quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A violência ubíqua


Jean Baudrillard, teórico francês: as prisões existem para
que esqueçamos que vivemos em uma sociedade prisional
As gerações passadas resistiram à transformação em autômatos, já as de hoje parecem aceitar isso bem mais facilmente...

As empresas estão exigindo muito das pessoas, bem mais do que no passado, quando os mais entendidos afirmavam categoricamente que a tecnologia libertaria o ser humano para ter mais tempo livre e, consequentemente, mais tempo para si. Um dos que pensava assim era o libertário Henry Thoureau, o autor do célebre tratado sobre a desobediência civil. A realidade que a história nos mostrou, no entanto, foi quase diametralmente oposta. 

Recentemente, li que uma empresa jornalística põe, como requisito, para contratar um profissional, que ele tenha praticamente todo o seu tempo livre dedicado à empresa. Chega-se, segundo o texto lido, a exigir poucas horas de sono para que o jornalista frequente várias festas ou desfiles de moda na mesma noite e que faça matérias sobre todos, quase que instantaneamente. De certo modo, o que se pede é uma espécie de super-homem, ou supermulher, conforme o caso, ou, conforme dizem alguns amigos, um perfeito e autêntico autômato remunerado. Mal remunerado, dizem. 

O curioso é que a pessoa que aceitar se submeter às exigências um tanto absurdas acabará sendo contratado, provavelmente após algumas humilhações extras, e, quem sabe, estufará o peito de orgulho e satisfação. Esta é a era da exploração acirrada de quem trabalha e escapar de uma realidade como essa pode se tornar, no futuro, quase impossível. Cabe pensar o que leva as pessoas a aceitar esse tipo de coisas. Alguns dirão que é simplesmente a necessidade, mas perguntemo-nos: necessidade do quê? Respondamos, então, a essa pergunta: de viver uma vida insalubre e tola, recheada de entretenimento inútil e ideias prontas sobre tudo ou quase tudo; de pagar as contas dos serviços que raramente oferecem o que anunciam e que, na prática, somente lhe farão ser um autômato feliz, se é que isso é possível. 

O porquê de tudo isso? Tudo indica que a lógica subjetiva que fundamenta a ação das empresas se baseia na perspectiva de garantir um ambiente propício ao funcionamento do sistema de lucros, que não é mais do que o sistema que oficializa a retirada de bens e direitos de uns em favor de outros. Houve um tempo em que essa garantia tinha seus alicerces na pressão autoritária direta, na violência explícita. Isso era assim porque ainda havia resistências à integração a essa lógica. No entanto, com o correr do tempo, essas resistências vão caindo, simplesmente porque as novas gerações parecem já nascer acostumadas à realidade da automação de suas vidas e à humilhação de aceitar qualquer coisa por migalhas. Assim, a violência explícita e direta para quebrar à força a resistência torna-se cada vez mais dispensável. Simplesmente porque quase não parece haver mais resistência a isso, pois a violência já está incorporada à vida cotidiana, em todos os níveis, ou quase todos. 

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