segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Três pontos de vista sobre o “no aguardo”

Tem gente que fala em uma verdadeira praga, outras pessoas aceitam bem o uso e há os que usam com tanta frequência que nem suspeitam que não estão agradando. O fato é que o “fico no aguardo” se tornou corriqueiro nas comunicações de cunho profissional, sejam verbais ou escritas.

Dizer que está “errado” o uso é exagero. Dicionários como o Aurélio e o Houaiss o aceitam, até porque incorporam elasticamente formas de expressão da língua que não estão estritamente adequadas à Norma Culta. Há, porém, os que dizem que está errado e em portais e blogs da internet há mesmo uma discussão animada acerca do “no aguardo”.

Argumento contra: "aguardo" como verbo
Os “contras” dizem que o verbo “aguardar” pede um complemento, pois é verbo transitivo. Porém, o uso do “no aguardo” consideraria o “aguardo” como substantivo, como se você dissesse que está em um lugar chamado “aguardo”. Algo como uma sala de espera ou coisa parecida. É nesse sentido que os “contras” não gostam do uso e recomendam “ao aguardo”, pois consideram apenas o verbo.

Assim, para eles, em vez de “ficar ‘no aguardo’ de soluções”, você deve “ficar ‘ao aguardo’ de soluções”.

Argumento favorável: "aguardo" como substantivo
Há os que, além de usar, quase glorificam o uso do “no aguardo”. Dizem que o que há é uma derivação regressiva (1) do verbo aguardar e que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras registra “aguardo” como substantivo masculino. Assim, tem como definição um “período de espera” ou “a atitude de quem aguarda”. Para eles, a imagem da sala de espera é válida, pois consideram a forma substantiva derivada do verbo.

Uma terceira visão – Use com moderação
Os argumentos contrários e favoráveis voltam as costas para a questão que parece fundamental nesse caso. Creio ser importante falar, antes de qualquer consideração, da indelicadeza do uso do “estou no aguardo” ou do “fico no aguardo”.

Entendo que falar ou escrever isso corresponde a dizer: “Estou esperando, vê se responde logo!”, ou “Vê se faz logo o que eu lhe pedi”. Ou seja, é uma manifestação de impaciência que só pode ter o intuito de pressionar, de forma um tanto descortês, o interlocutor. Logo, salvo em situações bem específicas, o “no aguardo” deve ser usado com moderação, especialmente reservado para casos em que você queira, sem qualquer subterfúgio, pressionar o interlocutor. Mais precisamente, é bom usar isso apenas “contra” quem você tenha absoluta certeza de que merece muito essa pressão (ou até mesmo coisa pior).


Quadro com a correção de dez erros que são 
abomináveis atentados terroristas à língua
http://solinguagem.blogspot.com.br/2012_09_01_archive.html
Se você cultiva a cortesia nas suas comunicações, entendo que não deve usar “no aguardo”, ou evitar ao máximo o seu uso. Que tal um “agradeço antecipadamente sua resposta”, ou um “desde já lhe sou grato(a)”? Ou, quem sabe, deixar claro que a resposta de seu interlocutor é muito importante e está sendo ansiosamente aguardada, dizendo claramente isso? É bem mais cortês, agrada ao ouvido e não causa mau humor.

Concluindo... Prefira não ficar "no aguardo"
Sabendo disso, você tem liberdade para optar. Pode continuar “no aguardo”, considerando o substantivo, pode usar “ao aguardo”, considerando o verbo, ou pode usar o “no aguardo” somente nos casos em que deseja expressar sua impaciência. Sempre justificada, é claro.

Conheça algumas alternativas para substituir o ”no aguardo” em situações em que você não quer passar como indelicado ou indelicada:
  • Aguardo sua resposta para finalizar o projeto (pode, inclusive, citar que é importantíssima a resposta). 
  • Aguardo seu retorno para negociarmos o preço (é possível referir os benefícios da negociação para ambos). 
  • Espero seu e-mail para prosseguirmos o debate (assim você dá mostras de como está interessante a conversa).

 Se o caso é o de pressionar, deixar o interlocutor incomodado, mas sem usar o descortês “no aguardo”, você pode alertá-lo para o fato de que outra oportunidade a resposta requerida demorou e o projeto atrasou, por exemplo. Ou que a demora no retorno pode resultar que você pode vender o produto para outra pessoa, ou ainda que o debatedor (ou debatedora) está correndo da discussão, essas coisas... 

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(1) Ocorre quando há a formação de uma palavra por redução do vocábulo, não por acréscimo. Assim, “compra” vem de “comprar” e “beijo” vem de “beijar”, “amasso” vem de “amassar” e “agito” de “agitar”. Há quem argumente que há casos em que a palavra reduzida gera o verbo, casos em que essa palavra é um objeto e o verbo deriva do objeto. Por exemplo, “âncora” daria existência ao verbo “ancorar”.

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