segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O que é, afinal, essa tal “saúde”? (Parte 2)


Hipócrates, o "Pai da Medicina",
compreendia a saúde como um
estado de harmonia do corpo
com o ambiente que o circunda
Capítulo 2: a Medicina Grega

Na publicação anterior, vimos como era a Medicina Egípcia na Antiguidade. O Egito foi uma civilização muito avançada surgida em torno de 3150 a. C. e que perdurou por três milênios. Seus avanços técnicos, tecnológicos e em conhecimentos, como os matemáticos e também os fisiológicos, foram vastos e há um registro fundamental, o Papiro de Ebers (1552 a. C.), que contém mais de 700 fórmulas para tratamentos terapêuticos diversos, inclusive para livrar residências de pragas. 

Os conhecimentos desse povo antigo em relação ao sistema circulatório, com a plena ciência da existência de vasos sanguíneos em todo o corpo e definindo o coração como o centro da circulação do sangue, são bastante avançados e a psiquiatria tem espaço na descrição de um mal bem parecido com o que hoje chamamos "depressão". Os egípcios também foram longe na arte do embalsamamento e compreendiam fundamentalmente que os agentes patogênicos estariam no ambiente e atacariam o corpo, que nasceria, em tese, são e livre de males. 


No Mundo Antigo, particularmente na Grécia, havia a noção de que o equilíbrio é fundamental em tudo, inclusive na saúde e doença
Agora, que tal falar de outros povos antigos, que demonstraram bastante sapiência no que diz respeito aos cuidados com a saúde? Falemos, então, da Medicina na Antiga Grécia. 

Equilíbrio e a harmonia como fundamentos da Medicina 
Vejamos que a civilização grega antiga é dividida, historicamente, em quatro períodos: 

1- Período Arcaico: do século XIII a.C. ao séc. V a.C.;

2- Período Clássico: do século V a.C. ao século IV a.C.;
3- Período Helenístico-Macedônico: do século IV a.C. ao século I a.C.;
4- Período Helenístico-Romano: do século I a.C. ao século V d.C.

Segundo Denise Barbosa e Pedro Carlos Piantino Lemos (no texto “A medicina na Grécia Antiga”)  os períodos mais importantes para a medicina foram o Arcaico e o Clássico. 


No Período Arcaico, os conhecimentos anatômicos foram sendo construídos com base, tudo indica, em dissecções de animais, ou seja, fazendo-se analogias com a anatomia humana. Conheciam-se a traqueia, a garganta, a bexiga, o coração e o reto, basicamente e é provável que os tratamentos se baseavam em práticas religiosas, pois se acreditava que tanto a saúde quanto a doença eram responsabilidades dos deuses. 




Representação de médico grego com paciente
Os gregos acreditavam numa “Energia Vital”, que estaria presente em todas as partes do corpo e que era mantida por elementos exteriores ao corpo, como o ar, alimentos e bebidas. Mais tarde, surgiram teorias que apontavam os elementos água, terra, fogo e ar como responsáveis pela energia do organismo e, é claro, pelas características deste. Desde então, o equilíbrio e o desequilíbrio entre esses elementos determinavam a saúde e a doença, respectivamente. 

No final desse período surgiram novas formas de compreender a saúde e a doença, não mais vinculadas a fatores sobrenaturais. 


Os filósofos médicos: Hipócrates
No chamado Período Clássico apareceram as grandes figuras emblemáticas do pensamento grego, como Sócrates (470-399 a.C.), Demóstenes (384-324 a.C.), Aristóteles (384-322 a.C.), Platão (427-348 a.C.), Tucídides (455-400 a.C.), Sófocles (496-406 a.C.), Péricles (498-429 a.C.) e Hipócrates (460-377 a.C.), este último considerado o “Pai da Medicina”. Foi nesse tempo que se escreveram os primeiros tratados médicos. 

Hipócrates entendia que a integração harmônica entre o ser humano e o meio ambiente definiria a saúde, um estado que se definiria pela integração interna e externa do organismo. Adoecer, assim, seria estar organicamente em desequilíbrio, tanto interna quanto externamente. Galeno (129/217 d. C.), médico grego que viveu sob o Império Romano, compartilhava da mesma crença. Ele foi pioneiro nos estudos fisiológicos. 


O estar em equilíbrio é, provavelmente, a definição mais antiga do que seja saúde e as medicinas orientais, como a hindu e chinesa, também trabalhavam e até hoje costumam trabalhar com esse conceito. Havia, é claro, a compreensão de que esse equilíbrio dependia de inúmeros fatores e o contato com elementos do ambiente poderia causar o desequilíbrio do organismo, assim como se entendia que o organismo podia ter efeitos pernósticos em relação ao ambiente, causando desequilíbrio entre os elementos naturais. 



Esses conhecimentos básicos sobreviveram até os nossos dias, pois foram adotados pelos povos que dominaram a região e pelo fato de que inúmeros elementos da cultura grega compuseram os currículos das primeiras universidades criadas durante o domínio do Império Cristão de Carlos Magno, na Itália, na Espanha e na França, no decorrer dos séculos IX e X d.C., pois as obras hipocráticas foram guardadas na famosa Biblioteca de Alexandria, que teria sido destruída por incêndio na Idade Média, embora essa versão não seja aceita por todos. 

Humores ditavam a personalidade
Voltando ao “Pai da Medicina”, Hipócrates, cabe lembrar que se tratava de um asclepíade, isto é, um descendente do mitológico Deus da Medicina, Asclépio. Não foi o primeiro de sua família a exercer esse ofício, mas foi inegavelmente o que ganhou maior destaque e que se projetou na história humana. 

Ele compreendia que quatro humores corporais, sangue, fleuma (ou pituíta), bílis amarela e bílis negra, determinavam a saúde e a doença, de acordo com a harmonia e o equilíbrio entre eles. O já citado Galeno seguiu a mesma trilha e até o século XVIII a Teoria dos Humores foi importantíssima na Medicina Ocidental. 


O juramento de todos os médicos
Leia, abaixo, a forma completa tradicional do “Juramento de Hipócrates”, que é assumido por todo médico, quando de sua formatura: 
Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higeia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes. 
Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. 
Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.
Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.
Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.
Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça.
Hipócrates
O texto do Juramento foi encontrado nos seguintes endereços: http://www.gineco.com.br/jura.htm e http://www.ipebj.com.br/docdown/_a4247.pdf

O presente texto foi integralmente retirado do blog SOU+SUS no endereço http://soumaissus.blogspot.com.br/2016/02/o-que-e-afinal-essa-tal-saude-capitulo.html 

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