terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O que é, afinal, essa tal “saúde”? (3)


A serpente que morde a cauda, representa a imortalidade.
A metáfora é atribuída a Esculápio, mitológico Deus da Medicina
 
Capítulo 3: A Medicina na Roma Antiga

Os romanos aproveitaram muito dos conhecimentos gregos em tudo, inclusive na Medicina. Roma, o grande Império da Antiguidade, se fundou basicamente na cultura da Grécia, embora tenha desenvolvido saberes e práticas culturais com identidade própria, como ocorreu na terapêutica baseada em ervas, orações e cantos que caracterizava os primeiros socorros no seio das famílias romanas. Já no que diz respeito à Medicina Militar, essa influência parece ter sido marcante.
Os romanos continuaram a tradição médica grega de dar mais atenção a fatores naturais em detrimento de fatores espirituais, embora mantivessem, assim como os gregos, crenças e práticas diretamente vinculadas à espiritualidade e, é claro, a medicina não estivesse livre de influências como essa
O sucesso do eficiente exército romano dependeu, em boa parte, dessa medicina, que era praticada nos primeiros hospitais, os valetudinários, dos quais falaremos mais adiante. “Valetudo” era o nome romano para a deusa grega Hígia ou Higeia (de onde o termo higiene, relacionado à perpetuação da saúde e prevenção contra o adoecimento) e, assim, também uma referência da boa saúde. Essa divindade foi retratada diversas vezes segurando uma pátera (espécie de taça, muito usada nos sacrifícios antigos) com uma serpente enrolada, constituindo o que hoje conhecemos como o símbolo da Farmácia.

O símbolo da sabedoria e da imortalidade
A Serpente de Epidauro é uma figura cujo nome está ligado a um dos templos construídos em louvor ao pai de Hígia, Esculápio, o Deus das curas e de toda a Medicina. Tudo indica que a referência leva em conta o formato circular do templo como o registro mitológico do Ouroboros (ou oroboro ou ainda uróboro), ou seja, a serpente que morde a própria cauda, representando a imortalidade (1)


A "Cloaca Máxima" era um sistema de esgotos que existia para 
preservar a higiene urbana e a saúde dos cidadãos romanos

A serpente, afinal, representa, historicamente, a sabedoria e a imortalidade, na medida em que seria um elo entre o mundo dos vivos, o nosso mundo conhecido na superfície terrestre, e o dos mortos, o mundo desconhecido, os subterrâneos (há antigas crenças de que as serpentes carregavam almas vindas do Hades, terra dos mortos). Já a alegoria com a taça remete à cura por meio da ingestão de algo, no caso, os medicamentos.

Os primeiros hospitais
Os "valetudinários" foram os primeiros hospitais de que se tem notícia. Eram instituições militares que pretendiam agilizar o atendimento aos soldados feridos e que se instalava na frente de batalha, como uma grande enfermaria. Assim, os feridos não precisavam mais ser enviados a aldeias próximas para atendimento e recebiam cuidados quase imediatos. Segundo se sabe, os valetudinários surgiram durante o reinado de Augusto, imperador que viveu entre 27 a. C. e 14 d. C.. Com esse recurso, as perdas militares foram consideravelmente minoradas e, com os valetudinários vieram também os médicos com formação militar específica, diferente dos médicos que atendiam as famílias romanas.

Cabe dizer, ainda, que o planejamento militar romano levava em conta, também, medidas precisas de higiene, de modo a, estrategicamente, manter a tropa em boas condições de saúde e vitalidade, sem riscos do contágio causado por condições insalubres dos acampamentos militares.


Galeno, médico grego
que viveu em Roma
Uma civilização higienicamente desenvolvida
Durante o império romano, se desenvolveram as técnicas médicas, como a da cirurgia, inclusive com qualificação dos instrumentos próprios para isso, como cateteres, fórceps e bisturis. Do mesmo modo, cresceu a literatura médica e foram se definindo bem claramente as especializações, como a urologia e a oftalmologia, embora tudo indique que os conhecimentos e as práticas médicas levassem mais em consideração o todo, tomando como fundamento a lógica grega do equilíbrio e harmonia do organismo com o ambiente. Os miasmas, como as exalações pútridas emanadas de cadáveres, por exemplo, eram supostas causas de contaminação, podendo levar à eclosão de terríveis epidemias. Aspirar o ar contaminado poderia causar doenças.

Bem se pode notar que os romanos continuaram a tradição médica grega de dar mais atenção a fatores naturais em detrimento de fatores espirituais, embora mantivessem, assim como os gregos, crenças e práticas diretamente vinculadas à espiritualidade e, é claro, a medicina não estivesse livre de influências como essa. Não era raro que catástrofes, como pestes, fossem atribuídas a castigos divinos. No entanto, iniciativas como a do estabelecimento do saneamento urbano (vide a “cloaca máxima” romana, um engenhoso sistema de esgoto) apontam para o fato de que os fatores ambientais concretos ganhavam muita atenção. Assim, a lógica do contágio parece ter sido bem melhor compreendida e a prática da quarentena foi intensificada.

Alexandria, a maior biblioteca da Antiguidade
Em parte, o desenvolvimento da medicina romana adveio do fato do império ter se estendido e a cidade de Alexandria ter sido conquistada. Lá, nessa cidade localizada no litoral egípcio, havia uma grande biblioteca com inúmeros e importantes tratados da Antiguidade, inclusive publicações acerca de Higiene e Medicina. Tudo leva a crer que essa biblioteca foi muito importante como local de pesquisa que abrigou sábios da Antiguidade. A maior parte dessas publicações era formada por papiros.

A cidade de Alexandria é, atualmente, a segunda mais populosa e um dos centros urbanos mais importantes do Egito e, no passado, teve um farol que é classificado como uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Seu nome, é claro, foi dado em homenagem a Alexandre, o Grande, imperador macedônio. A livraria foi erguida por Ptolomeu I, sucessor de Alexandre e foi destruída por um grande incêndio.  Há quem diga que a biblioteca do romance “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, também incendiada no final do livro, não é mais que uma alegoria da famosa biblioteca de Alexandria, na qual se perderam inúmeras obras importantíssimas para a época.


Representação pictórica do incêndio da biblioteca de Alexandria
Galeno, um dos gênios da Medicina
Galeno (129/217 d. C.) foi um médico grego, nascido em Pérgamo (território grego na Ásia, dentro do atual território turco), que viveu sob o Império Romano e foi pioneiro nos estudos fisiológicos, notadamente nos estudos anatômicos, pois se especializou na dissecação de animais, principalmente macacos. Foi médico pessoal do imperador Marcus Aurelius e escreveu uma pequena obra com o título "O Melhor Médico é Também um Filósofo". Assim como os outros médicos gregos, como Hipócrates, Galeno trabalhava com a noção central de equilíbrio do organismo com o meio.

Ele distinguiu as veias das artérias, os nervos sensoriais dos motores e o sangue venoso do arterial. Formulou a hipótese de que o corpo humano é comandado pelo cérebro e que são os rins os responsáveis por secretar urina. Associou também a voz humana à laringe e seus conceitos foram importantes no ensino médico até pelo menos o século XIX. 

Foi Galeno quem demonstrou que as artérias conduzem sangue e não ar, como se acreditava. O famoso médico descreveu, ainda, a caixa craniana e o sistema muscular e nervoso e desenvolveu técnicas cirúrgicas, como uma para correção da catarata. Suas concepções acerca do que ocorria no interior dos órgãos eram errôneas, pois não havia, naquele tempo, tecnologia ótica. No entanto, só recentemente foram corrigidas, com o avanço tecnológico que permitiu maior conhecimento acerca do que se passa no interior do corpo humano. 

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(1) Reza a lenda que, certa vez, Esculápio (também chamado Asclépio) feriu uma serpente que iria atacá-lo e observou que outra serpente a socorreu, trazendo na boca uma erva para a curar. Segundo essa história, aí estaria a origem de sua compreensão da importância das plantas e da alegoria que toma a serpente como símbolo da imortalidade. 

Texto reproduzido do blog SOU+SUS

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