terça-feira, 18 de outubro de 2016

A crase, essa incompreendida

O uso da crase é um dos maiores motivadores de desespero entre os comuns mortais que usam a Língua Portuguesa para se comunicar. Há muitas regras e o curioso é que todas costumam abrir exceções quando se trata da crase. E esse parece ser o problema maior.

A palavra “crase” é muito antiga (já era usada na Grécia das polis) e significa “fusão”. No caso, na língua, ocorre, efetivamente, a fusão de duas vogais idênticas, no caso em que há uma preposição “a” e o artigo feminino “a” juntos, e que ocorre também quando a preposição “a” se encontra com o pronome demonstrativo “aquele”, “aquela” ou “aquilo”. A crase, assim, é um sinal que indica que houve essa fusão.

Quando usar
Uma regra básica é substituir a palavra feminina por uma masculina. Se o “a” se transformar em “ao”, use a crase. Por exemplo, na oração “Os estudantes compareceram à sala para realizar o exame” há crase, mas, para ter certeza, a ideia é substituir a palavra “sala” por uma masculina semelhante. Veja: “Os estudantes compareceram ao colégio para realizar o exame”. Não há dúvida, aí tem crase.

Outro exemplo: “Agripina chegou tarde à festa”. Substitua “festa” por qualquer lugar aonde Agripina possa ter chegado tarde, como “ao encontro”, por exemplo, “ao cinema” ou “ao festival”, quem sabe. E pode usar a crase sem medo.

Mais um exemplo: “Ele disse desaforos à professora”. Essa é fácil, pois se a professora for substituída por um professor ele dirá desaforos ao professor.

Se ao substituir a palavra feminina por uma masculina não se aplicar o “ao”, não tem crase.

Na oração “Ele odeia a amiga da sua esposa”. Você muda para o masculino (amigo) e nada muda, a não ser o artigo “a” vira “o”, logo não há crase.

Na verdade, no âmbito da língua, o que ocorre é que o verbo transitivo indireto pede crase e o direto não pede.

Podem-se fazer perguntas básicas, aproveitando os exemplos postos acima:

- “Quem comparece, comparece aonde? A algum lugar, é claro”. Se comparece a algum lugar (não dá para dizer que comparece algum lugar, não é?) então há o “a” extra que será representado pela crase.

- Quem chega tarde, chega tarde aonde? A algum lugar, da mesma forma.

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Veja, abaixo, alguns tópicos selecionados sobre a vida e a natureza desse sinal gráfico odiado por tantos, amado por poucos e compreendida por quase ninguém.

1. Antes de palavra masculina não tem crase, porém...
A crase nunca deve ser usada antes de palavra masculina, mas há casos excepcionais. Quando você quiser dizer que alguém fez alguma coisa “à moda de” sem usar a expressão “à moda de”, há crase. Por exemplo: “O homem usava sapatos à Luiz XV” ou “Pedi um filé à Oswaldo Aranha”(1). Também deve ser usada a crase se alguém cantar “à Frank Sinatra” ou se fizer um gol “à Pelé”.

2. Antes de locuções indicativas de horas, empregue a crase, mas nem sempre...
Deve-se usar a crase nas orações “Às três horas começaremos a reunião”, “A partida terá início às 19h”, ou “Margarida esteve aqui às 8 horas”. Mas, atenção! Se houver a presença de uma preposição como “para”, “desde” e “até”, dispense o uso: “Afonso resolveu ir embora, pois estava esperando você desde as 8 horas!”, “Marcaram o encontro para as 20h” e “Fique tranquilo, eu chegarei até as 9 horas”.

3. Há crase antes de locuções adverbiais femininas que expressam ideia de tempo, lugar e modo
Exemplos: “Às vezes chegamos mais cedo à aula” e “Roberto terminou a tarefa às pressas”.

4. Há casos em que a crase é opcional:
a) Antes dos pronomes possessivos femininos “minha”, “tua”, “nossa” etc. Assim, tanto faz dizer “Eu devo satisfações à minha mãe” ou “Eu devo satisfações a minha mãe”. A escolha é sua.

b) Antes de substantivos femininos próprios. Você pode dizer que “Carlos fez um pedido à Mariana” ou que “Carlos fez um pedido a Mariana”. Mas, antes de nomes de mulheres consideradas célebres é melhor evitar a crase (“O texto faz referência a Joana D’Arc”).

c) Depois da palavra até. Já vimos, acima, que, no caso de locuções indicativas de horário, o até dispensa a crase, mas no caso de lugar, pode haver ou não a crase, sendo uma opção sua e apenas sua. Desse modo, “Os amigos foram até à Praça General Osório” vale tanto quanto “Os amigos foram até a Praça General Osório”.

5. Há casos em que a crase muda tudo
O uso ou não da crase pode gerar confusões. Veja um exemplo esdrúxulo, mas possível.

Alguém diz “As drogas me levaram a minha mulher”, ou diz “As drogas me levaram à minha mulher”. Como dito, é estranha a situação, mas parece servir bem para conhecer melhor sobre o uso da crase.

No primeiro caso, “As drogas me levaram a minha mulher”, afirma que possivelmente o uso de drogas causou uma desgraça na vida do narrador: a sua mulher, ou esposa, parece tê-lo abandonado por esse motivo.

Já no outro caso, “As drogas me levaram à minha mulher”, o que houve, ironicamente, foi a eclosão de uma relação possivelmente amorosa graças ao uso de drogas. Quem sabe, o narrador conhecer a esposa quando consumia algum tipo de droga, ou mesmo se pode imaginar que era a esposa que lhe fornecia as drogas, quem sabe...

Se, por exemplo, alguém vendeu “a vista”, pode ter vendido os olhos. Mas, se vendeu “à vista”, significa que vendeu algo mediante pagamento imediato. Da mesma forma, se você está “à vista” do segurança da loja, isso quer dizer que ele está de olho em você.

6. Quando nunca se usa a crase
Saber quando se usa a crase não é nada fácil, mas saber quando não se usa pode facilitar a vida de quem escreve. Assim, vamos listar algumas situações em que a crase é proibida.

a) Antes de substantivos masculinos: Conforme já visto, nesses casos, a crase cabe somente quando há a supressão da expressão “à moda de”.
b) Antes de verbo no infinitivo: Assim, “A partir de amanhã” nunca leva crase, nem “A depender da boa vontade” ou “A perder de vista”.

7. Diante de nomes de lugares, às vezes há crase, às vezes não
Na expressão “Quem tem boca, vai a Roma” você põe a crase ou não? Se você respondeu que não, acertou. Para ter certeza, imagine que quem tem boca também volta. Pense: quem tem boca volta “de” Roma ou “da” Roma? Quando se volta “de”, na ida não se põe crase. Mas, quando se volta “da”, aí se põe a crase.

Assim, você vai à Bahia ou mesmo à Groenlândia, porque vem da Bahia e da Groenlândia. Mas, vai a Paris ou a Fortaleza (capital do Ceará, não qualquer fortaleza militar, é claro), porque vem de Paris ou de Fortaleza. Ou, mais exatamente, não por isso, mas usar essa “técnica” ajuda bastante.

Até aí tudo bem, ou quase. Porque se você põe a palavra “cidade” antes do nome da cidade, aí tem crase, com certeza: “Você vai à cidade de Fortaleza este mês?”. E também há crase quando se especifica a cidade ou o lugar em geral com alguma característica, sempre há crase: “Vou à Paris dos monumentos”, por exemplo, ou “Vou à Fortaleza das belas praias”.

8. Afinal, você respondeu as questões ou às questões?
No último e-mail, no qual havia um teste para verificar nossa capacidade para escapar de algumas armadilhas da Língua Portuguesa, havia dez questões com gabarito e uma extra, no final, sem gabarito, que dizia respeito ao uso da crase. Eis a pergunta:

Você responde “às questões” ou “as questões”?

Resposta: se respondeu “às questões”, o fez corretamente. O verbo responder é transitivo indireto, sempre, ou bitransitivo, em casos especiais. Nesses casos, o verbo é transitivo direto com relação a uma coisa e objeto indireto com relação a uma pessoa, ou seja, é bitransitivo.

Veja: “Vou responder às perguntas”, quando o verbo é transitivo indireto (respondo a alguma coisa), mas “Vou responder as perguntas à professora”, quando o verbo é bitransitivo, ou seja, direto e indireto na mesma situação (respondo alguma coisa a alguém).

9. E ainda há mais
As regras da crase não acabam aqui, ainda há mais. Não se usa crase, por exemplo, em substantivos que se repetem: gota a gota, cara a cara, dia a dia, frente a frente, ponta a ponta etc.

Diante da palavra “casa” quando estivermos nos referindo ao lar ou habitação, sua ou de alguém, sem especificar de quem: “Chegou tarde a casa” (melhor usar “em casa”). Mas, se você especificar, ponha a crase: “Chegou tarde à casa de sua mãe”.

Já as outras casas, qualquer que seja, contanto que não tenha o sentido de moradia ou lar, todas levam crase: “Chegou saudável à casa dos sessenta” ou “O príncipe pertence à casa de Bragança”.

Já a palavra “terra” não leva crase nos casos em que significa “terra firme”, ou seja, quando você está navegando e aporta em algum lugar: “O capitão do navio ficou feliz quando voltou a terra”. Mas, se você voltar ao planeta Terra, aí tem crase: “Após uma longa viagem espacial o astronauta voltou finalmente à Terra”.

Ah, mas se a terra estiver especificada, como ocorre no caso de lugares como uma cidade, a crase existe: “Voltei à terra em que meus pais nasceram”. 

Se você pensa que acabou a confusão que envolve a crase, é muito otimista. Mas, por enquanto, vamos ficar por aqui.

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(1) O famoso “Filé à Osvaldo Aranha” é um prato que homenageia o político gaúcho Osvaldo Aranha. Consiste em um filé mignon ou um contrafilé temperado com alho frito e acompanhado de batatas portuguesas, arroz branco e farofa de ovos. É muito comum nos restaurantes do Rio de Janeiro. Ocorre que o nome foi dado por conta do hábito de Oswaldo Aranha de comer, usualmente, o tal filé no Restaurante Lamas, que existe até hoje e fica no Flamengo (bairro carioca), e no Restaurante Cosmopolita, localizado na Lapa (também bairro carioca), que era muito frequentado por políticos na primeira metade do século passado, tanto que recebeu o nome de “Senadinho”. 

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