quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Muito além de más escolhas estratégicas


Lula & FHC: mórbida semelhança
Tomo a liberdade de recomendar a leitura do texto "Pau que bate em Luiz bate em Fernando?", de Guilherme Boulos, publicado no dia 04/02/2016 no portal Outras Palavras

O texto é interessante e concernente, em parte. Chama a atenção para a ausência de investigações acerca da atual oposição. Os tempos tucanos, apesar de já terem sido denunciados suficientemente em suas mazelas, como no livro da Privataria Tucana, que, cá entre nós, não recebeu repostas convincentes do time atacado que, aliás, parece não ter se preocupado muito em se defender. Como sugere o articulista, a impressão é a de que realmente os políticos da oposição, principalmente os tucanos, segundo se diz, não receberam e não parecem tender a receber a mesma malícia que os da situação, como o ex-presidente Lula, têm que enfrentar. Isso parece verdadeiro. 

No entanto, é preciso ponderar algo mais. E o articulista o faz, a seu modo, criticando as “escolhas estratégicas” de Lula. Sim, as escolhas citadas merecem críticas ferozes, pois real e indubitavelmente, Lula e o PT não estão fazendo mais do que colher o que plantaram, conforme reconhece Boulos. 

Pecados imperdoáveis
Eu, pessoalmente, esperava que Lula e o PT, por todo o tempo em que militei, não exatamente em suas fileiras, mas lado-a-lado com muitos militantes petistas, honrassem os discursos de antanho, dos brilhantes tempos da construção do partido, de sua consolidação e vitória nas urnas. Esperava ansiosamente, e sabia que era condição essencial para o sucesso de um projeto “de esquerda” (ou seja, de distribuição de riquezas), que se enfrentasse a “estrutura arcaica do sistema político brasileiro”, no qual “interesses públicos e privados sempre conviveram promiscuamente”. Mas, o que vi foi que não apenas a convivência promíscua se manteve como é possível que tenha inclusive se acentuado. 

Concordo com Boulos, da mesma forma, quanto ao problema dos petistas terem mantido, intocado, “o monopólio midiático empresarial, que hoje os dilacera”. E tenho certeza de que os petistas optaram por manter e, talvez, intensificar “uma aliança com a elite econômica, pensando talvez que seriam tratados como os ‘de casa’”. 

Realmente, com tamanha irresponsabilidade, Lula, Dirceu e o PT “chocaram o ovo da serpente”, cometeram pecados que dificilmente podem ser perdoados. Não tinham o direito de agir de forma tão leviana e irresponsável. Com isso, causaram lesões terríveis na reputação da "esquerda", pois, efetivamente, embora se diga que distribuíram riqueza, que tiraram milhões da miséria etc., mais distribuíram para o andar de cima do que para a população, que ganhou, proporcionalmente, esmolas. Claramente o governo priorizou o grande capital  e tirou demais das camadas médias, que, agora, justificadamente, babam de ódio e pedem a cabeça de Lula e Dilma. 



Ferida pela herança dos erros de Lula e pela sua incompetência,
Dilma é mantida no poder apenas por conveniência dos algozes
Coisa de novo rico, de golpista
Há concordância com as críticas, de minha parte, mas creio que algo ficou não dito no texto de Boulos. Desse modo, digo que Lula e o PT mergulharam na mentalidade corrupta que caracterizava tudo aquilo que criticaram desde a fundação do partido, em 1980. Não foram apenas “escolhas estratégicas”, foi safadeza mesmo e, aparentemente, cabe falar de canalhice. 

Mais uma vez, cito o que teria dito Florestan Fernandes, fundador do PT e que foi deputado pelo partido: “Eles não são de esquerda. São sindicalistas tentando melhorar de vida”. Ele falava dos petistas e, provavelmente, não sabia que o intuito de melhorar de vida iria tão longe a ponto de manter e até mesmo aprofundar esquemas de corrupção, como o da Petrobras. 

Parece coisa de quem se diz socialista apenas para se dar bem na vida. Coisa de novo rico, golpista. 

Pior que mero erro estratégico 
Boa a iniciativa de Boulos, mas Lula e muitos petistas (não todos, é claro) cometeram pecados demais e a única coisa que deveriam ter feito para não sofrerem o que agora sofrem era ter agido com lisura, com maior lisura do que os que hoje os criticam agiram no passado. No entanto, parece difícil crer que isso tenha ocorrido. 

Os males de Lula e do PT vão muito além de más escolhas estratégicas. 

Mas, por outro lado, cabe observar que a imprensa lembra demais de Lula e esquece muito dos tucanos. De certo modo, fica até a impressão de que foram o Lula e o PT que inventaram a corrupção no governo brasileiro. 

Leia, abaixo, o texto de Boulos. 

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Lula e Dilma riem, juntos, em imagem
de um passado distante, quando havia
motivos para gargalhar. Já agora...
Pau que bate em Luiz bate em Fernando?

Por Guilherme Boulos | 04/02/2016

Discordar das escolhas estratégicas de Lula não autoriza a silenciar quando as elites o perseguem – nem a esquecer a hipocrisia brutal deste ataque seletivo

No apagar das luzes de seu mandato, o ex-presidente promoveu um jantar no Palácio do Planalto para a nata do PIB nacional – Odebrecht, Gerdau, Lázaro Brandão, entre outros – com direito a vinho francês e refinado menu. Mas o prato principal era obter dinheiro para o financiamento de seu instituto após sair da presidência. Conseguiu naquela noite a bagatela de R$7 milhões.

O filho do ex-presidente teve as contas de um hotel de luxo em Ipanema, onde morou por certo período, pagas por um grupo empresarial do setor têxtil. Andava pra lá e pra cá de BMW e tinha um jatinho permanentemente à sua disposição. Isso tudo com o pai ainda na presidência da República.

O ex-presidente e seu partido foram acusados por certo senhor que foi seu Ministro de Estado e figura ativa na campanha eleitoral de terem apropriado nada menos que R$130 milhões de sobras de campanha em sua primeira eleição, sendo R$100 milhões de caixa dois. Disse ainda que o recurso foi provavelmente enviado ao exterior.

O nome deste ex-presidente é Fernando Henrique Cardoso. O filho pródigo é Paulo Henrique Cardoso. E o acusador dos desvios na campanha de 1994 é José Eduardo de Andrade Vieira, banqueiro que foi Ministro da Agricultura de FHC.

Nenhum desses fatos é novidade. Mas não renderam dez minutos no Jornal Nacional por dias a fio nem repetidas manchetes da Folha. Não fizeram também com que FHC e seu filho fossem intimados a depor pelo Ministério Público.

Se fosse o Lula…

Aliás, o mesmo Ministério Público de São Paulo que intimou Lula e sua esposa não denunciou nenhum agente político no escândalo do “trensalão” tucano e arquivou o caso das irregularidades no monotrilho, que apareciam numa planilha apreendida com Alberto Youssef.



Segundo Boulos e outros analistas, falta à mídia e aos tribunais a
mesma sanha de justiça, empregada contra os petistas do Petrolão,
em relação aos tucanos envolvidos no trensalão e outros escândalos 
Seguindo a toada, o Ministério Público de Minas Gerais também pediu o arquivamento do caso do aeroporto de Claudio. O então governador Aécio Neves (PSDB) desapropriou a fazenda de seu tio para construir um aeroporto, cuja chave (do aeroporto “público”) ficava em poder de sua família. O MP mineiro não viu motivo algum para intimar Aécio ou oferecer denúncia.

FHC é tratado pela mídia como grande estadista e nunca foi incomodado pelo MP ou pela Polícia Federal. Em seu governo, aliás, ambos eram controlados na rédea curta. Suas transações com o pecuarista e empresário Jovelino Mineiro, seja na controversa fazenda de Buritis (MG), seja na hospedagem frequente em apartamento na capital francesa nunca geraram grande alarde. Atibaia desperta mais interesse que Paris.

Aécio, por seu lado, desfila em Brasília como defensor da moralidade. Tal como FHC é aplaudido em restaurantes e não tem porque se preocupar com investigações. Seu nome apareceu em mais de uma delação da Lava Jato, mas não cola.

Em relação a Lula, a disposição é outra. Uma canoa vira iate. E o depoimento de um zelador é tratado como condenação transitada em julgado.

É verdade que Lula e o PT pagam o preço de suas escolhas. Não enfrentaram em seu governo a estrutura arcaica do sistema político brasileiro, onde interesses públicos e privados sempre conviveram promiscuamente. Mantiveram intocado o monopólio midiático empresarial, que hoje os dilacera. E optaram por uma aliança com a elite econômica, pensando talvez que seriam tratados como os “de casa”. Chocaram o ovo da serpente.

Mas criticar suas escolhas estratégicas – como é o caso aqui – não significa legitimar um linchamento covarde e com indisfarçado interesse político. Se há acusações em relação a favorecimentos da OAS ou da Odebrecht, que Lula seja investigado. Como Fernando Henrique nunca foi e os grão-tucanos não costumam ser.

Contudo, investigação – e jornalismo investigativo – não podem carregar o selo das cartas marcadas e da seletividade. Definir que Lula é o alvo e, depois, fazer uma devassa pelo país em busca de um argumento factível é transformar investigação em achincalhamento e argumento em pretexto.

Como gosta de dizer um famoso morador de Higienópolis: “assim não pode, assim não dá”.

http://outraspalavras.net/brasil/pau-que-bate-em-luiz-bate-em-fernando/

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