terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Quem leva o mérito pela queda de homicídios em SP? O governo ou o PCC?


Segundo o pesquisador Graham Willis, canadense que leciona
na Universidade de Cambridge, Inglaterra, o PCC é o principal
responsável pela notável queda de homicídios em São Paulo... 
Os homicídios caíram bastante em São Paulo na última década. O governo bate no peito e puxa para si os méritos. O governador fala nos policiais mortos, “heróis anônimos” etc. Aí, vem um pesquisador canadense, logo, aparentemente, sem vínculos de interesse político-partidário, que diz que o governo e a polícia não têm nada a ver com isso. Segundo ele, cujo nome é Graham Willis, a queda é resultado da regulação realizada pelo Primeiro Comando da Capital, o PCC, uma organização que congrega criminosos e nasceu, assim como o Comando Vermelho, no Rio de Janeiro, para combater os maus tratos nas cadeias. 


O governo paulista adota a “teoria do quase tudo”, segundo Willis. Isso significa que lança mão de tudo o que pode para dizer que os homicídios baixaram por ações suas. Ora se argumenta que foi a ação ostensiva da polícia, ora é o desarmamento, ora a redução do desemprego, ora ações sociais. Ora, ora, ora. Vale tudo para faturar, na mídia e na opinião pública, o mérito que o pesquisador diz que o Estado não tem. 

Willis lançou livro no qual utiliza seu material de campo para mostrar que o PCC conseguiu acesso maior às comunidades pobres e que substitui o Estado na segurança e nas ações de assistência social. Na prática, vamos ser honestos, o Estado só costuma chegar às comunidades através da polícia e o que a polícia costuma fazer não se pode chamar de assistência, muito pelo contrário. 


... enquanto isso, o governador Geraldo Alckmin e sua
equipe de Segurança dizem que a hipótese de Willis é
ridícula e falam de seus próprios esforços e méritos 
Um dado interessante fornecido pelo pesquisador, professor de Cambridge, universidade britânica: a delegacia de homicídios é a mais desvalorizada na polícia e seu desaparelhamento contrasta com a estrutura dos batalhões voltados para a repressão, como a famigerada Rota. 

Debate aberto
Fica o medo de constatar que o Estado brasileiro, seja em que nível se fale, definitivamente não valoriza a pessoa ou a vida e ainda tenta faturar prestígio em tudo, em típicas manifestações de malandragem explícita, como no caso em questão, se tomarmos a sério os dados de Willis. 

Puxando todas as brasas para a própria sardinha, o governo paulista diz que a compreensão do pesquisador é ridícula e afirma que todos os indicadores relacionados a crimes caíram no estado. Pode ser, pode ser. 

Mas, de todo modo, é difícil acreditar que uma polícia que tem se mostrado essencialmente violenta e inimiga da população possa ser apontada como responsável pela queda da criminalidade. Como diz Willis, a queda de homicídios foi marcante a partir da introdução do PCC nas comunidades e foi também muito rápida para ser resultado de alguma ação estatal. Pior: via de regra, como diz o mesmo professor, ações policiais costumam incrementar a violência, não debelá-la. Afinal, são pautadas apenas pela vigilância e, fundamentalmente, pela violência. 

Já o PCC tem lá seu poder, geralmente bem mais presente, pois está infiltrado na cultura das regiões pobres desde o início deste século e suas ações punitivas são bem mais efetivas e, para o criminoso, bem mais difíceis de ser evitadas por quem as transgride. 

De todo modo, o debate está aberto. 

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