deve ser, sempre que for possível, evitado. 

sábado, 12 de novembro de 2016

Um grande delírio no qual tudo é racional, menos ele mesmo, o delírio

Alguém já disse que o dinheiro é essencialmente alienador, o que significa dizer que afasta quem o tem e usa da realidade, o torna algo ou alguém pior, pois com o dinheiro, possuindo-o, não se precisa aprender a fazer nada, ou, pelo menos, não é necessário saber fazer o que se compra, salvo casos específicos. Significa que, com o dinheiro, não se faz, se compra feito. Trata-se de uma relação próxima, senão identificada, com o parasitismo. Quem disse foi Karl Marx, um crítico aberto e feroz do dinheiro, ao menos aparentemente.

Mas, não levemos isso ao extremo. Afinal, tudo funciona em torno do dinheiro. E Marx não gostava mesmo do dinheiro, só que o mundo sem dinheiro que inventou é lastimável, ou, se mostrou ser, especificamente nas experiências políticas que trouxeram seu nome como bandeira. Mesmo que se considerem pontos positivos, como a experiência cubana na assistência à saúde, não dá para comprar o pacote inteiro. Até porque no mundo do dinheiro há, em alguns países, assistência à saúde tão boa quanto a cubana e abrangendo toda a população, como a cubana. Até que um tecnopolítico neoliberal assuma o poder e a destrua, é claro.