quarta-feira, 27 de julho de 2016

Para o liberal, a tartaruga é franca favorita na corrida contra Aquiles

Capitalismo verde é brincadeira. Ou deveria ser. Quero dizer que capitalismo que leva em consideração a preservação ambiental não existe, é algo tão incongruente como um anão gigante. Tudo indica, observando os últimos séculos, que o capitalismo é um sistema predatório, essencialmente predatório.

Dizendo isso não estou clamando pelo fim do capitalismo ou bradando palavras de ordem socialistas. É apenas uma constatação. E não é só minha. Recentemente li texto de Richard Smith, um historiador econômico estadunidense, que cita um interessante trecho de um livro do economista Lester Thurow, que veio ao Brasil dar entrevista no programa Roda-Viva, da TV Cultura, aí por 1996 ou 1997 e causou muito boa impressão. A vinda foi provavelmente para promover o livro, o que conseguiu, pois fui um dos que correu às livrarias para adquiri-lo e nelas soube que a procura estava grande, com pessoas citando a entrevista dada à TV estatal paulista.

O livro chama-se “O Futuro do Capitalismo” e é bastante ponderado e coerente nas suas discussões e conclusões. Smith destaca o seguinte trecho, que aborda crucialmente a temática da devastação ambiental promovida pelo capitalismo.

“Em nenhum outro aspecto da vida, o horizonte de tempo do capitalismo é um problema mais agudo do que na área do ambiente global… O que poderia fazer uma sociedade capitalista sobre problemas ambientais de longo prazo, como o aquecimento global ou a redução da camada de ozônio?… Usando as normas de resolução do capitalismo, a resposta ao que deveria ser feito hoje para prevenir tais problemas é muito clara – não fazer nada. Por maiores que possam ser os efeitos negativos, daqui a cinquenta ou cem anos, o preço que se paga por provocá-los, no presente, é zero. Se o valor corrente das consequências negativas futuras é zero, então, segundo a lógica econômica vigente, nada deveria ser gasto hoje para prevenir que emerjam aqueles problemas distantes. Mas se os efeitos negativos forem muito grandes daqui a cinquenta ou cem anos, então será tarde demais para fazer qualquer coisa capaz de melhorar a situação, já que qualquer coisa a ser feita naquele tempo poderia somente melhorar a situação num futuro distante, de cinquenta ou cem anos. De modo que, se forem bons capitalistas, os que viverem no futuro também decidirão não fazer nada, não importa quão graves sejam seus problemas. Finalmente, chegará uma geração que não poderá sobreviver no ambiente alterado da Terra – mas a essa altura será muito tarde para fazerem qualquer coisa e prevenir sua própria extinção. Cada geração toma boas decisões capitalistas, embora o efeito em rede seja o suicídio social coletivo.”

Tomando em consideração o dito por Thurow e o observado na história, não há muito como negar que o capitalismo é, enquanto sistema, danoso ao ambiente. E não apenas à natureza, se levarmos em conta a natureza como um conjunto de árvores, terra, rios, rochas e mares que nos circunda a nós, humanos que vivemos em cidades. Estas, as cidades, são terrivelmente insalubres e, curiosamente, o capitalismo verde propõe, para melhorar a salubridade urbana, medidas econômicas pautadas pela circulação feérica de mercadorias e recomendações, usualmente chamadas de “ecológicas” ou “sustentáveis”, que, na prática, parecem mais destinadas a fazer girar com mais animação o carrossel econômico, circulando mais ideias e produtos e gerando mais riquezas, sem naturalmente distribuí-las, é claro.

Mas, retiremos o foco do “capitalismo ecológico” e olhemos mais adiante para entender o que ocorre.

O outro lado
Na verdade, tudo o que foi dito acima pode ser ponderado. Para fazer isso, você pode buscar o prestimoso auxílio de um liberal. Proponha uma discussão sobre o tema e, muito provavelmente, o que ouvirá é que os problemas apontados não dizem respeito ao sistema capitalista, mas, surpreendentemente, à intervenção estatal. Todos, ou quase todos, os problemas do mundo, para um liberal, estão relacionados ao maldito Estado, que aparenta ser o demônio e encontra seu contraponto na figura iluminada do Mercado, que tudo resolve e tudo soluciona para o bem de todos.

Com certeza, o Estado necessita de amarras e controle para funcionar sem causar danos, mas atribuir ao Estado todos os males equivale à prática de inventar monstruosidades inverossímeis para, depois, inventar armas infalíveis para enfrentá-las.

Fanatismo
A concepção religiosa maniqueísta do Mercado Bom contra o Estado Mau está adstrita ao pensador liberal como uma capa que o envolve. É claro que há exceções, sempre há, ainda bem. Mas, no geral, a estrutura subjetiva da lógica liberal parece ser essa. O sujeito trabalha com uma noção absolutamente metafísica na qual tudo funciona às mil maravilhas e a usa para obscurecer a sua própria percepção da realidade, que sempre caminha em sentidos diversos das concepções ideais, como a liberal.

Um bom exemplo parece ser o da desigualdade econômica. Para o liberal, deve haver maior igualdade, para que os concorrentes fiquem em posição aproximada no certame pela sobrevivência e pelo enriquecimento. Na prática, não há igualdade nenhuma, muito pelo contrário, mas ao constatar isso, ou ao fingir constatar isso, o liberal afirma que o problema está no Estado, como sempre. A intervenção estatal, afirma ele, conspurca tudo, mas se tomarmos em conta a liberdade do Mercado, tudo estará bem. Isso soa como loucura, ou fanatismo, e se assemelha à situação na qual o fanático promete a um doente a cura, desde que este acredite no que aquele está lhe dizendo.

Suponha que não falemos exatamente da igualdade econômica, que liberais, socialistas e todo e qualquer outro ser pensante afirmarão ser uma ficção. Suponha que falemos da liberdade de oportunidades. Bem, essa liberdade precisa existir para que o sistema capitalista funcione a contento, segundo o liberal, mas, curiosamente, o poder econômico a barra, na medida em que impõe restrições muitas vezes intransponíveis ao que detém menos poder, no mesmo movimento em que a serve quentinha na mesa dos que detêm esse poder.

Regulação só a favor dos ricos
Tudo indica que, para equilibrar a balança, para que o rico não obstrua o caminho do pobre e o condene à pobreza, é preciso, então, alguma regulação. Mas o liberal diz que não e jura que a saída está na cada vez maior desregulamentação, na promoção radical da liberdade. A única regulação que o liberal parece aceitar bem é a policial, a da polícia que defende a propriedade de quem a tem dos ataques daqueles que não a têm, em muitos casos porque o que a tem tirou, usualmente de forma homeopática, de modo leve e gradual, a possibilidade que aquele que não a tem pudesse tê-la, pagando-lhe menos do que merece pelo feito e ainda usando seu prestígio junto ao Estado para criar taxações que engordam os cofres públicos para beneficiar, em primeiro lugar, a quem mais tem (1).

O liberal parece pensar de forma aproximada ao modo como pensavam filósofos como Zeno de Eleia, que provou, utilizando uma completa e absoluta abstração, que uma corrida que envolvesse o herói Aquiles e uma tartaruga terminaria com a vitória desta, contanto que lhe fosse dada uma vantagem. A ideia é a de que Aquiles jamais alcançaria a tartaruga porque quando ele se movesse em direção em sua direção, ela também se moveria e assim por diante.

Habilmente, Zeno provava, com uma lógica tão elevada quanto improvável, a sua tese. Apenas não conseguiria fazer com que a tartaruga, na prática, vencesse a corrida. Mas, isso não importa (2).

Da mesma forma, toda a lógica de funcionamento liberal caminha no sentido do paradoxo, do absurdo. Capitalismo Verde ou Capitalismo com Responsabilidade Social são dois desses paradoxos que temos engolido cotidianamente.

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(1) E se você é brasileiro pode usar o passado recente para entender essa trama, pois um governo de um partido que se disse desde sua fundação contrário ao capitalismo adotou medidas que taxam pesadamente a população produtiva, o assalariado, enquanto promoveu uma verdadeira festa para grandes empresários nacionais, utilizando, para isso, o BNDES e a Petrobras. Esse governo caiu, mas o problema é que o que está assumindo tem práticas semelhantes e, dizem, alguns de seus integrantes foram professores para os que deixam o poder dando tão maus exemplos.

(2) Zeno supunha haver uma soma de infinitos intervalos de tempo, o que o levou a afirmar que seria necessário um tempo também infinito para Aquiles alcançar a tartaruga. Algo totalmente fora de contexto, pois há que se entende, na prática, que os infinitos intervalos de tempo formam uma progressão geométrica, cuja adição convergirá, certamente, para um valor finito. Isso significa que, contrariamente ao idealizado por Zeno, Aquiles não apenas chegaria à tartaruga, como a ultrapassaria, contanto que não se pusesse a tartaruga diretamente sobre a linha de chegada... 

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