quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Quem só quer conforto permanece na estagnação

Quando você olha em volta e tudo lhe começa a parecer estranho é sinal que você está fora do tradicional campo semântico que lhe é (ou era) habitual. De certo modo, quando isso acontece, como refere o antropólogo Everardo Rocha no livro “Magia e Capitalismo”, é sinal de que começamos a entender que as coisas são o que são mais por uma questão das suas relações do que por conta da essência que supostamente têm. Isso quer dizer que é preciso atentar para o contexto e que as características dos objetos e sujeitos mudam de acordo com o lugar que ocupam (1).

O habitual é o confortável, o estranho é o oposto, causando uma inequívoca sensação de desconforto, quase sempre ou sempre. O conforto remete a um estado de estabilidade, de um ambiente conhecido no qual se pode relaxar e até mesmo adormecer. O ambiente de casa, do lar, é habitual e reconfortante e, se há esse ambiente fora de nós, é certo que haja o registro anímico dele, dentro de nós. Da mesma forma, um ambiente público, na maioria das vezes, não é confortável, ou não é tão confortável quanto o de nosso lar, chegando, em alguns casos, a ser hostil. Nele, não será fácil adormecer.  

A questão é tão bem marcada sob esses parâmetros que se pode dizer que mesmo algo desagradável que ocorra com muita frequência em nosso lar pode mesmo se tornar algo incorporado ao conforto do “já conhecido”. Um odor peculiar, que em outras situações consideramos insuportável, pode se tornar algo tão habitual que se incorpora ao nosso cotidiano, tornando-se parte de nossos dados relativos ao conforto. Da mesma forma, um ruído ou algo que se vê constantemente.

Conforto demais atrapalha
O conforto é bom, muito bom, ótimo mesmo. No entanto, no conforto nós não desenvolvemos nada, não aprendemos nada, não amadurecemos em nada. O conforto é estabilizante, aplanador da experiência, referência de imobilidade e descanso. Coloque alguém em uma situação absolutamente confortável e não se assuste se o resultado for o sono e o adormecimento quase instantâneo.

Por outro lado, não é raro que ouçamos dizer que o habitual é enfadonho, desestimulante e mesmo triste. A rigidez de hábitos, sua sequência cotidiana e repetitiva, é argumento para abandonos de emprego, fim de relações amorosas e até mesmo suicídios. Conforto demais desagrada a muita gente.

A insatisfação produtiva
Tudo tem sua hora e isso quer dizer que há a hora do habitual e há a hora do estranho. O desconfortável ajuda o desenvolvimento da pessoa, tanto no plano físico quanto no anímico. É nos momentos de insatisfação, de desconforto, que as condições são propícias para o aprendizado e as alterações físicas que levam à maturação e ao crescimento, seja em que nível se fale em crescimento.

Em outras palavras, o habitual e confortável é bom, mas não ajuda muito, não traz vantagens além do descanso. Já o estranho e desconfortável é ruim, desagradável, estressante, mas ajuda bastante no que diz respeito ao aprendizado e à maturação. O descanso é bom, fundamental no processo de aprendizado e maturação que se dá em momentos de tensão e estresse, de desconforto.


Se você quer evoluir, evite a preguiça crônica
e situações continuadas de puro prazer ou
conforto; se quer aprender coisas novas e
enriquecer a alma, aceite o desconforto e o
estranho: só assim se amadurece e se cresce
Vivência do estranhamento enriquece a alma
Toda esta conversa me parece importante pelo menos em um plano singelo: nós, que vivemos sob a égide da lógica do chamado Ocidente, costumamos dividir tudo em polos opostos, excludentes, como se a realidade tivesse dois lados, um claro e um escuro, que não se comunicam. No entanto, os orientais têm muito a nos ensinar porque, como o signo do yin e yang demonstra, entendem que há interação entre polos, sempre, já que um polo não existe sem o outro. O escuro precisa do claro, o alto se escora no baixo e o alegre só o é porque há a tristeza.

O habitual é o confortável, o seguro. O estranho é incômodo, incerto, insatisfatório. Neste, há o choque cognitivo necessário para a aprendizagem, para a maturação, para a realização de feitos produtivos e para a compreensão de quão complexa é a realidade. No conforto do habitual não há choque, mas repouso, tranquilidade, satisfação. São dois opostos, daqueles que são como água e óleo, noite e dia. No entanto, um depende do outro e a pessoa que procura o habitual e evita o desconfortável empobrece a alma, cai na estagnação, enquanto a outra, que aceita o estranho como parte integrante de seu processo vital e mesmo o valoriza como fundamental à vida, tende a enriquecer a sua alma.

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(1) Na contemporaneidade, a lógica que define as coisas como fechadas em si, ou seja, como definidas em si mesmas, independente da situação, conjuntura ou relações que têm, perde espaço para outra, que as define de forma situacional, relacional e conjuntural. Entendo que a antropologia foi decisiva nesse processo, descentrando a lógica etnocêntrica do pensamento ocidental que, curiosamente, a criou para reforçar o etnocentrismo da visão de mundo europeia, comprovando a superioridade do homem europeu. 

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