sexta-feira, 15 de julho de 2016

O ponto pacífico consensual da verdade gira no carrossel da realidade humana: divagando sobre o que é o pensamento

O termo “Ponto Pacífico” é usado para designar uma certeza consensual, ou seja, um fato ou uma realidade que não é ou não pode ser contestada e com a qual, assim, todos concordam ou devem concordar. Inclusive, esta definição, tudo indica, é um ponto pacífico. 

Como exemplo, temos algumas possibilidades, como a que segue. 

Alguém olha para o céu e constata que está azul, sem nuvens. Outra pessoa, ao lado, faz o mesmo e diz que o céu está azul. Ambos concordam e aí está um ponto pacífico. Se, porém, não há concordância, há um conflito de percepções, parece claro, e se há conflito não há paz. 

O Consenso
O “Ponto Pacífico” pode ser chamado, da mesma forma, de “Consenso”, ou depende dele para ser o que é. 

O “Consenso”, como parece óbvio e chega a ser um ponto pacífico, remete à concordância estrita e completa em relação a um determinado tema, fato ou assunto. Essa concordância integral, porém, pode ser obtida por conveniência de parte dos membros de um grupo, é claro, como nos velhos e conhecidos procedimentos políticos de barganhar algo em troca da concordância com algo. 

O conceito de “Consenso” parece ir mais longe em relação aos parâmetros subjetivos ou, em outros termos, parece mais elaborado para incorporar algumas abstrações relativas à alma humana, ou àquilo que interpretamos como a alma humana. 

Um “Ponto Pacífico” é praticamente algo como uma rocha, sólida e inatacável. Já o consenso parece mais flexível, talvez porque o termo ponha a ênfase do sentido na ação humana e não no fato, enquanto o “Ponto Pacífico” está adstrito especificamente ao fato, que é, já que “Ponto Pacífico”, inquestionável. 


A Verdade
O “Ponto Pacífico” é uma “Verdade”. O fato do céu estar azul é algo absolutamente verdadeiro no exemplo posto anteriormente. Verdadeiro porque há uma convenção de que aquilo que está lá, acima de nós, é chamado genericamente de “céu” e, também, de que certa percepção do olho humano considere e defina como azul a cor que está, em determinado momento, predominante no céu. E verdadeiro, da mesma forma, porque enunciado por alguém a alguém, já que algo verdadeiro é usualmente compartilhado e, por ser compartilhado, muitas vezes retira desse fato o seu estatuto de verdadeiro. 

Afinal, há quem diga, que a “Verdade” é sempre consensual, seja porque o “Ponto Pacífico” existe como algo inquestionável em si (uma percepção fenomenologicamente irrefutável), ou como algo consensual, isto é, algo em relação ao qual as partes concordam, mas não necessariamente por ver o mesmo céu azul. Tem que haver concordância, no entanto, em relação às convenções conceituais e linguísticas que definem aquilo que está acima de nós e também em relação ao nome dado à percepção de uma determinada cor, no caso do exemplo, o azul. 

A “Verdade” depende, assim, de certas convenções, inclusive, em muitos casos da convenção de que há uma “Verdade”. Isso, você há de concordar, pode ser um “Ponto Pacífico” consensual, o que significa que é verdadeiro, mas como já sabemos, é construído sobre convenções que, por sua vez, são pontos pacíficos consensuais e verdadeiros no sentido em que são convencionais e por aí vai, sempre e sempre, no mesmo círculo virtuoso ou vicioso, conforme a ocasião, o momento, o tempo e os personagens presentes no carrossel daquilo que nós, humanos, chamamos de “Realidade”, algo que é mais amplo do que a “Verdade”, geralmente não consensual e pleno de conflitos de todos os tamanhos, formas e cores. 


O carrossel
Não vá ficar tonto, ou tonta. Mas, se isso acontecer, relaxe. É simplesmente o efeito do ato de pensar que precisa ser, necessariamente, conflituoso, dissonante e incerto. Para isso, porém, é preciso que parta de pontos pacíficos, de consensos básicos e da crença de que há algo verdadeiro. E para quê? Para que sejam relativizados e, em muitos casos, entortados e mesmo destruídos, quando isso for possível. 

Essa é uma parte do turbilhão que costumamos chamar de “Pensamento”. Uma entidade artificial, estranha, alienígena e estrangeira que usa certezas, verdades e consensos como base para perder a base ou, mais precisamente, para reconstruí-la estando em cima dela, que, por sua vez, paira sobre o inqualificável e abismo da natureza.

De certo modo, a lógica proposta aqui propõe entender o pensamento como alguma coisa próxima ao que Anaximandro propôs ser o Ápeiron, ou seja, a Arché, aquele elemento ou princípio que está presente em todas as coisas humanas e, assim, nós, humanos, enxergamos em tudo e à qual tudo adaptamos. 

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