quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Polêmicas da Língua Portuguesa

Erros comuns 
“Herrar é umano”, se diz por aí. E é verdade, ainda mais quando se trata da língua portuguesa, que não é das mais fáceis de se falar e escrever. O que mais se vê por aí, ou melhor, o que mais se lê por aí são erros gramaticais e de ortografia, grandes e pequenos, leves ou graves, tanto faz. 

Mas, quem sabe falar e escrever tão perfeitamente que jamais erre? O problema, na verdade, não é o erro ou equívoco ao tentar falar e escrever dentro das normas cultas da língua. Problemático mesmo é errar insistentemente, de forma reiterada e obstinada. Ou seja, errar é admissível e compreensível; insistir no erro é que chama a atenção, principalmente quando somos alertados de que estamos errando. 

Por conta disso, vamos aos alertas de erros comuns, para que não os cometamos mais. Ou, se os cometermos, que não seja por falta de aviso. Logo após tratarmos disso, falaremos dos erros inaceitáveis, os graves, aqueles que nem eu, nem você, nem ninguém pode cometer.  

Você prevê que serão necessárias mudanças “a longo prazo” ou “em longo prazo”? 
Se essas mudanças ocorrerão “a longo prazo”, talvez nunca ocorram, pois não é adequado o uso da preposição “a” nesse caso. Usa-se outra preposição: “em”. Se a previsão é a de que as mudanças serão necessárias em “longo prazo”, aí tudo bem. Elas demorarão, mas vão ocorrer, pode ter certeza. 

Não esqueça que uma preposição é um elemento gramatical que serve para ligar dois elementos de uma frase, de modo a que se estabeleça uma relação entre eles. No caso, a mais adequada é a “em”, pois as tais mudanças serão necessárias dentro de um determinado período de tempo, que se está definindo genericamente como um “longo prazo”, sem precisar qual. Quando falamos que algo acontecerá dentro de um lugar ou durante um período temporal, a preposição “em” é a adequada. 

Por exemplo: “A festa para a qual lhe convidei terá lugar ‘em’ um salão”. 
                      “Prometo que lhe pagarei a dívida ‘em’ duas semanas”. 
                      “O problema estará resolvido ‘em’ pouco tempo". 

Mas, atenção! O Dicionário Houaiss considera o uso da preposição “a” nesses casos (“a longo prazo”, por exemplo). No entanto, para um gramático “linha-dura” isso é inaceitável. Mas, a língua muda, se desenvolve e se transforma, por mais que os eruditos tentem permanentemente manter a sua essência intocada. E, nos tempos antigos, o dicionário era bem mais rígido e praticamente não se incluíam formas imperfeitas entre seus verbetes, a não ser que ratificadas pela Norma Culta. Mas, hoje, a tendência tem sido a de incorporar essas formas, talvez no espírito de aceitar e mesmo promover o dinamismo da língua ou, quem sabe, apenas para registrar formas linguísticas muito usadas, apesar de não primorosas. 

Assim, a escolha é toda sua. Se você quiser preservar a língua da forma mais pura e bela e sair bem na foto com os linguistas mais exigentes, use “em longo prazo”. Se não quiser saber disso, mantenha suas previsões de mudanças “a longo prazo”. Haverá quem torça o nariz, mas como você não se importa mesmo com isso, tudo vai ficar bem. 

O fato é que são tantos os usos inadequados de elementos da língua que muita gente chega mesmo a defender que se “libere geral”, pois quando todos erram, o erro vira acerto, como as mentiras que repetidas se tornam mais verdadeiras do que a própria verdade. 

Você “colocou” seu argumento na reunião? 
Se você fez isso, é útil saber o que foi feito do seu argumento, se alguém o guardou depois que você o “colocou” na reunião. E tomara que ele não tenha sido pesado para quem o colocou... numa estante, por exemplo. Sim, porque “colocar” é sinônimo de pôr. E, não se iluda, você não põe um argumento em uma reunião ou mesmo na cabeça de alguém. Mas, pode “colocar em discussão” o seu argumento, o que corresponde a inclui-lo na pauta da reunião. É algo muito diferente de fazer uma “colocação” no sentido como se tem usado, isto é, como sinônimo inadequado de "apresentar", "expressar" ou "dizer algo".

Colocar é um verbo que somente deve ser usado com o sentido de pôr algo em algum lugar. Do mesmo modo, “colocação” corresponde a algo posto em algum lugar. Se você pensa em “colocar” algo na reunião, pode colocar a sua caneta no meio da mesa, a sua mão no bolso ou até mesmo o colega da cadeira ao lado na sua lista negra. Mas não coloque a sua opinião ou o seu argumento. Não é adequado linguisticamente e, além de tudo, pode haver quem interprete mal essa atitude. 

Os terríveis ERROS INACEITÁVEIS! 
Como se disse até aqui, há erros que não são mais compreendidos como erros, sendo melhor definidos como formas não aprovadas pela Norma Culta, algo como formas linguísticas vulgares ou populares, conforme a preferência de quem as define. Mas, há os erros inaceitáveis. Aqueles que desqualificam quem fala ou escreve. Abaixo, alguns exemplos:

- “para mim fazer” – jamais use o mim nesses casos. Mim não faz nada, apenas sofre a ação (“Dê isso para mim”). “Eu” é sujeito, “mim” é objeto. Eu faz, mim é feito, por assim dizer. 

O correto é falar ou escrever “para eu fazer”. Assim, você pode dizer “Me consiga farinha para eu fazer um bolo?”, sem susto. 

E tem mais, quando quiser envolver alguém em uma ação conjunta, algo como “Entre ‘eu’ e ela há muito afeto”, aí sim, use o mim. O correto é “Entre mim e ela há muito afeto”. Então, veja: entre eu e ela não há nada, mas entre mim e ela, aí sim, há muita coisa, ou pode haver. 

Mas, atenção! Não use “entre mim e tu”; o correto é “entre mim e ti”. 

- “Todo mundo gosta dele, ‘mais’ eu não gosto!” – esta é outra forma erradíssima de expressão. “Mais” é advérbio, transmite a ideia de intensidade, exprime a noção de maior quantidade de algo, como na expressão “Ela é a mulher mais bonita que já vi”. Também há casos em que é conjunção aditiva e transmite a lógica da soma e do acréscimo, da adição, como na matemática: “Um mais um são dois”. Há, ainda, outros usos, mas os deixemos de lado por ora. 

Já o “Mas” é termo usado como conjunção adversativa e tem como sinônimos o “porém”, “todavia”, “entretanto” ou “contudo”. Assim, “Todo mundo gosta dele, ‘mas’ eu não gosto!” é o correto. Do mesmo modo, “Eu gostaria de comprar um doce, ‘mas’ não tenho dinheiro!”. 

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